Geografia dos silêncios, didática a céu aberto: o Olho de Belize leu “Mar em ti com cereja”, da escritora Ivone Landim

 

(…) Mas o corpo é, frequentemente, o último que perdoa.”

Leloup

Perdoar

É perder

A dor”

Ivone Landim

E esse caminho/ que eu mesmo escolhi/ É tão fácil seguir/ Por não ter onde ir”

Raul Seixas, Maluco Beleza

Se a poesia andarilha nos convoca a caminhar por e com ela, é a geografia afetiva e arquetípica dos silêncios que os fragmentos da escritora Ivone Landim nos traz em “Mar em ti com cereja”.

Eu sei que determinada rua que eu já passei/ Não tornará a ouvir o som dos meus passos./ Tem uma revista que eu guardo há muitos anos/ E que nunca mais eu vou abrir.”

Raul Seixas, Canto para minha morte

O fragmento pluritemático enverga a concepção ocidental realista, acidentalmente inscrito no que conceituamos, ou tentamos, dentro da fluidez filosófica a que, hábeis, nos instruímos neste milênio. O fragmento senda. O fragmento-seda. Água salgada que escorre das feridas cotidianas e das memórias, mais fugazes que as palavras, porque não tem a quem recorrer. Escolhemos esquecer. Enterrar os talentos. E isso é morrer para o definitivo, acolhendo o inexistente fugidio. O ser e o nada.

Fez de tudo para morrer antes do tempo. Queria fugir inocentemente da existência.

Mudou-se para a Rua da Eternidade.”

Ivone Landim, Cemitério II

E a escrita se torna vizinha da Saudade. Escrita viajante, galga degraus, ao invés de estradas. Isola-se no tímido contexto da folha da árvore. Perde o conjunto da obra, acolhe o fragmentado de suas proposições como alguém que recolhe da varanda uma só acerola. E da acerola, já possui um planeta. Tao.

A Sra. Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores.”

Virgínia Woolf, Mrs. Dalloway

Praqueles que não compreendem a fascinação que o simples traz para os que já contemplaram os limites de suas artes e assim perceberam que a perfeição é impossível, esta simplicidade tão primorosa converte-se em ofensa. Por uma ignorância do que mora no laboratório do escritor. É como aquele que contemplasse por um instante a Tábua da Esmeralda e dissesse que nada há de sabedoria ali. Somente alegorias. Parábolas.

Coisa de poema que sai do Rio e vai para Jonas.”

Ivone Landim, A poesia explode

A alegoria está para a Vida, bem como a água doce está para o sedento. E aqui temos uma coisinha muito simples, mas empertigada: a metáfora, que construída com seu querido “como” se transforma em comparação porque literal. Mas seu fenômeno permanece ali, intocado, ainda que numa exemplificação… simples.

Entre simples e simplório, um abismo. E tudo é irônico.

Na Avenida da Eternidade, de dia, caminhava satisfeita e, à noite, sem medo. Sentia-se em casa com tantos amigos.

No seu tempo paralelo, ela entrava sem ter que pedir licença.”

Ivone Landim, Cemitério III

As palavras armadas da poeta, em “Palavra Andarilha”, deram lugar à prosa memorialística em “Mar em ti com cereja”, revisitando telas, fotografias e cenas de sua vida, cada qual com suas características. Se telas, as tintas apresentam-se como cores fugazes de mostras impressionistas. Se como fotografias, a técnica é recortá-las e, como fanzineira que é, a escritora recompõe as memórias jamais como um todo homogêneo. Seu livro é particularmente uma ilha de edição.

Blindou os olhos com seu novo óculos retrô…”

Ivone Landim, Entre o lucro e a certeza

Como cinematografia, o paralelo entre o narrador onisciente presente nos documentários e a onisciência do distanciamento, marca do narrador em terceira pessoa, é pré-requisito nesta escrita. Um livro autobiográfico em terceira pessoa. Um narrador fora do tempo de si mesmo, conta histórias enigmáticas a partir dos fragmentos não de quem é, mas de quem era.

Talvez mesmo o tempo cronológico não dê conta da narrativa autocrítica da escritora. Um ímpeto para “um treino de vida e morte”.

Ela, que tinha intimidade com a morte, chegou perto do moribundo, fez seu ritual de extrema-unção e partiu.

Agora, era ele que iria reaprender a vida.”

Ivone Landim, Cemitério IX

Queremos a ilusão grande do mar,

multiplicada em suas malhas de perigo”

Cecília Meirelles

“… é da minha bagunça que surge a minha literatura.”

Rubem Alves

O homem é o seu próprio livro de estudo. Basta ir virando as páginas, até encontrar o Autor.”

Leloup

Palavras que nascem de alma. A prosa de Ivone não deixa de ser poética. Profética. Marginal.

A linguagem é a superfície de um mar bravio em seu interior. As cerejas são distrações doces para um livro que, embora construído com inúmeras referências, não apresenta diretamente nenhuma delas, como no anterior, “Palavra Andarilha”. Por isso mesmo sua didática convence o leitor não só a buscar as enigmáticas referências, mas sobretudo a olhar para si mesmo, catar seus próprios fragmentos e observar as peças do quebra-cabeças da memória. Leitura de vermute. Palavra rascante. Prosa que rasga a leitura dinâmica.

Texto curto cortante. Fragmentos afiados.

A linguagem é apenas um jogo.”

Osho

Daí que este texto está vinculado à uma teoria porque é teoricamente que conectamos as referências e criticamente que as escrevemos a partir de uma escolha de repertório-âncora. Porém, esse jogo a que Osho se refere, o jogo da linguagem, ocorre independente de teorias, críticas, análises. O jogo da linguagem é o diálogo.

Por ser um fenômeno anterior ao poema e ao romance como estruturas ligadas à linguagem verbal, a linguagem em si continua tão misteriosa quanto as memórias dos Tempos. O humano é ato falho.

Dormir, para ela, era como ir ao cinema. Explico. Todas as imagens e narrativas estavam no sono que, para ela, era a dimensão de Deus.”

Ivone Landim, Narrativa dos sonhos

[…] “Como sustentava Sócrates, todo indivíduo capaz de raciocinar é filósofo, amigo potencial do conceito, então todo indivíduo capaz de sonhar é xamã, “amigo da imagem”.

Viveiros de Castro, “A inconstância da alma selvagem”

Convence as paredes do quarto, e dorme tranqüilo
Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo”

Raul Seixas, Por quem os sinos dobram

O indivíduo não deve acreditar na imortalidade; deve conhecê-la.”

Osho

A prosa de Ivone caminha entre sete corpos assentados na frugalidade da memória. A secura de suas construções, os estados de consciência que a teoria literária desconhece de si mesma faz com que eu mesma esteja limitada a discorrer sobre os delírios impossíveis porque inconectáveis pela língua. O silêncio do mundo é uma falácia.

Você não pode perder o ego porque não tem.”

Osho

O mar é um caminho sem volta, porque nunca realmente vai. Nem volta. As revoluções marinhas representam círculos. Mesmo a prosa finalizada, ainda continua de dentro para dentro. É um enigma sem resolução. Um labirinto sem Minotauro e, portanto, sem fio de saída. Não há o que fazer, os leitores já estão enredados em seus pensamentos.

Ou contempla ou se irrita.

Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva”

Rilke

Ser artista também da leitura.

Se é da areia que observamos, sem entrar nem molhar os pés, a experiência de leitura tende a ser vagarosa, mesmo nos fragmentos. Entrar e ser fisgado é outra história. Melhor respirar fundo, de qualquer jeito.

Ia e vinha do banheiro, após longas choradas, sentava junto aos outros e só tinha uma imensa vontade de correr e correr. A zabumba marcava o tempo do bote do estranho.”

Ivone Landim, O bom estranho

Debaixo do mar, tem pedra. Mas, até lá, a quantos afogamentos se sobrevive? Só peixe não se afoga. A biografia diluída vira faca de dois gumes a partir do momento que a memória tiraniza o fato. Cada um lembra do que escolhe, entre memória e esquecimento, lugar e deslugar, sensações e palavras. O que lembra tiraniza aquele da memória curta. Já o da memória curta recorre ao silêncio de todas as suas folhas em branco. Mas sente que tudo é uma eterna primeira vez.

O que lembra se cansa. O que esquece sempre se diverte. Borges criou Funes para nos lembrar de esquecer.

“… com esse isqueiro, pensei logo em evocar as chamas da salamandra, ali mesmo onde estava, dentro de casa. Fui às gavetas que estavam lacradas de teias de aranhas, peguei aqueles papeis do passado e fiz uma fogueira. Chamei por meu cigano árabe, joguei sobre ele meu lenço negro e guardei seu olhar no meu. Ocultei toda sua cor de sol amarelo-ouro.”

Ivone Landim, “Dinâmica”

Em “Riacho de letras”, podemos acompanhar a trajetória da escritora em sua passagem da poesia para a prosa: “Tinha dificuldades de achar suas palavras na prosa. Quanto aos seus olhos, este era o tipo de texto que mais lia. Lá estava ela, ávida, folheando as páginas de um livro como se fosse o único ato de sua vida escassa que valia a pena.”

E bem, numa biografia poética não importam os fatos, concluo. Mas aqui nessa prosa, a construção-reconstrução-desconstrução é mais importante do que o ocorrido e sua relação à verdade do passado. Num tempo cíclico, em que tudo é presente e eterno agora, a escritora está “solta da moldura para envelhecer”.

Mesmo vivendo a Jovem Júlia.

Há cartas. Para próximos e para os longínquos. Para si e para outros que, de alguma forma, ainda estão por aqui. A estética da epístola, seja pra amar, seja pra brigar. Ou pra evocar, invocar, expulsar. Círculos de fogo e palavra.

Que a permanência, e não o pó, seja o exemplo – e a memória, e não o esquecimento, seja o argumento de nossas vidas e a consolação de nossas mortes.”

Ledo Ivo, Ode à permanência

Digo aos leitores que leiam. Sem pressa. O mar não espera, mas provem a cereja com tranquilidade e contemplem o mistério. A caprichosa vem para todos nós, ao fim. A Indesejada das gentes, como diria Drummond.

Uma prosa vaidosamente Amarela.

(…) e em tua porta penetram como loucos

pois nada te abandonas e nem tu ao sono.”

Ana Cristina Cesar, Inéditos e dispersos

Ivone mastigou a palavra, digeriu os conceitos, atravessou os mares bravios da Mnemósine. Sua escrita desarticula as estruturas dos puristas e articula novas formas de procedimentos estilísticos na prosa fragmentada. Hermética, muitas vezes, por suas imagens desfocais. Escolhe referências não-literárias, mas também abraça profundamente Machado de Assis e Augusto dos Anjos. Basta procurar.

Algumas vezes há memórias que vem atulhar os nossos joelhos.”

Leloup

O livro de Ivone Landim é uma pergunta.

