O Olho de Belize viu: “A história dos ursos pandas contada por um saxofonista que tem uma namorada em Frankfurt”

“(…) Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!… “

“O albatroz”, Charles Baudelaire

  • Compreensão correta

Encarar o teatro de Matéi Visniec é uma experiência singular. O primeiro impulso de buscar as referências é logo desencorajado, já que a atenção é a primeira instrução de bordo para o espectador de teatro. Atenção correta para compreensão búdica.

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Ainda que as peças de Matéi também possam ser lidas, já que sua perícia no trabalho com a linguagem e estrutura é tamanha, recomendo ao leitor que não seja descartada jamais a experiência do teatro. Teatro só é teatro no palco, a letra presente nos corpos, gestos e sons dos atores. A leitura, pessoal e solitária, ainda é um exercício burguês.

O discreto charme da burguesia em suas leituras jamais substituirá o espetáculo atroz e pungente do ato de assistir à uma peça. Ainda mais quando se trata de Matéi.

De escuridão em escuridão

Abriste os olhos: vejo minha escuridão viver.
Eu a vejo até o fundo:
mesmo aí ela é minha – e vive.

Leva além? E desperta ao levar?
De quem é essa luz que me acompanha o pé
até um barqueiro me aparecer?

Celan

  • Pensamento correto

“I’ll join with black despair against my soul, 
And to myself become an enemy.”
Richard III

cenario

Um homem e uma mulher em nove noites. Ainda que pareça não é um enredo seguro. A cenografia nos transtorna ainda mais, sendo, ela própria, um personagem que arrebanha os outros, dialogando e retrabalhando as experiências. Escolha sabiamente onde vai se sentar, espectador. Não é como assistir um filme. Abra seus ouvidos e olhos. Ainda assim, não captaremos tudo. E ainda bem.

Acostumados a saber demais, ver demais, ouvir demais, a peça nos esconde seus mistérios. Os atores são sábios, o diretor mais. Os atores transpassam os olhos pela quarta parede, encontram os espectadores por um segundo e vão embora. As vozes dos atores transformadas e recapituladas em máquinas e tiranias de som e vibração. Não mais. Eles fazem questão de nos lembrar que são atores e que assistimos uma peça, às vezes o tom mecânico nos tira do leve sono da suspensão da realidade. Essa dissociação comum do espectador acostumado à televisão. Estar ali e não estar ali é impossível.

A peça é, também, sobre sobrevivências contínuas, cúmplices e o exercício de estar no mundo. Sobre os contatos, não mais pelas abduções, mas o medo que permeia todo diálogo. O conflito que treme nas entrelinhas e explode: “Você não é justa.”

E quem é?

O teatro cobra o corpo e a mente do espectador. Então, os atores imitam suas próprias falas, personagens de personagens e nos transtornam o pensamento, fincando nossa mente nesse Presente, entre gift and simple present. O Agora.

  • Ação correta

“Existem os que pagam todas as suas alegrias, que expiam todos os seus prazeres, que tem que prestar contas de todos os seus esquecimentos: não serão jamais devedores de um só instante de felicidade.” (Cioran)

O tempo. Esta personagem também, assim como os artistas, está presente. O despertador esquecido de tocar, mas que não faz o tempo parar, muito pelo contrário, é um lembrete atordoador de que estamos atrasados, assim como Ela. E perdidos, como Ele, observamos as rotinas alheias, criando ficções que nos movem entre a geladeira e a sala de estar. Estar, mas é ali que se vive.

“Bem antes da noite
te visita alguém que saudou o obscuro.”

(Celan)

Visniec quebra parâmetros delicadamente. Não parece Ionesco porque não é Ionesco. Não parece Beckett porque não é Beckett. Mas nem por isso deixamos de enxergar que esteve sobre os ombros dos gigantes para construir suas obras. De Tchekov a Cioran, tudo está presente. Baudelaire também.