 

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

 

Bibliografia

Palavra Andarilha – Ivone Landim

O corpo e seus símbolos – Jean-Yves Leloup

Inéditos e dispersos – Ana Cristina Cesar

Mar Oceano – Lêdo Ivo

Cartas a um jovem poeta – Rilke

A psicologia do esotérico – Osho

Muitas vidas, uma só alma – Brian Weiss

Um mundo num grão de areia – Rubem Alves

Mrs. Dalloway – Virgina Woolf

 

Bibliografia complementar

Poemas clássicos chineses – Li Bai, Du Fu e Wang Wei

A voz do arco-íris – Leonardo Boff

Pedagogia da esperança – Paulo Freire

Sabedoria das parábolas – Huberto Rohden

Pedagogia social de rua – Maria Stela S. Graciani

Anúncios

“A solidão é vermelha”: o Olho de Belize leu “Alados”, do poeta Luiz Coelho Medina

https://www.youtube.com/watch?v=pP0yyFjQSos

Ando feito um bruxo, em metade.

Fazendo demais, alquimia.”

Luiz Coelho Medina

Minha mulher

diz que detesta meus poemas,

e minha musa, ao lê-los,

boceja.”

Luiz Coelho Medina

11665408_852431021505855_4527133513812414306_n

A um Ser Estranho

Estranho ser que passas! não sabes com que ansiedade ponho

meus olhos em ti,

bem podes ser aquêle que eu andava buscando ou aquela que

eu andava buscando

(isso me ocorre como num sonho),

algures certamente eu já vivi contigo uma vida de alegrias,

tudo é lembrado ao passarmos um pelo outro, fluidos,

afeiçoados, castos, amadurecidos,

cresceste junto comigo, fôste menino comigo ou menina

comigo,

comi contigo e dormi contigo, teu corpo não se fêz exclusivo

nem meu corpo ficou meu exclusivo,

tu dás a mim o prazer de teus olhos, rosto, carne, ao cruzarmos,

tomas-me a barba, o peito, as mãos, em troca,

eu não estou para falar contigo, mas para pensar em ti quando

me sento sozinho ou quando à noite desperto sozinho,

estou à espera, não duvido de que estou para encontrar-te

outra vez,

com isso estou por ver que não te perco.

(Walt Whitman)

Luiz Coelho Medina é poeta e prosador de Nova Iguaçu. Em “Alados”, lançado em 2015, encontro um eu-lírico construído à base de cansaço e solidão. Forjado entre águas e neblinas, lágrimas desassossegadas fazem morada em seus versos. A simplicidade de Medina é reflexiva e seu trabalho com as palavras carrega de cores metalinguísticas e intertextuais seus poemas.

O simples é o que já passou por tudo.”

Ivone Landim

https://www.youtube.com/watch?v=gGV1yyDMGSM

Sendo assim, o poeta não é simplório. E simplicidade não é sinônimo de mediocridade, embora existam aqueles que acreditem nisso.

https://www.youtube.com/watch?v=eB5_l2NdRLc

Mas que em meu braço, até que nasça o dia,

Possa repousar a viva criatura,

Mortal e culpada, e, no entanto, para

Mim a coisa mais bela de se ver”

(Auden)

Ainda estou

com o gosto

de Manoel de Barros

nos olhos.

Acho que preciso

escrever

umas lágrimas.”

(Luiz Coelho Medina)

Apesar disso, ainda reside no livro algum humor e ironia num eu-lírico que não sabe bem como lidar com as modernidades. Desculpável pela marotice dos versos, mais desculpável ainda porque nós, os ditos pós-modernos, também nos angustiamos com nossos entre-lugares.

Meu travesseiro fica encharcado

porque foi todo preenchido

com nuvens e trovões.”

(Luiz Coelho Medina)

O deslugar deste eu-lírico com o mundo virtual é reflexo de uma geração, anterior à minha, por exemplo, que viu outras crises e que, agora, é refém do silêncio que deságua sobre eles, por conta do extremo individualismo que impera nos nossos cativeiros neoliberais.

Em “Sintoma”, temos:

Perdoe se te falo de amor,

diante de tanta pressa,

mas é que estou com saudade.

Há muito tempo que não vejo a lua

como ela é, mais nada.

Há muito tempo que não sinto o cheiro da chuva,

o cheiro da terra, o teu cheiro.

Talvez até me estranhes,

e penses que estou doente,

depois de tanto progresso,

depois de tanta ciência,

mas é que estou com saudade.

A televisão não mostra,

o rádio não diz,

na fábrica, nem se comenta,

em casa, dificilmente.

Os amigos já aceitaram (acho que acostumados).

Portanto, perdoe se eu disser: te amo,

talvez eu esteja realmente doente,

com uma doença realmente extinta

pela modernização dos tempos.”

Luiz Coelho Medina

https://www.youtube.com/watch?v=SWtjTkixv5M

O eu-lírico tem toda ternura:

Mas se na escuridão, algum dia,

tropeçares nas próprias pernas,

acenderei minha poesia,

te emprestarei as lanternas.”

Luiz Coelho Medina

Estranho! se, ao passar,

você me encontrar e

desejar falar comigo,

por que não falar comigo?

E por que eu não

falaria com você?”

Walt Whitman

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que disfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.”

Gonçalves Dias, Canção do Exílio

O poeta observa o mundo com algum desencanto, embora seus poemas sejam povoados, muitas vezes, por figuras encantadas, como sereias, por exemplo. Ainda assim, é possível comparar sua visão destes encantos como algo irônico, uma linguagem acaboclada a quem o encanto, embora surreal para o leitor, para este eu-lírico chega a ser cotidiano, pertencente à uma memória de uma vida no campo.

https://www.youtube.com/watch?v=N3SnGbQCM1U

Não, Medina não é um árcade, nem tenta imitar este estilo. Seu estilo está mais vinculado às histórias do matuto, daquele que observa de longe as modernas idades, achando tudo muito vago e, não longe de nós, tendo aquele tédio das velhas novidades.

É como se tudo já tivesse sido visto por ele, seja através do sonho, seja apenas uma sensação que a nós, os que fogem de contemplações na natureza, seja fugidia. Para o eu-lírico de “Alados”, não há nada de novo sob o sol.

Medina é um romântico, nostálgico de outros tempos. A relação de amor e gozo com o todo. A natureza em seu lugar de abraço.

A pressão de meu pé sobre a terra faz jorrar mil afeições,

Elas escarnecem do máximo que faço para descrevê-las.

Estou encantado com a experiência de crescer ao ar livre,

O que é mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,

Sem pedir ao céu que baixe à minha boa vontade
Sou dos velhos e jovens, dos tolos tanto quanto dos sábios,

Desatento com os demais, sempre atento aos demais,

Maternal não menos que paternal, uma criança assim como homem,
Sinto-me em casa nas montanhas ou no mato,

Sinto-me em casa nas colinas de Vermount ou nos bosques do Maine,

Camarada de jangadeiros e carvoeiros, camarada de todos que apertam mãos e oferecem bebida e comida,
Um aprendiz com os mais simples, um professor dos mais pensativos, De toda cor e casta sou, de toda classe e religião,
Ouviste que era bom ganhar o dia? Também digo que é bom cair,

Batalhas são perdidas com o mesmo espírito com que são ganhas.

Vivas àqueles que falharam!
Minha festa é para todos, não terei uma só pessoa desprezada ou relegada,

Em todos enxergo a mim mesmo, em nenhuma vejo mais do que eu sou, e nem um grão a menos,
Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,

Os prazeres do céu estão comigo e as dores do inferno estão comigo,

O primeiro acrescento a mim mesmo e distribuo, o segundo traduzo em uma nova língua.
Sou o poeta da mulher assim como do homem,

E digo que é tão bom ser uma mulher como ser um homem,

Tivemos fuga e censura o bastante
Ultrapassaste os demais? És o Presidente?

Isso é ninharia, eles irão além desse teu feito.”

Walt Whitman, “Canção de mim mesmo”

https://www.youtube.com/watch?v=rfpjEeK1Jeg

Às vezes, Medina, foge aos prefácios e apresentações a atenção verdadeira aos teus silêncios. Tão pouco há deles que eu, como leitora tua, não guarde. Entre teus versos o pavor da noite, entre tuas letras, o temor da morte. Tudo há que, encabeçado por um sarcasmo que é indiferente a quem te vê como ingênuo, para mim, paira como um fantasma decidido a vagar entre eu e você.

À distância, o calor que teus versos tem é o que faz com que vejamos a vida, esse fenômeno inexplicável, de uma forma até simpática, próxima, vívida. Há vida!

Mas o Morador de Lua bem como o cantador de Alados sabe que, de dentro da noite, pode nascer uma outra chama. Está posta a esperança e o eu-lírico pode, talvez, sossegar dentro de sua biblioteca na companhia de suas sombras, de seus poemas rasgados e de suas desilusões.

O que é a vida? O que é a morte? O que é o amor?

Jamais saberemos. Mas, por ora, importa saber que, se não há liberdade para tentar, então a vida deixa de existir. Como uma lagarta a quem libertam do casulo antes da hora, assim é o verso quando engasgado e expulso antes da hora: não voa.

A Natureza que ensina. O não-criado pelo homem.

Dedico:

aos que tentam e não conseguem,

aos que lutam em vão; aos que só conhecem as derrotas,

porque para eles, não há palavras que os confortem”

Luiz Coelho Medina, em “Morador de Lua”

Falar sobre poesia é difícil. Não há explicação para poemas e para a própria Poesia em si, assim com letra maiúscula. O fenômeno poético, na humanidade, está diretamente ligado ao fenômeno religioso… Está no primeiro grito, do qual nasceu a língua humana, está no nascimento dos mitos, no parto das primeiras canções. Sendo assim, a poesia e a construção poética são uma questão humana por excelência e, por assim dizer, somos animais poéticos. Animais artísticos, acima de qualquer circunstância. Acima de qualquer dor. Acima de nossas barbáries externas. Acima de nossas conquistas e, principalmente, de nossos ditos conquistadores.

Fez-se poesia não apenas do belo barulho da chuva, mas também retirou-se o que pôde do mais absurdo: a guerra.

O eu-lírico que trabalhamos aqui neste texto não está voltado para esse sentido, porém podemos enxergar os reflexos das crises humanas e do Zeitgeist dentro de seus devaneios. O que muitos poderiam dissecar e transformar em mera estruturação classificada, com nomeações baseadas em correntes literárias, prefiro eu deixar assim como uma insônia, uma folha em branco, uma descoordenação de circunstâncias.

O tempo andou mexendo com a gente”

Belchior

Não despejarei nos versos de Medina uma teoria, mas deixarei que a teoria de seus versos fale por si mesma. Seu eu-lírico criou para si mesmo um mundo que não se limita às folhas de um livro. Se seu poema fala da natureza e se sente inscrito nela até os ossos, é daí que partiremos, da natureza e seus tempos infinitos, já que para ela não há morte, já perceberam? Um ciclo sem fim, conforme as crianças aprendem com os filmes da Disney.

Medina demonstra uma espécie de submissão ao inacabado como podemos ver em “Homenagem aos rascunhos”, poema de seu livro “Pavio D’esperança”:

Todo escritor tem seus rascunhos.

É neles que mora a sua alma.

São corpos sem moldes dos escritos.

Às vezes, não passam de mentiras

que o subconsciente conta.

Às vezes, são dores indizíveis,

e quando eles são rasgados

viram pedaços de verdade,

como pétalas descartadas

de um sonho que ganhou máscara.”

https://www.youtube.com/watch?v=Se9XYKHQi3Y

Fica aqui o convite aos leitores deste projeto para que busquem conhecer a obra de Medina. Além dos três livros citados no texto, temos também a página no Facebook onde o poeta posta suas gotas de poesia.

E, mais uma vez, reforço que o Projeto Literário Olho de Belize está em consonância não apenas com uma linha teórica ou com algo/alguém da crítica…

O Projeto Literário Olho de Belize está à serviço da Baixada Fluminense.

Oxóssi

Poeta de um verso só.”

Ivone Landim

Laroiê, Exu! Okê Arô, Oxóssi!

Salve todos os Caboclos de Aruanda!

Evoé!

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

 

O aprendizado na coxia: entrevista com o contrarregra Jozir Lopes de Andrade, instrutor de Contrarregragem na Escola de Artes Técnicas Paulo Falcão em Nova Iguaçu, RJ

Introdução

Seguindo a proposta deste espaço que é observar e escrever sobre outras questões que envolvam o teatro para além da crítica e da teoria em si, tem sido necessário reforçar de onde parte a escritura da qual nasce este projeto e como ela se desenvolveu até chegar na crítica teatral em si.

Como alguém que não é atriz nem uma estudante acadêmica da área específica de artes cênicas, a construção de conhecimento proposta aqui, bem como nas resenhas é de autodidata quanto aos estudos de teatro em si, mas que, na prática, está na coxia.

Meu lugar de crítica é o da contrarregragem, pois é o que sou dentro desta força dinâmica e cheia de encantos que é o teatro. Somente a ele estas palavras servem, e somente a Dionísio é que dedico este trabalho, neste campo.

A partir daí, somada à ideia de estudos subalternos, venho observando que determinadas posições, via de regra, são dotadas de menor “glamour” e, consequentemente, cada vez menos remuneração, como é o caso do contrarregra, do operador de luz e som, camareiras, entre outros. A menos que se acumule funções, ou já se tenha “nome” na área, entrar e viver destas profissões está cada vez mais difícil. Não apenas pela estrutura econômica em si, neoliberal e selvagem, mas também pela crise dos estímulos à cultura que o país sofre com a cada vez maior retaliação de seus políticos. É claro que não são todos os que fazem teatro que sofrem com a pouca ou nenhuma ajuda financeira que recebem, e é justamente por isso que a ajuda financeira que é recebida por montagens tradicionais ou que não criticam/questionam o status quo é questionada e se torna uma indicação muito clara de qual tipo de arte o governo espera que façamos. Algo que entretenha, mas não incomode.

E que se cobre caro e se apresente em lugares voltados à uma elite.

Enfim, é um ciclo.

Contrarregragem

Historicamente não há registro de quando começou ou quem teve a ideia da organização da encenação. Sérgio Britto, grande estudioso de teatro, ator, diretor, etc nunca encontrou registro da profissão. Acredita-se que foi com o surgimento do Palco Italiano, não sabemos ao certo porque houve a necessidade dessa profissão. Apesar do contrarregra, o teatro acontecia nas praças, em espaços abertos. Os atores entravam e saíam de cena livremente, a peça não tinha hora pra começar nem pra acabar. Sua duração era indeterminada, podendo durar horas, como retrata muito bem o filme ‘Shaespeare apaixonado’” (apostila de contrarregra da EAT)

O Olho de Belize mantém-se atrás das cortinas, não apenas como crítica, mas como trabalhadora consciente do papel que apresenta neste projeto. Por isso, a proposta de entrevistar profissionais de áreas que, normalmente, não são acolhidos em textos e projetos acadêmicos. Os contrarregras, operadores de som, luz, camareiras, maquiadores, entre outros, sempre me pareceram postos de lado para que as figuras do iluminador, do figurinista, do diretor, dos atores estejam em destaque. Porém, no curso de contrarregra é que fui desenvolvendo cada vez mais a noção de que sem esses profissionais, via de regra, a peça não sai. Sem o contrarregra para acionar o terceiro sinal, as cortinas não se abrem, o cenário não fica em pé. Isso para dizer o mínimo.

SAM_3472

É por essa razão que o primeiro profissional de teatro a ser entrevistado pelo Olho de Belize é o contrarregra Jozir Lopes de Andrade, que trabalha na área há 7 anos e foi meu professor de contrarregragem na Escola de Artes Técnicas Paulo Falcão, em Nova Iguaçu.

O contrarregra é quem bota ordem no espetáculo, todo o material de cena é de sua responsabilidade, bem como suas entradas e saídas de cena e devida manutenção. Raciocínio rápido, sensibilidade e pontualidade são seus pré-requisitos, pois o show não pode parar.”

Uma das lições que aprendi com Jozir foi que teatro se faz com humildade e trabalho coletivo, disciplina, cuidado e preservação do espaço teatral, atenção aos horários, detalhes e organização, aplicação das técnicas, uso dos jargões da área para comunicação e máxima concentração. O teatro é feito ao vivo, não admite impasses e seus erros, para serem consertados na hora, demandam inventividade e imaginação. O amor ao teatro é que mantém nosso comprometimento com o trabalho, com os outros profissionais, acima de tudo.

O curso de contrarregra na EAT Paulo Falcão é voltado ao teatro e tinha a duração de um ano. Com o sucateamento das unidades, o curso passou a durar seis meses, com perdas severas com relação às matérias e conteúdo que teve que ser, não reduzido, mas dado de uma forma mais resumida e apressada. Os professores fizeram de tudo para que não perdêssemos nossos conteúdos. As matérias que tínhamos eram História da Cultura, Prática de contrarregragem e Desenho técnico.

O teatro é uma arte coletiva, diferente da literatura ou da pintura, que podem ser frutos de um único artista. Barbara Heliodora, renomada crítica de teatro, ressalta que ‘além de ser uma arte coleitva, é feita em duas etapas. Quando é um teatro de texto, você tem uma etapa que é criar o texto. Depois, vira uma obra aberta. Há então a parte da execução do espetáculo que é uma coisa totalmente coletiva. Para ela o espetáculo é um ótimo formador de democracia, porque tudo é importante. Não adianta ter um ator bom e o resto não. É a integração do grupo que cria realmente o produto teatral no seu conjunto.”

As três matérias coadunam muitas questões importantíssimas para o profissional do teatro. Em História da Cultura tivemos como base o estudo sobre a Arte em si, além de leituras e discussões sobre o Carnaval e outras festas populares brasileiras, tendo como eixo a noção de que a Arte é a resposta do humano face à sua limitação diante da temporalidade. Assim como também aprendemos sobre a Indústria Cultural, a questão do entretenimento e noções de mercado e consumo. Em Desenho técnico, aprendemos a desenhar mapas de palco, desenhos de cenário e posicionamentos no palco, bem como perspectivas, estruturas teatrais de várias culturas, bem como plantas de cenário.

Nas aulas de contrarregragem, a noção que norteava era a de unir sempre a teoria à prática. Entre o palco e a sala de aula, soltamos bambolinas, medimos distâncias com trenas, montamos cenários de quartos, salas, cozinhas e prisões. Sinais de Moliére, campainhas, cortinas e silêncio. Atenção máxima às marcações. Lanterninhas microscópicas para andar no quase breu. Cortes sinuosos que traçamos entre os elementos de cena, aprender a pisar em silêncio, caminhar nas coxias como um gato, atender aos atores com cortesia e tranquilidade. E na sala de vídeo, assistir e rir das maquinações de Carlitos como contrarregra, chorar de emoção com as palavras de J. Maia, contrarregra há mais de quarenta anos e aprender sobre teatro grego, as máquinas e elementos da caixa cênica.

IMG-20161212-WA0006

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

Jozir Lopes de Andrade é contrarregra há mais de 5 anos e é instrutor da Escola de Artes Técnicas Paulo Falcão no município de Nova Iguaçu. Participou de peças como Os mamutes, Mônica Mundo e Companhia de dança contemporânea de Renato Vieira – Espetáculo Inlace. Trabalha também no Imperator há 5 anos e cursou contrarregragem na Escola Técnica da Mangueira em 2010. Reside em Realengo, município do Rio de Janeiro/RJ.

IMG-20180426-WA0009

Entrevista

Olho de Belize: Como você entrou pro mundo da contrarregragem?

Jozir: Comecei como carregador, carregando cenário. Ali eu me interessei pela profissão de contrarregra.

Olho de Belize: Em quantas peças trabalhou e quais as mais marcantes?

Jozir: Trabalhei em tantas que perdi o número. Vou citar algumas: Ponto de fuga, Mônica na floresta, Mecânica da borboleta, Os mamutes, Mônica Mundo, Companhia de dança contemporânea de Renato Vieira – Espetáculo Inlace, A bela e a fera, Mogli o menino lobo, Os três porquinhos, entre outras. Trabalho há cinco anos no Teatro Imperator e participo de todos os espetáculos e shows.

A mais marcante de todas foi “Os mamutes”.

Olho de Belize: Como se deu sua formação profissional na área?

Jozir: Fiquei sabendo da EAT da Mangueira e fiz o curso de contrarregra durante 1 ano.

Olho de Belize: Como é o trabalho e quais as funções do contrarregra?

Jozir: O trabalho é de muita responsabilidade. Chego sempre 3 horas antes do início do espetáculo pra dar início a montagem. Meu trabalho é fazer com que tudo esteja pronto meia hora antes do início do espetáculo. Sou responsável pelos três sinais e de colocar todo o elenco no palco para que o espetáculo inicie. Abrir as cortinas e durante o espetáculo fazer as trocas de cenário, entrada e saída de objetos de cena, auxiliar os atores na coxia e estar concentrado durante o espetáculo para não perder nenhuma deixa.

Olho de Belize: Existem tipos de contrarregra?

Jozir: O contrarregra surgiu no teatro, mas foi para outras áreas como TV, cinema, circo, shoes, eventos e agências de propaganda. Na TV, temos vários tipos de contrarregra, por exemplo: contrarregra de cena, contrarregra de montagem, contrarregra de rua, contrarregra de copa, entre outros.

Olho de Belize: Você é instrutor de contrarregragem na EAT Paulo Falcão em Nova Iguaçu. Como é essa sua experiência de lecionar?

Jozir: Minha experiência em lecionar é de muita responsabilidade, além de ter que passar para os alunos todo o conhecimento técnico e a minha experiência de vida, ainda me preocupo em mostrar o mais importante para a formação deles que é a formação de um profissional de excelência, que seja comprometido com a profissão.