O tempo. As relações humanas escorrem pelos olhos dos espectadores para lembrar como o exercício do diálogo ao mesmo tempo que é absurdo, é também nossa salvação da barbárie e do fel. De solidão em solidão, caminhamos em busca de nove noites. E meia.

“O universo não se discute; se exprime.” Cioran

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A mecânica dos corpos e dos sorrisos fixos, olhares de pedra. Ela amedronta, ao mesmo tempo que denuncia a perspectiva dos sorrisos fake. O olhar vítreo, as repetições custam a passar por nós, entre as cenas, sem deixar um desconforto de “por que Ela ri?”. E Ela é a única que sabe. Do início ao fim, é a única que ri. A plateia não está alegre, está com medo. O desconhecido embalado com papel de Presente. O tempo sorri e Ela é o tempo. O tempo paranoia e não metanoia.

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(Na imagem acima, a atriz Mariana Nunes, “Ela”.)

Ele, o personagem, alcança o encontro e não deixa escapar, não é seduzido pelas mensagens da secretária eletrônica, nem pelas cobranças nas cartas. Acaba escapando do mundo, resvalando em todas as realidades, saindo de si, sendo devorado. A aventura bruta da realidade para além “e é bem lá que lanças tua alma.”

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(Na imagem acima, o ator Alexandre David, “Ele”.)

Como é possível alcançar o infinito exercitando o papel de peça fundamental na mecânica da sociedade? Como é possível alimentar todos os pássaros sem, no fim, desejar ser você mesmo o alimento? Como é possível abrir as asas, Albatroz, sendo apenas uma engrenagem?

Não é.

  • Esforço correto

Novamente engrandecer o cenário é necessário. Mímesis da vida, seus fragmentos despoluídos, suas cores completam-se e não há falsidade. O vinho do presente é imaginário.

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Mas a maçã do tempo único de Matéi não. Afinal, respeitemos a mãe que colhe as maçãs, como presença dos filhos, todos os anos. Ali, e talvez a palavra correta não seja batalha, nem luta, mas há, definitivo, um conflito entre tempos. Para além de passado, presente e futuro, cronologias e insatisfações com atrasos. Família é tempo passado que também flui pelo presente. É a maçã no escuro.

“As coisas que tocamos e as que concebemos são tão improváveis quanto nossos sentidos e nossa razão; só estamos seguros em nosso universo verbal, manobrável a nosso bel-prazer, e ineficaz. O ser é mudo e o espírito tagarela. Isso se chama conhecer.” (Cioran)

Há um tempo que a tudo permeia e que se faz no palco. O tempo-agora, circular e primevo, esquecido por todos. A nona noite.

O figurino casado tão profundamente com os corpos, que iniciam nus. O figurino casado com as luzes tão bem utilizadas que emociona. Que trabalho de luz! Iluminar é a arte de fazer a luz compor sua própria narrativa, entremeando a obra, os corpos dos atores, o cenário, os figurinos e também marcar o tempo. E os tempos. E a escuridão também foi utilizada de maneira impressionante na peça. Não se engane. Tudo é proposital.

A direção é propositalmente invisível. Direção correta, o olhar do diretor em tudo, mas, ao mesmo tempo, para os atores o palco não é uma gaiola de ouro, em que são alimentados por mãos invisíveis. Esses pássaros que nos devoram por todas as camadas são corajosos. Atores são corajosos, não se deixam encantar pelos aplausos?

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(Na imagem acima, o diretor da peça Marcio Meirelles.)

Não. Quem agradece, no fim ao público, é a personagem ainda. A peça entendida da vida, nos traz questões amargas que jamais justificarão as transgressões de fora dos palcos. A atriz conhece nossos pensamentos, sabe que os aplausos podem ser apenas encenação. E que encenação cruel. E ela continua seu riso, não está ali pelo aplauso, mas pela via sacra do palco. Ela sabe que sua alma está segura em algum lugar fora da cogitação de vaidades indissolúveis e é isso que dá a verdade em sua atuação. Não rimos com Ela, a personagem, nem poderemos jamais rir Dela. Eu vi Deus, e era uma mulher negra. Mas não era um deus católico, mas sim um Buda. Se você encontrá-lo, ele dirá: “Eu sou e estou contigo em todos os instantes.”