Olho de Belize: Quais os desafios de quem trabalha como você com teatro e arte num país como o Brasil, principalmente pra quem está atrás das cortinas, os desafios são maiores?

Jozir: O desafio é todos os dias você dar o seu melhor. A concorrência é muito grande, são muitas pessoas boas neste mercado, então tenho que me esforçar o máximo todos os dias.

A cultura no nosso país é muito precária [falando sobre investimentos no campo da cultura], nós temos que lutar por um país mais justo para todos. Onde a arte seja para todas as classes, mas uma arte que eduque, que leve o cidadão brasileiro a ter uma consciência crítica.

Bibliografia na boca de cena

Apostila do curso de contrarregra – EAT Paulo Falcão

Carlitos na contrarregra: https://www.youtube.com/watch?v=bP8Y2T31t0k

Entrevista com J. Maia na globo: https://www.youtube.com/watch?v=qKcV3A3yYEA

https://www.youtube.com/watch?v=1t2YwfcIlcc

Peça – Sete minutos

https://www.youtube.com/watch?v=0fbR5vXI8s0

“tambores da memória”: o Olho de Belize leu “Ronaldo Lima Lins: criação e pensamento”, org. Theotonio de Paiva e Carmen Negreiros

Editora UFRJ

Ano: 2017

SAM_3475

(Na imagem, Ronaldo Lima Lins e sua esposa Cinda Gonda)

Ter consciência de si mesmo implica negociar interiormente os esforços em relação ao mundo.”

(Ronaldo Lima Lins, A indiferença pós moderna, p. 119)

Catástrofes.

Somos o que somos

por causa delas.”

(Ronaldo Lima Lins, Mais do que a areia, menos do que a pedra, p. 221)

Fundo

na fenda dos tempos,

nos favos de gelo,

aguarda e espera,

como um sopro cristalizado,

teu incontestável

testemunho.”

(Paul Celan, Cauterizado)

É com muito orgulho que anunciamos a resenha que dará o ponto de partida à parceria entre Projeto Literário Olho de Belize e a Editora UFRJ, uma das mais conceituadas a veicular obras para um público acadêmico.

Esta primeira resenha se arrisca a tratar de um livro muito especial. Um livro que visa homenagear a caminhada intelectual do professor Ronaldo Lima Lins, que, além de dramaturgo e ensaísta, é poeta e romancista. O livro traz não apenas textos para quem já conhece sua obra, mas também se preocupa em promover panoramas de sua obra poética, de teatro e de sua ficção para quem ainda não o conhece.

A organização é de Carmen Negreiros e Theotonio de Paiva, que já na apresentação, deixam o leitor muito à vontade com o que vai encontrar à frente na leitura. Os textos são ágeis, construídos de maneira a deixar o leitor curioso a buscar as obras de Ronaldo, bem como de conhecer ainda mais sua notória carreira não só como professor, mas em todas as suas vertentes.

É um livro não apenas para os que já o conhecem, mas principalmente para se fazer conhecer seja para um aluno de graduação seja para um mestrando ou doutorando. Aliás, vai além: qualquer leitor é convidado a conhecer a figura de Ronaldo a partir dos textos deste livro. Nada há o que impeça a leitura, nem que torne maçante essa viagem litero-biográfica. Esta sim é, na minha opinião, a marca mais importante desta obra e que mostra, ainda mais, o carinho com que o livro foi escrito.

Todos nós que lemos, no fim, nos tornamos muito próximos da figura de Ronaldo Lima Lins, não apenas como intelectual, isso seria fácil. Mas como um ser humano, que levou a vida a lutar pelo conhecimento… ah! Isso sim, é digno de nota e muitas parabenizações aos organizadores.

O educador

Este livro apresenta aspectos escolhidos das obras de Ronaldo Lima Lins, escritor, ensaísta e importante intelectual da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A ele se vinculam diversos projetos de pesquisa, livros e estudos, ao longo de seus muitos anos de trabalho na formação de pesquisadores que hoje atuam em diferentes instituições de ensino no país.”

O livro pretende traçar caminhos para o leitor: primeiro, mostrando a figura de Ronaldo Lima Lins não como um intelectual que, distanciado da sociedade sente-se bem ao analisá-la como se dela não fizesse parte. Muito pelo contrário, “o conceito que o define se expressa de forma necessária porque, entre outras coisas, a trajetória intelectual de Ronaldo Lima Lins realiza um raro entrelaçamento entre vida e reflexão, desdobrando-se na prática da docência universitária, da pesquisa, do ensaio, da ficção e da poesia. Em quaisquer dessas formas, onde se lê reflexão, leia-se também vida.”

A partir daí, o livro é dividido em três eixos temáticos: Vida, pesquisa e criação; Panoramas e Leituras Críticas. Em cada um dos eixos somos apresentados à figura de Ronaldo, seja pela leitura daqueles que estudaram sua obra, seja pelos olhares atenciosos e hábeis daqueles que o conhecem tão bem. O livro tem não apenas um apelo intelectual, mas extremamente afetivo. Não é um dossiê, nem tem a frieza de um “tratado sobre o autor etc”, é uma homenagem, um presente não só a Ronaldo, mas aos seus alunos e leitores de agora e do futuro. É um documento afetivo.

E tem todo afeto que nos faz, como leitores, imaginar o quanto esse intelectual conseguiu não apenas construir uma obra em variados tons, seja em ensaio, seja em poesia, mas o quanto a própria vida foi para esse intelectual a grande obra a qual ele se doou verdadeiramente e na qual os livros e uma carreira não valem mais do que os grandes amigos que tem. E é verdadeiramente por esse motivo que é um livro tão especial. O leitor sente que está entre amigos que admiram e realmente falam sobre a obra não porque assim se pede/se requer, mas porque desejam fazê-lo da melhor forma possível para homenagear essa figura querida que é o professor Ronaldo, mais do o intelectual.

O intelectual que se revela nesses livros tem a ver com o perfil do humanista intelectual que Edward Said discute em seu livro Humanismo e crítica democrática e que se vê em Auerbach. (…)” (p.38)

É um livro feito não apenas para responder a um porquê acadêmico e digo que faz toda diferença ler percebendo isso. Assim o leitor se aproxima, se sente permitido a conhecer um intelectual não pela figura distante, oblíqua e fria que normalmente povoa o imaginário comum, mas por características de amizade, afeto e trabalho duro que modificam totalmente a noção inventada de que um intelectual é.

Essa questão da figura do intelectual é antiga e vem passando por transformações sensíveis há tempos. Essa figura dita genial e distante ficou no século XIX, embora muitos ainda utilizem essa máscara com um definitivo ar blasé para se destacar e transformar-se em temidas figuras por onde quer que passem. Grande bobagem!

Na verdade, estar entre todos, conhecer as experiências alheias e ouvir com grande sinceridade o que o outro tem a dizer é muito mais representativo do que um intelectual deve ser do que essa besteira de grandes ares e genialidades. A figura do intelectual deve estar mais ligada à do educador, aquele que humaniza o conhecimento, torna-o possível de encantamento diante de toda gente e também como sendo aquele que fala/escreve criticamente sobre a sociedade e seus entraves. Estando nela. Não como um ser alheio.

Defendo que lhe seja atribuída a emerência, porque nossa moral cansada, para citar o título do último livro, precisa de sua crítica.”

(Beatriz Resende em parecer à solicitação de concessão do título de Professor Emérito da UFRJ a Ronaldo Lima Lins, professor titular de teoria Literária da Faculdade de Letras)

Pelo que lemos neste livro, Ronaldo é essa figura e por isso o profundo respeito que encontramos em todos os que escreveram sobre ele e sua obra.

Para o saber, o desafio mais difícil é a realidade. Muitas são as caras com que ela se nos apresenta. Dizer que a realidade constitui tarefa para os poetas, os únicos intérpretes que não podem ser desmentidos porque dizem o que não dizem.”

(Ronaldo Lima Lins, O saber e os ventos do não-saber, p.80)

Cometer um erro

é confiar no que se vê.

Entre uma coisa e outra,

nas trevas e iluminações,

tateamos, na verdade,

num jogo de peças

que não levam a lugar nenhum.”

(Ronaldo Lima Lins, Mais do que a areia, menos do que a pedra, p. 136)

A partir do texto de Beatriz Resende temos a leitura da importância da figura de Ronaldo no ambiente acadêmico, ao mesmo tempo que compreendemos o porquê da relutância de lhe delegarem a emerência, na época. Um profissional tão crítico de seus pares não seria bem visto, a não ser por aqueles que assim como ele compreendessem o caminho tortuoso da construção conjunta do saber e como o funcionamento da universidade depende dos alunos e não apenas de seus intelectuais. Não são as dedicatórias de seus livros que me dizem isso, mas a defesa de seus próprios alunos para que sua emerência seja aprovada na época, lutando para que o reconhecimento lhe chegue.

Pior do que o jogo,

é não jogar,

fingir que se permanecer

acima do mundo,

por uma condenação

de algum juiz arbitrário

e sem corpo,

à espera

de desígnios insondáveis.”

(Mais do que a areia, menos do que a pedra, p. 217)

As cabeças, monstruosas, e a cidade

que elas constroem, em busca da

felicidade.

Se ainda uma vez, a ti fiel, fosses a minha dor,

e um lábio passasse por perto, do lado de cá, neste

lugar onde ando além de mim mesmo,

eu te levaria

por esta estrada

em frente.”

(Paul Celan, As cabeças)

SAM_3476

O ensaísta

No artigo “O ensaio de Ronaldo Lima Lins”, escrito por Vera Lins, teremos uma passagem por diversos ensaios do autor para que Vera nos mostre a sua grande mobilidade da escrita. Ela aproveita muito bem o ensejo e nos dá uma aula sobre o gênero ensaístico utilizando para isso os ensaios de Ronaldo bem como trechos de Lukács, Adorno e Montaigne.

O ensaísta pode, com ajuda da literatura, colocar as perguntas mais radicais que não obterá respostas. Mas sempre toma posição original e profunda em relação à totalidade da vida.” (p. 36)

O ensaio, desde Montaigne, que criou o gênero, é uma forma de reflexão sobre questões difíceis. É uma experiência intelectual em que o pensador faz de si o palco da experiência em desemaranhá-la, diz Adorno (2003).” (p. 36)

O ensaio, como o gênero da problematização, entre o ficcional e o filosófico, é o meio por onde circulam as questões. Por isso é o gênero da crítica, que ousa se apropriar do inapreensível. Diz Adorno (2003) que o ensaio reflete seu objeto sem violentá-lo.” (p. 37)

Assim seguindo somos apresentados a autores que Ronaldo discute em seus próprios ensaios e que “vamos conhecendo com ele”, segundo Vera: filósofos como Hannah Arendt, Sartre, Adorno, Benjamin, Lukács, Simone de Beauvoir e outros, assim como escritores como Zizek, Malraux, Flaubert, Joyce, Kafka, Paul Auster, Malcolm Lowry, entre outros.

Questões atuais e difíceis, como a modernidade e a pós-modernidade, a destruição, a violência e a moral, aparecem pensadas a partir dessas experiências de vida, como numa conversa com o leitor ou com seus alunos.” (p.37)

Seria uma forma de não sucumbir,

enquanto,

com uma batida surda,

tocassem os tambores

da memória.”

(Ronaldo Lima Lins, Tambores da memória)

O teatro

Neste texto, a leitura será a partir do artigo de Theotonio de Paiva intitulado “Nelson Rodrigues e o espectro de si mesmo” no qual o autor disserta sobre o livro de Ronaldo “O teatro de Nelson Rodrigues: uma realidade em agonia”.

(…) o livro se debruça ainda sobre a trajetória da literatura e do teatro brasileiros, em meio a sucessivas crises identitárias e de formas, realizando, com esse gancho, a articulação da obra teatral de Nelson Rodrigues -independente das reais intenções do dramaturgo – com as estruturas mentais de determinados grupos sociais, em um mundo opressor em seu sistema patriarcal e patrimonialista.”

Theotonio analisa o método pelo qual Ronaldo escreve o resultado de seu hábil processo de pesquisa da obra de Nelson Rodrigues. O critério no qual se baseia Ronaldo é o de “observar não apenas qualidade intrínseca dos textos, mas um denominador comum que condicione um estudo das relações de uma sociedade e sua cultura.” Nisso também veremos a presença de temas que se repetem em suas outras obras como, p. ex., o problema da verdade, a destruição das formas e as perspectivas do pensamento crítico, aparecem como prismas multiformesnumacuriosa condição de recorrência.

A partir daí, acompanharemos no artigo “as influências teóricas, as escolhas realizadas, a atividade do sujeito individual e social, em um quadro que nos ajude a entender aquele inconformismo social que, tudo leva a crer, denuncia um outro tipo de recepção, de deciframento mesmo do material literário.” (p. 98)

Assim como também teremos a construção de “um quadro diabolicamente complexo e violento” explicando, do ponto de vista da sociologia da cultura, a exposição de Ronaldo sobre o quadro de crise entre a angústia e a decadência sobre o Brasil e a sua cultura.

Verificando os alicerces culturais, ditados por uma elite europeia a cujos valores ainda nos mantemos presos em sua quase integridade, o ensaio deixa entrever “uma condição de contornos trágicos” (p. 102) para o país.

O artigo termina com perguntas tão inquietantes quanto as que iniciam o texto. As questões modulares permanecem, fazendo com o que leitor se sinta impelido a buscar conhecer mais da obra ensaística de Ronaldo Lima Lins, não apenas sobre Nelson Rodrigues, mas também para compreender a teia teórica que Ronaldo formulou em tantos anos de estudo sobre teatro.

E mais, o leitor é compelido a compreender também que, entender Nelson Rodrigues é mais do que lhe sacar a obra, seus interditos e questionamentos, mas a partir daí observar as questões e pensar nas improváveis respostas que teríamos sobre a própria condição do Brasil não apenas na época de Nelson, como também nos desdobramentos dos dias atuais.

O poeta

Diz Deise Quintilliano Pereira sobre a poética de Ronaldo Lima Lins em seu artigo “Menos do que a areia, muito menos do que a pedra”: “sustentada sobre um pilar quadrilátero, metaforicamente expresso pelos vocábulos ‘magia’, ‘segredo’, ‘surpresa’ e ‘mistério’, a poética de Ronaldo Lima Lins promove uma demolição pulverizadora do real, atingindo, na sua radicalicade, a lógica de probabilidades, passível de expôr as vísceras das ‘transmutações do eu’, da problemática sobre a ipsiedade e a alteridade e dos questionamentos acerca da existência.”

Tiram de mim

o que gostaria

de guardar

e me devolvem

o que não pedi.”

Reexaminei com cuidado

o que fiz e o não fiz,

o que guardei

e o que não consegui guardar,

reconhecendo limitações

no que chamava de passado.”

Sofrer

com a ideia de não poder mais.”

Como dizer

o que não se pode?”

São canções que canto

e que não canto,

como se as soubesse

sem as haver composto.

Estranha decepção.

Isso me basta não me basta…”

(Ronaldo Lima Lins)

Com a delicada tessitura do artigo, Deise nos traz os impasses e incertezas da física quântica e relaciona à poética de Lins, traçando paralelos e teorias que enriquecem ainda mais a leitura dos versos. Não apenas pelo ponto de vista crítico, mas pela interrelação de áreas que, normalmente, não conversam entre si, mas que no texto de Deise, não só dialogarão mas também proporcionarão aos versos de Lins uma releitura profunda e transdisciplinar.

Nunca antes, talvez, uma transdisciplinaridade tão pouco provável tenha se revelado de tal modo rentável na fatura de uma poética. Afinal, o grande desafio lançado pelo corpus lírico de Ronaldo interroga os limites muitas vezes fluidos que cindem subjetividade e alteridade, singularidade e universalidade, unicidade e dualidade, com o intuito de promover o resgate dos estilhaços de homem que soçobra agonizante sob os escombros da reivindicada existência.” (p. 92)

Deve ser agora o instante certo

para um nascimento

justo.”

Paul Celan, Minas explosivas)

SAM_3477

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

Bibliografia

Hermetismo e Hermenêutica em Paul Celan

Ronaldo Lima Lins: criação e pensamento, org. Carmen Negreiros e Theotonio de Paiva

Mais do que a areia menos do que a pedra, Ronaldo Lima Lins

Jacques e a Revolução, Ronaldo Lima Lins

“você vinha um bicho celeste”: o Olho de Belize leu “rocketman” de Rique Ferrári + tentativa de diálogo com o eu-lírico + Fragmentos sobre o gênero Poesia

Título do livro: rocketman

Autor: Rique Ferrári

Editora Patuá

Ano: 2017

partir é uma viagem”

ou

resto de cor até o fim do mundo”

ou

contraposição da obra não oficial de arteiros”

ou

tarot”

ou

destruir é um risco”

ou

engraçado, só vejo flores”

ou

marca do meu rosto, garra no meu seio.”

Chego, às vezes, a suspeitar que os poetas, os verdadeiros poetas, são uma espécie de erro na programação genética. Aquele produto que saiu com falha, assim, entre dez mil sapatos um sapato saiu meio torto. É aquele sapato que tem consciência da linguagem, porque só o torto é que sabe o que é o direito.”

Leminski, Poesia: a paixão da linguagem

sei você, sozinha e muito jovem inventou a expressão: pela fé!”

rocketman

No momento de crer,

criando

contra as forças da morte,

a fé.”

Jorge de Lima, “A invenção de Orfeu”

destemidos do gélido e do fogo, iríamos chegar neste ponto, você sabe, é um convite:

pule”

Diante do Daath, rocketman devorou a letra “fazendo posição de vida”. Ler seus versos é também ser devorado por esse alguém: um eu-lírico que encarou o abismo, encontrou o Quetzalcoatl e não precisou ser capturado… Entrou na boca do deus, voando através do abismo para depois encontrar o céu azul. E não o paraíso.

É prosa que dá prêmio.”

Ana C.

Vivemos sob o comando sutil do impacto-impulso de morte e da fuga do desprazer. Mas o encanto dos poemas não é uma morbidez ultrapassada, aquela coisa bárbara e fugidia do século ultrarromântico que muitos insistem em emular, gastando rios de papel à toa. E tinta.

E nossa seríssima paciência.

Uma formidável escrita a de Ri(l)que

é uma sobrevivente encontrada entre escombros de catedrais antigas que desistiram de pôr de pé, que “no tempo de três terços, os terremotos vieram e derrubaram tudo”.

E poetas, sabemos:

não somos de açúcar”

Mas ele sabe que tem fel na feitura humana, esse eterno rascunho. Como cobrar, ao mesmo tempo, de algo feito em seven days, darling? Seus versos embarcam em nossas frestas mais escondidas. Aquelas que renunciamos de cobrir porque não há interesse algum do mundo sobre elas. Frestas que são um pouco nossas, um pouco alheias ao mesmo tempo. Ainda que no outro jamais nos reconheçamos, os dividendos se acobertam nos diálogos que ultrapassamos, pelos olhares esguios, os tocares esquálidos. Recobertas pelas águas agridoces de rocketman podemos reviver sabores antigos, infâncias desprezadas, períodos desprezíveis – pelos versos que podemos novamente, olhando de fora, observando nossa absoluta pequenez, dizer a nós mesmos como única verdade não um “memento mori”, mas um discreto e sem charme algum: “humanos.”

o mais importante nas distâncias:

são apenas dois segundos para ver se uma pessoa tem o talento de tornar-se paisagem

ou passagem”

A resenha quase se escreve sozinha

(opa!)

se esgueirando pelas referências encontradas. Referências não. “Ladroagens”, um termo caríssimo à poeta Ana Cristina Cesar é uma das técnicas que Rique utiliza em sua obra para nos movimentar em seu universo. Como o arcano Enforcado, “estava escrito no meu plano astral” e não num mapa: “nasci com as manhãs enlameadas, bolorentas/ ancorado nas metades vazias das coxas”.

Um úmido verso de nascimento, uma sina vinda de deuses. Mas, deixa, o poeta é tímido de tudo.

Um eu-lírico que se esquiva,

escapa pelos dedos, pela lírica:

Da crítica.

rua divã”

a bola mundo”

A atividade poética é uma coisa voltada para a palavra enquanto materialidade, a palavra enquanto uma coisa do mundo. O poeta é, na sua óbvia paixão pela linguagem, porque um poema propriamente não tem um significado, ele é o seu próprio significado. Por isso, os poetas são intraduzíveis.”

Leminski, Poesia: a paixão da linguagem

Comece assim, hoje mesmo.

Não confira com ninguém a sua urgência.

Fale do mágico trabalhando sobre um palco

estreito.”

Ana C., contagem regressiva

se você é um mecânico, é um mágico então

se você é um engenheiro, um mágico então

se você é um aprendiz, um mágico

se você é um mágico, oi”

rocketman

Escrever sobre poesia não é fácil. Nem em teses, nem em críticas. A poesia é, por si só, um gênero difícil, que não exorta ao crítico a liberação do mistério. É parecida com a vida no que tem de mais assustador: seus significados nunca são muito iluminados. Não é uma questão de bom poema ou mal poema, é uma questão de estar sob o véu da desconfiança. Será que é isso mesmo que eu tô lendo ou será que o cara quis dizer outra coisa ou será que eu teria sentido outra coisa dependendo do dia que li ou, ou, ou. Nunca pára.

Onde o eu se esquece na linguagem”

Adorno

35076607_1828098213877157_2522133941582823424_n

Poderíamos citar de cor a história da construção do livro. Falar das tatuagens. Entrevistar o poeta.