E está. “Vela com vela, lusco com lusco, brilho com brilho.” (Celan)

Você ouve e não ouve. Quando a mensagem se repete, apertando um botão, já é outra. A palavra já não transmite. Você só ouve o que deseja. O resto é apagado, indefinidamente.

É o infinito que encontramos nessa peça. Leva tempo para digerir, mais tempo ainda para escrever e mais tempos, mais tempos e espero que nunca entendamos o que se passou. Entender também é perder.

“E ainda o seguinte, perdido na surdez:
a boca,
petrificada e presa em pedra,
reclamada pelo mar,
que ano após ano vai amontoando os seus gelos.” (Celan)

  • Fala correta

O ator transmite pelo corpo a agonia, a espera e seu trabalho de voz é extraordinário. Variações de “a” te deixarão espantados em como um letra é capaz de comunicar e nós mesmos, falantes, ouvintes, não sabíamos. Mas é a letra que comunica? A voz?

As emoções múltiplas agora são apenas cinco? Like, Love, WOW, Angry and Sad?

E estamos errados novamente.

“Afundamos num universo pleonástico, onde as interrogações e as réplicas se equivalem.” (Cioran)

“Convido o público a ver e rever esta peça. Eu a escrevi quase que por uma revelação, como se eu mesmo tivesse vivido a situação dramática que é o seu ponto de partida. Pois isso poderia acontecer com qualquer um, porque a nossa alma é feita de sonhos e fantasias, e às vezes nem sequer sabemos como somos bonitos e complicados ao mesmo tempo (…) prontos a encontrar anjos e demônios em volta de uma mesma mesa…” (Matéi Visniec, em texto no programa da peça)

  • Concentração correta

Ao crítico, resta não fugir da busca pelas referências, mas sim uma procura de ritmo para escrita sobre a peça. O desafio da análise não é pela enormidade do autor e pelo tom do diretor, muito menos pelas atuações, luz, figurino, cenário. Tudo magnífico, sensível, que move o espectador, ainda mais o crítico.

Só que Shakespeare não explica, Freud também não. Buscar a poesia para compreender e escrever sobre “A história dos ursos pandas” é inevitável, suas linguagens em consonância, ainda que dissonantes, e é necessário dar isso ao texto, por isso as citações de Cioran, citado por Visniec em entrevistas; Baudelaire, citado na peça e Paul Celan, escolhido por mim para estar também neste texto.

“Luz – se houver – , não será dada a priori: terá de ser descoberta ou inventada a partir da mudez, da solidão.”

À crítica resta, senão, ser um auxílio para manter o mistério. E, de dentro do mistério no palco que, cada um, colha a própria flor amarga da Poesia. Com as próprias mãos.

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

FB: https://www.facebook.com/ahistoriadosursospanda/

Referências bibliográficas

  1. Hermetismo e hermenêutica, Paul Celan – Poemas II
  2. Breviário da decomposição, Emil Cioran
  3. O Nobre Caminho Óctuplo
  4. Flores do Mal, Charles Baudelaire

Ficha técnica

Texto: Matéi Visniec

Tradução: Alexandre David

Encenação: Marcio Meirelles

Elenco: Mariana Nunes e Alexandre David

Cenografia: Mina Quental / Atelier na Gloria

Iluminação: Paulo César Medeiros

Fotos: Dalton Valério

Figurino: Flavio Souza

Visagismo: Ricardo Moreno

Assessoria de imprensa: Monica Riani

Assistente de cenografia: Ellen Rambo

Aderecista: Lorena Lima

Cenotécnico: André Salles e equipe

Operação de Luz e som: Hugo Leonardo

Direção de palco: Rodney Gatto

Montagem de luz: Vanessa Alves

Técnico de Som: Leonardo Almeida

Idealização: Alexandre David

 

 

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