Mas aí estaria o perfume vítreo do verso decomposto no texto. Texturizado, teorizado, esculhambado, adivinhado. Não, Thoth. Não.

nem como é ter uma luminária completamente cristã povoando

meus segundos e livros noturnos, enquanto bamboleantes luzes solares

adubam o corpo da desconhecida multidão japonesa lá no outro lado”

Com a poesia não dá pra ser blasé. O rocketman traz a Lua pro leitor, um reflexo prateado entre o dourado de sua passagem pelo céu. Impossível mentir para um livro de poemas. Enquanto resenhar um livro de crônicas, você está em paz. Mas um de poesia não. O poeta estará longe, quase inacessível, em outro plano, planeta, discurso, vida.

Em outras palavras: para o poeta lírico não existe uma substância, mas apenas acidentes, nada que perdure, apenas coisas passageiras.”

Staiger

O eu-lírico não é de todo inacessível. Tá ali, aquela voz dúbia, tríplice, quádrupla… Na incerteza, você assume o jogo. Mas aí o eu-lírico vira a página, inverte o tema, pinta a cara, vai pra rua.

rocketman escapa.

ir lá roubar uma concha

entregar para a namorada

dizer que aí cabem todos os instrumentos musicais do fundo do oceano.”

E de novo, já foi.

Retorno ao poema. A imagem de rocketman no livro é um homem de peito aberto, o universo dentro. Um Saturno no meio do peito: “homem velho, da coisa toda pesada nos chifres!”

deus das dobradiças”

Ou é encruzilhada que fala? Poema deixa a gente perdido.

Ela (a poesia) já é na sua substância, intrinsecamente, ela já é amor, já é aproximação, no sentido que é amor entre os sons e os sentidos, num sentido que a prosa não é. É por isso que a poesia não morre. Por que essa coisa tão inútil que não consegue sequer se transformar decentemente em mercadoria num mundo mercatório, esse mundo em que vivemos?”

Paulo Leminski

O poeta lírico escuta sempre de novo em seu íntimo os acordes já uma vez entoados, recria-os, como os cria também no leitor. Finalmente conquista o já perdido encantamento da inspiração, ou dá pelo menos um cunho de involuntariedade a sua obra.”

Staiger

É um eu-lírico de viagem e que conversa.

eu estou aqui

e já estive há anos-luz para lhes dizer, partir é uma viagem”

Apaixonante. Emocionante. Inesquecível viagem sob o rastro do Halley que já foi antes mesmo que nos déssemos conta do que perdíamos. Estávamos distraídos, espraiados nessa malha volátil da desatenção, essa gota d’água…

Mergulhados nesses versos aquáticos e multiversos alagados, a caneta já não funciona tão bem ou qualquer linguagem de represa. Sacode a caneta pra letra explodir em tinta. Intangível, a palavra é uma montanha e também uma poeira que me sufoca, um cisco que me cega.

Um caminho de Santiago em Machu Picchu.

Um encontro inesquecível com rocketman. Tão presente quando ausente, preenchendo lacunas que não consideramos importantes.

De nada serve. A nada serve. A ninguém serve. Ainda bem.

Mistério que destrava a lágrima. Lacuna de desdita. Escrita que é sina. Destino, fortuna, réquiem para um sonho daquele que não deseja mais dormir. rocketman pergunta e não há eco, há um cotidiano frágil que rodeia, disputando com a poesia pela atenção do leitor. As confusões que nos enforcam, nos tirando da atmosfera volátil da leitura de rocketman…

Armas não ferem o Eu, fogo não o queima, águas não o molham, ventos não o ressecam.”

Krishna

Largar tudo para ler os poemas. Largar até o si mesmo. Largar o corpo no silêncio, abandonar-se ao desejo que vai crescer durante a leitura e após e para sempre. Não tem a ver com a música em si, mas os primeiros acordes te farão levitar quando a memória, essa Moira, te lembrar desse clássico das rádios madrugadoras. Insônia. Combate. Guerra interna.

Bombas ressoam ao longe enquanto rocketman olha pra mim pela janela. Ele ri da crítica, eu já não acredito mais na terceira pessoa que escreve este textos, estas letras, estas linhas.

E secar a lágrima que escapa. Uma pérola para rocketman, que colhe todas. Ele vê o Olho em transe e que não adivinha nada. Escapa.

Ainda não nos comunicamos. Ainda não escutei o tom. A crítica dará espaço, não sem reclamar!, às respostas de outro eu-lírico, uma desconhecida. Talvez assim, rocketman entre aqui e nos fale da viagem.

Talvez.

Como se mostra a pessoa que atingiu a transcendência, em que língua ela se expressa, como se senta e caminha?”

Arjuna

Porque quando aquela que escreve a crítica também é poeta

ela sabe

que só um poeta entende e conversa

com outro poeta.

Para além dos sentidos, para além da mente, para além dos efeitos da dualidade habita o Eu. Pelo que, sabendo que tal é o Eu, por que te entregas à tristeza, ó Arjuna?”

Krishna

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

Parte II – Uma tentativa de diálogo poético com rocketman

canetas param, vasos caem, contudo um raciocínio aqui nunca desanda:

são 16 degraus que elevam para o segundo andar”

rocketman

tivesse ido ao início

teria visto:

sempre é Tudo.

E não teria desistido assim –

mudo.

Mariana Belize

e consciência que de alguma forma bastante modesta pairam sob os jazigos, enfim,

perguntam:

-por qué, Rique, por qué mi dios?”

rocketman

se fosse um gato

o cometa

rocketman teria retornado ao planeta.

Mariana Belize

se você é um mecânico, é um mágico então

se você é um engenheiro, um mágico então

se você é um aprendiz, um mágico

se você é um mágico, oi”

rocketman

Branco

nem magia

ou alquimia

tua sina:

poesia.

E não é ela mesma

magia-alquimia-mistério:

Arcana major,

estrela de Sofia?

Mariana Belize

não me admira:

um objeto de luz como um poste, por aqui

tem a mesma alma dos cães ruentos: felizes por roer olhares.”

rocketman

Nova Iguaçu

Palafitas dos meus olhos

nenhum poste de luz

não tenho outro nome

dá cá esse negócio de cão andaluz

– esbarro –

me liberto olhando o céu.

rocketman ficaria

entediado.

Mariana Belize

quando o perfume da carne veloz enfeita a seda simples da pele”

talvez pelos fantasmas criados com muito açúcar, relembrando a mágica de Cosme e

Damião. sinto, ouço as boas-vindas tatuadas nas vozes quentes advindas dos quintais”

rocketman

Fome

tolero a saudade

– essa desconhecida.

Não fui criança

não guardo segredos

enamorados.

rocketman correu, batendo a cabeça

– é aquele gato preto mesmo? –

na tela do condomínio

Escapando outra vez

do rapto.

Mariana Belize

segue a reprodução maquinaria de jovens guerreiros acidentais

obrigam-lhes a servir no exército

e ao primeiro teste de bomba perguntam: algum voluntário?”

rocketman

Não converso com fardas:

Soltam rojões

nos paus-de-arara.

Mariana Belize

o que vem antes dele é fogo”

eis a soma de todas as luzes nele”

aspas de jardineiro da noite”

mergulhado nos cabelos dos prédios”

amanhece bêbado com os representantes da mascada”

rocketman

oi

é o Céu

rocketman provou da Vida

o grande Fel

eu sei

oi

volta aqui

Ele tomou a escada pro Céu

Antes retornou, olhou para uma mulher

atordoada

coberta de véus em sintaxes e teorias.

Como não larguei os livros para ir,

rocketman jamais sorriu para mim.

Mariana Belize

curva que madruga”

onde se multiplicam os desejos nos músculos de deus

e estaciona meu sapato de cristal em um chão gasto de esmolas.”

rocketman

Não responda

Escrevo pelas lágrimas

Desgastando a amargura

dos versos que jamais serei.

Leio em prece.

rocketman ganhou uma esmeralda:

um grito.

Mariana Belize

todos somos formigas elegantes”

rocketman

silêncio atravessado

espadas que engolimos à força.

poética granulada

arrancou de mim a Estrada.

Mariana Belize

ou dançar com os crucifixos aleatórios

por onde esfregam orações na grande pista desértica”

o sol come a terra

a terra come a lua

a lua nos devora”

rocketman

ante o abismo

ele devora a letra

ele assopra o Espírito.

Tu vens.

Mariana Belize

castelo de naipes sobre a fossa de qual escritura?

esconderam beijos e flertes murchos na inocência pública”

rocketman

silenciei para te assistir

tentativa tátil de compreender.

Emenda pior que soneto:

desgraça.

rocketman molhou de vento as velas

e já

outra vez

novamente

sublime

escapatória:

olho volátil que me arrasa.

Mariana Belize

eis a simbiose, o sincretismo –

construções de vida morrendo para construções de morte viverem

a roda gira.”

rocketman

da aula amadeirada acompanhei a morte

e, na vida, silenciei outra

Voz

a que me pedia, aflita:

cala-te.

Mariana Belize

a água em nudez móvel conquista sem esforços”

rocketman

mandou a imagem

que projetei aqui em casa

guardei a tempestade que veio junto

também:

rocketman tem cauda de Sol.

Mariana Belize

o mais importante nas distâncias:

são apenas dois segundos para ver se uma pessoa tem o talento de tornar-se paisagem

ou passagem”

rocketman

olhos que se esgueiram pelas pontes brancas

entreversos espio assustada assistindo

nada me afasta desse coma

te engulo inteira

afogada, garanto, eu sei o que sou.

E não me arrependo de só ser mulher-passagem.

Mariana Belize

palavra como espada corta cochilo”

eu, imitação de manequim, o inferno da moralidade”

rocketman

Aos cacos, presenciei o sistema ruir.

Agarrei a beira da própria saia.

Joguei o livro na parede da sala de estar.

Nem atordoado o poeta desvia –

que siso!

Mariana Belize

se caísse um monolito não saberiam”

rocketman

se caísse no jardim teu pranto…

nos mataria

encantados.

Mariana Belize

estava escrito no meu plano astral:

nasci com as manhãs enlamadas, bolorentas

ancorado nas metades vazias das coxas”

rocketman

queimando suas vestes em praça pública

rocketman inventou perfumes e degraus

virando estrela fugiu dos espectros.

Meninos, eu vi.

Mariana Belize

Parte III – Fragmentos sobre o gênero Poesia

1. “Não, não é, porque poeta não corta página do catálogo telefônico, depois cola no papel, pendura na parede e se chama de poeta. Existe uma, como é que eu vou dizer? Uma convenção social em relação às formas da arte. Todo artista é limitado já a priori por uma língua e por um estoque de formas. Qualquer coisa que você faça fora ou contra isso é por tua conta e risco. Então, quando o poeta chega, quando o artista chega, pra mim poesia é a arte feita com palavras, então, quando você chega já existe uma série de coisas que te torturam. Você não pode ir além da língua portuguesa, você não pode ir além dos limites gramaticais da tua língua, estilísticos, semânticos, sintáticos, morfológicos. Há uma limitação social toda. Então, existe toda uma certa ilusão de liberdade, de expressão, mas é preciso ver no interior de quanta escravidão se dá essa liberdade. De repente, um pequeno centímetro de liberdade vai adquirir uma cintilância extraordinária, exatamente porque uma língua, uma arte é um código de escravidões, alguma coisa de que a gente é vítima.”, Paulo Leminski

2. “A alma sendo nada, possui tudo e não possui nada, vê tudo e não vê nada, sabe tudo e não sabe nada.”,  Marguerite Porete

3. “Abre a boca, deusa”, Ana C.

4. “De há muito Poética não mais significa ensinamentos práticos para habilitar leigos a escrever corretamente poesia, obras épicas e dramas. Mas um ranço da conceituação mais antiga impregna ainda ensaios de hoje, quando estes parecem ver realizada em modelos de poemas, obras épicas ou dramas, a essência do lírico, épico e dramático. Essa maneira de enfocar o problema se apresenta como herança da antiguidade.”,  Staiger

5. “O poema, sem ser carta, sem ser carta aberta, abre no entanto lugar para um destinatário que, apesar de ser sempre singular, não é pessoal porque necessariamente anônimo. Singular e anônimo o leitor, ele não é todos como também não é uma única pessoa. (…) Paul Valéry disse preferir um leitor que lê muitas vezes um poema a muitos que o leriam uma só vez. Nada de elitismo aí, por favor.”,  Silviano Santiago

6. “O conteúdo da percepção não imerge de algum modo na palavra, mas sim dela emerge.”, E. Cassirer

7. “a impaciência também tem seus direitos!”,  Raduan Nassar

8. “A linguagem poética nunca exclui o leitor.”,  Silviano Santiago

9. “perder em traços a visão contígua

de coisa que surge aos saltos

no tempo, ameaçando de morte

a própria forma ameaçada do desenho

e o gato transcrito que antes era

marca do meu rosto, garra no meu seio.

Ana Cristina Cesar

BiblioRocketGrafiaMan

A invenção de Orfeu, Jorge de Lima

Poesia, a paixão da linguagem, Leminski

Poética, Ana Cristina Cesar

Notas de literatura I, Adorno

Conceitos fundamentais da poética, Staiger

Bhagavad Gita

Linguagem e mito, Ernst Cassirer

 

Solve et coagula, um lavourar o cotidiano: “Demônios domésticos”, livro de Tiago Germano + fragmentos sobre o gênero crônica

Ano: 2018

Primeira edição

Editora: Le chien

Sobre o autor

Tiago Germano _ Foto_ Gabriel Munhoz _ 01 SOBRE O AUTOR.jpg

Tiago Germano é jornalista, atualmente cursa doutorado em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e em 2016 ganhou o Prêmio Sesc/DF Rubem Braga com a crônica “Óculos Ray-Ban”, que abre o livro. Em 2005 foi eleito autor revelação do Prêmio Correio das Artes por algumas das crônicas presentes neste volume. Paraibano, nascido em Picuí, Tiago morou a maior parte de sua infância em Solânea. “As pessoas e histórias que circulavam nestas cidadezinhas do interior da Paraíba lá pelos anos oitenta me tornaram o escritor que sou hoje”, afirma Tiago. Com uma trajetória jornalística nas editorias de cultura de veículos em São Paulo e João pessoa, Tiago se mudou para Porto Alegre ao lado de sua atual esposa, Débora Ferraz. Em 2015, foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura com seu primeiro romance, que deve ser lançado ainda em 2018 pela Editora Moinhos e publicou um conto na antologia do Prêmio Off-Flip de Literatura, no qual também foi finalista. Em 2016 publicou um conto na coletânea “Onisciente Contemporâneo” (Bestiário), que comemorou os 30 anos da oficina e os 70 anos de Luiz Antonio de Assis Brasil – atualmente orientador no mestrado e doutorado do escritor.

Sinopse:

Uma escrita refinada, com tonalidades de lirismo e humor, que encontra na literatura uma fonte para se alcançar um diálogo consigo, com as pessoas e as coisas, com o leitor.”

Sérgio Tavares, escritor e crítico literário – Prêmio Sesc de Literatura

A crônica acaba fazendo isso, quando nos leva a refletir sobre as miudezas do cotidiano, miudezas invisíveis até que alguém as enquadre num visor ou numa página. (…) a crônica descreve uma espiral que não acaba nunca.”

Braulio Tavares, escritor e compositor

Resenha:

corremos graves riscos quando falamos”

Lavoura Arcaica, Raduan Nassar

O mundo é menos tímido do que eu, que escrevo para me esconder.”

(Não me leiam)

A crônica, portanto, é uma tenda de cigano enquanto consciência de nossa transitoriedade; no entanto, é casa – e bem sólida até – quando reunida em livro, onde se percebe com maior nitidez a busca da coerência no traçado da vida, a fim de torná-la mais gratificante, e somente assim, mais perene.”

(Jorge de Sá)

A leitura é inevitavelmente voraz da escrita desse cotidiano mágico de Tiago Germano. Saímos desbravando microcosmos ondulantes de folha a folha, palavra a palavra. A escrita de Tiago destrava nosso contato com o mundo, esse livrão que aguarda ser lido pacientemente, devolve ao nosso olhar uma fagulha búdica, abre as narinas para as minúcias que vivenciamos sem pensar, sem atinar pro cotidiano que passa por nós, já futuro do pretérito. Passageiros em desgaste, a rotina nos abasta e saímos, dissociados, imaginando que a questão, toda ela, é transpassar a morte, transformando-a em Aquilo-que-não-deve-ser-nomeado. A imortalidade não resolve, entedia.

Olha, me desculpa, mas se eu te escrevo hoje foi porque ontem eu encontrei, lá dentro de um caderno velho que eu tenho e que não tem fim, porque não tem capa nem contracapa, nem sei onde começa nem onde termina, um papel escrito com uma lista que fiz dos barulhos bons que você faz e que sinto tanta saudade.”

(Hoje)

A memória, essa desavisada que nos desanca, caderno sem capa nem data. Presença desordenada de todas ausências presentes e caóticas que tentamos organizar, se metódicos; tentamos esquecer, se traumatizados… E é disso que Tiago tão habilmente transforma em crônica: aquilo que jogamos pro lado.

Tiago faz a crônica de tabus tão velhos que já esquecemos, traz a morte, todinha ela, sem roupagem de Poliana, nem uma beleza estranha porque impassível. Tiago escreve o absurdo do mundo, que faz sua morada no normalmente imperceptível, impalpável – a rotina, as cristalizações da realidade em fatos, verdades absolutas que ele, como jornalista, sabe que não são tão absolutos, nem tão verdades, nem quase nada. Sua escrita não estrangula o leitor, nem a leitura. Leve, ele te encaminha pelos sentidos, nomes, histórias e quando termina, não termina.

“Demônios domésticos” é um livro que você leva pra dentro. Ele devasta na simplicidade do arabesco.

Agora já está feito. O que é que vamos fazer?”

A importância não só da construção das crônicas mas, principalmente, da linguagem e de sua estrutura é que o que mais chama a atenção do leitor mais observador. Ainda que os jogos de palavras pareçam, à primeira vista, brincadeiras ou despropósitos, talvez a grande travessura do escritor e seu humor morem justamente na ironia de construções, principalmente à guisa de conclusão dos textos, baseadas em jogos de palavras. O espaço da crônica é também um convite ao humor e às narrativas de minúcias cotidianas de maneira informal, porém Tiago eleva esse espaço ao imiscuir nele não apenas a presença de temas como a morte e conflitos internos e familiares, como em “Óculos Ray Ban”.

Nada de amenidades, não cai nessa, leitor…

Terminar a leitura do livro é de alguma forma experienciar o afã do prelúdio de uma obra, porque espero outras e mais outras, mas também ir ao âmago e a um fim finalidade. Sair cansado, não de um trabalho, mas de um prazer. Prazer em esbarrar no absurdo? Somente as antíteses explicam a sensação. É uma tangente. Esperar Godot lendo Tiago Germano.

Os livros têm o temperamento dos pássaros: cruel o sujeito que tenta por força domesticá-los.”

(O livro engaiolado)

A construção das crônicas que é si mesma uma narrativa fluida de fatos, invenções corriqueiras normalmente despertadas por acontecimentos, um mote ou um qualquer coisa. Qualquer coisa é muito. Hoje, no mundo das obviedades, novidades-maravilhosas, brilhos de telas, novas loucuras pelo preço de uma… Acreditar nessa melodia do cotidiano como algo possível de ser escrito a partir da perspectiva de uma estupefação diante dele é um desafio. O cotidiano normalmente é normal. Geralmente rotineiro.

Um narcótico.

Mas extrair daí uma frase que não seja clichê é tirar diamante do carvão.

Não se despreza uma crônica, Cânone.

as coisas estavam cheias de Espírito Santo”

Regonguz, Thiago Amud

A literatura adora esse qualquer coisa que é desprezado, esse cotidiano que na mão do cronista se transforma em narrativa curta, um rasgo no véu da rotina. O trabalho do cronista se assemelha ao do escultor. O cara vê a escultura pronta dentro da pedra e trabalha e lima e sua.

O cronista pega uma maçaroca diária de acontecimentos, separa suavemente numa peneira os causos, os textos, os olhares, os dias, e tudo e qualquer coisa e vai trabalhando esse espessamento de nossas vistas a partir da sua cristalina escrita. Material difícil, esse aluvião.

Ao cronista, resta aquele trabalho de catar feijão. Catar de dentro dos dias a fagulha extraordinária do despercebido, do maravilhoso.

Se você, leitor, vir algum senhor calvo bebendo gim numa mesa de bar, comunique-me. F. De Moraes faltou a nossos últimos encontros e não sei do seu paradeiro.”

(Procura-se F. De Moraes)

Ou inventar. O que é ainda mais maravilhoso.

Ou inventar liricamente, conforme Tiago faz. O que é ainda mais espantoso para quem está imerso nesse oceano de vulgaridades, novidades, loucuras, neuroses, esse cotidiano que afoga, que suga, que tortura. Ou não.

As estrelas são muitas por não saber contar, a lua é maior por não saber conter, a chuva nem molhada é por não saber dizer. E qual será a cor dos seus olhos? Quando ele terá mais cabelos? O que o futuro lhe esconde?”

(Matheus descobre as estrelas)

Da infância, Tiago nos traz partes icônicas: desde lidar com as questões de linguagem e maus entendidos que dela nascem em “Malamen” e “Extrato” sob o ponto de vista infantil e daí seu humor, até iniciar seu livro com “Óculos Ray Ban”, texto que dá um nó na garganta, obrigando o leitor a parar e respirar fundo, logo antes de entrar definitivamente na leitura. Corajoso um texto desse logo de início. Dependendo do trauma, cura. Dependendo do ato, abandono.

Tiago tem habilidade de cronicar a morte sem deixá-la sentimentalóide, piegas e clichê. Ela se torna um acontecimento comum. E por comum e por não entendermos e por não haver compreensão possível, acontecimento absurdo que deixa ferinas garras em nosso cotidiano. Um luto.

Ao torná-la assunto, bate de frente com um tabu. Ao tratá-la de maneira contundente, ainda que sem explicações, como o absurdo que é, torna a morte uma dinâmica, coloca-a dentro de uma circularidade textual, entre medos de infância, entre nomes de crianças, olhos vazios de pai, ausências, silêncios do “mundo dos adultos”.

As não-compreensões que não se dispersam. Acumulam conforme passam os tempos.

Herança.

Tiago consegue descrever crianças sem condescendência. Não são gênios cheios de respostas e, por isso, mais próximas das crianças que nos rodeiam. As crianças perguntam “porquês” e não nos dão resposta alguma.

Adorei papai, um balão!”

(Duas anedotas natalinas)

Entre “Claudia” e “Marta”, a mudança da criança que tenta entender até a jovem que ainda sem compreender tenta, pela memória, auxiliar o adulto que escreve mas desistiu de compreender.

O adulto não aceita a interrupção.

Acata.

Se sete vidas tivesse, talvez me desse ao luxo de não temer.”

(Do medo e outros demônios)

Talvez.

O que mais quero destacar na escrita de Germano é a maneira como ele finaliza suas crônicas. Este poder de síntese que se apresenta, não só em seus escritos, mas na construção límpida de seus finais. Sem frases de efeito defeituosas e capengas. Ou de tom moralizante.

Longe disso, Tiago consegue reunir as emoções dispersadas pelo texto e manobrá-las para estes finais que escreve, tão bem, que se transformam em outro ápice do texto.

Cada crônica encerra em si mesma um Tempo maior e inesperado. Este longo Silêncio entre uma e outra que o leitor deve transpor para passar da leitura de uma a outra deve ser respeitado. Digestão de digressões sobre o que perdemos e deixamos ir. Mortes cotidianas e que, futilmente, nos desarmam.

…tornando-se, pela elaboração da linguagem, pela complexidade interna, pela penetração psicológica e social, pela força poética ou pelo humor, uma forma de meandros sutis de nossa realidade.”

(Fragmentos sobre a Crônica, de Davi Arrigucci Jr)

Reconhecer a presença da intertextualidade com as citações de Drummond e Pessoa, além da intratextualidade no qual o autor tece entre suas próprias crônicas é também reconhecer o trabalho intenso que o escritor tem em seu laboratório. Não é fácil. Não é dom, é um esforço.

Além disso, a presença de metalinguagem, pensamentos e desenvolvimentos do autor sobre seu ofício, sobre o leitor, sobre a posição do autor, a indústria da cultura, tudo isso de maneira a não se perder de um estilo, uma voz e uma estética, a preocupação de um lirismo bem construído, a atenção aos pontos de vista diante dos acontecimentos, das lembranças, as desconstruções, etc são as questões que fazem de Tiago Germano se torne um autor a que se deve agradecer pela coragem de admitir este mistério que é a escrita. Principalmente pela forma a que ele se reporta e molda. É a linguagem que demonstra que Tiago Germano está vinculado a um desígnio de literariedade. Sem as obviedades, sem os clichês irritantes a que a contemporaneidade tem servido tantas vezes.

Ao invés de desenvolver longos tratados sobre os assuntos, Germano faz o mais difícil: decreta seu pacto com a simplicidade e faz dela sua estética. Ainda mais: bota na mão do leitor a responsabilidade de escrever as próprias histórias, como também dá ao catedrático-canônico a oportunidade de rever seus preconceitos. Combate com destreza os infrutíferos academicismos.

Mas isso vem de seu esforço em pensar o olhar jornalístico em conjunto com a feitura do escritor.

Germano fala tão bem sobre o medo que somente aquele que o venceu, ainda que por um segundo, pode dizer o que é sobreviver ao pânico dos dias. Não só dos dias que povoam as infâncias, mas também dos extratos e misérias que assombram os adultos.

Preferíamos o monstro Malamen.

Não sei onde dormem as palavras. Mas se ainda dormem na penumbra da página em branco, tenho medo das palavras.”

(Do medo e outros demônios)

A simplicidade é sempre o mais difícil, bem como para uma cátedra é quase impossível dialogar com uma criança. Ou explicar, sem cientificidades, uma nuvem.

As crianças veem os balões enquanto vemos bicicletas.

Esse é o cansaço do cronista e, por isso, no fim do livro, ele insiste num pedido: que nós, leitores, deixemos de viver pelos olhos dele, que vivamos por nós mesmos, que construamos para nós mesmos o processo de tomar da rotina seu ponto de mutação, seu salto quântico: a fagulha de extraordinário que falei antes. Um apelo que nasce do cansaço de quem é sugado pelos apelos dos cegados pelos véus das inconsistências brandas. Estamos mornos.

O cronista quer ser nosso leitor. Mais do que um livro de crônicas, “Demônios domésticos” encerra um manifesto: escreva sua própria história.

Mantenho minha palavra de quem aguarda as outras obras de Germano. Mas, quem sabe, quanto isso não irei, eu mesma, escrevendo umas crônicas?

Próxima página, quem sabe, mas nesta não, entenderam? Hoje não. Hoje eu quero uma frase que resmungue e cochile, uma frase longa que se interrompa no meio sem que ela faça o menor sentido.”

(Não me leiam)

Termino esta resenha por aqui, agradecendo ao autor pela disponibilidade e pela confiança no Projeto Literário Olho de Belize.

Fragmentos sobre o gênero crônica

1. O gênero possui uma relação estreita com o tempo, expressa em sua etimologia, pois a palavra “crônica” tem origem em Cronos, o tempo. A passagem mitológica de Cronos mostra a relação etimológica do termo “cronos” com o tempo, que pretende ser imutável, infalível, mas, independentemente de qualquer vontade, transcorre e muda sem que deuses ou humanos possam retê-lo. O tempo é senhor de “cronos”, e a partir dessa relação é cunhado o termo grego chronikós, o termo em latim chronicus e o português crônica (BENDER; LAURITO, 1993).

3. Na crônica, permanece a ideia de registrar o ocorrido em um intervalo de tempo, de servir de memória do que já passou, e tal característica marca os textos produzidos ao longo da história. Na Idade Média, os espanhóis e os portugueses, no período das circunavegações, faziam uso do gênero para relatarem os acontecimentos durante as viagens; assim, as crônicas serviam de registro para os descobrimentos de outras terras no Novo Mundo. A crônica funcionava como um documento.

4. Se o circunstancial está presente no relato de Caminha, a sua subserviência também, marcando uma relação assimétrica entre autor e leitor. Esta posição, por sua vez, não é adotada pelos cronistas do século XIX, que falam diretamente com seu interlocutor, e desta forma estabelecem uma relação diferenciada, que constitui um dos fatores determinantes para a realização do gênero crônica brasileira, como veremos na próxima seção.

5. Com o Brasil, o termo passou a funcionar de outra maneira: “a palavra foi ganhando roupagem semântica diferente. “Crônica” e “cronista” passaram a ser usados com o sentido atualmente generalizado na literatura: é um gênero específico, estritamente ligado ao jornalismo” (COUTINHO, 2003, p. 120)

6. Segundo Meyer, sob a influência dos folhetins franceses, autores brasileiros redigem a crônica à brasileira, publicando-a no rodapé do folhetim. “Tem uma finalidade precisa: é um espaço vazio destinado ao entretenimento. E já se pode dizer tudo o que haverá de constituir a matéria e o modo da crônica à brasileira” (MEYER, 1992, p. 96)

7. Segundo Santos, “foi a partir de 1854, quando José de Alencar publicou o primeiro folhetim da série “Ao correr da pena”, no Correio Mercantil, que o gênero começou a ficar com o jeitão atual” (2005, p.16); e Coutinho escreve: “foi José de Alencar que imprimiu à crônica a mais alta categoria intelectual” (2003, p.124). Segundo Fischer, referindo-se a Alencar, “foi este o primeiro a alcançar excelência para seu texto no gênero” (2007, p. 51). Costa, por sua vez, escreve: “Joaquim Manuel de Macedo e José Alencar deram início a uma raça de cães vadios, livres farejadores do cotidiano, batizados com outro nome vale-tudo: crônica” (2005, p. 247).

8. Alencar enuncia como se dá a formação do gênero crônica brasileira ao falar do ofício do folhetinista, e ao mesmo tempo marca o enunciado com a articulação dos gêneros primários, quando dá voz ao pai conservador, e secundários, quando da mobilização dos discursos histórico, literário e jornalístico, evidenciando a diferença discursiva relativamente à crônica à brasileira referida por Meyer. Outra diferença significativa para a constituição do novo gênero é o diálogo direto entre autor e leitor(a).

9. A crônica começou a ilustrar as incertezas, angústias e as inquietações do homem num ambiente urbano que refletia os sintomas de uma sociedade capitalista, seduzida pelo consumo e pela fugacidade da vida moderna. Diante desse quadro, o cronista utilizou-se de recursos estéticos que passaram a traduzir as relações sociais fragmentadas deste século na produção cronística. O caráter heterogêneo da crônica, seja por meio da sua linguagem, da utilização de recursos estilísticos ou mesmo pela amplitude de leitura que ela nos permite fazer da realidade.

10. Antonio Candido (1992, p.13): “A crônica não é um gênero maior. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece que a crônica é um gênero menor. Graças a Deus – seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica perto de nós.”

A partir do dizer de Candido, podem-se levantar algumas hipóteses: o caráter de produto consumido e renovado a cada dia do papel jornal, por ser um gênero originário do rodapé do folhetim, por seu tamanho e relatar coisas do povo contribuíam, para essa visão, de alguns pesquisadores, de que a crônica era um gênero menor da literatura. Seu descarte, sua durabilidade, seu leitor afetavam essa significação.

11. por ser um gênero híbrido, fica difícil enquadrá-lo, classificá-lo, fazê-lo pertencer a uma determinada esfera ou campo – uma vez que entendemos que as esferas dos discursos da história, do jornalismo e da literatura contribuem para sua constituição, conforme expressado na crônica de Artur da Távola: A literatura do jornal. O jornalismo da literatura. É a pausa da subjetividade, ao lado da objetividade da informação do restante do jornal. Um instante de reflexão, diante da opinião peremptória do editorial. […] É, pois, a expressão jornalístico-literária da necessidade de não desistir de ser e sentir. A crônica é o samba da literatura (TÁVOLA, 2001)

12. Assim, a crônica “discursiviza” o cotidiano e permite a possibilidade do equívoco (MEDEIROS, 2004). Uma fórmula tão tentadora que serviu de inspiração para Machado de Assis, escrever como se cria a crônica. “Há um meio certo de começar a crônica por sua trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e La glace est rompue, está começada a crônica” (ASSIS apud SANTOS, 2005, p. 27).

13. Braga escreve que a crônica é coisa vã e cansativa. Mas pensa no efeito poético. De onde vem? interroga-se. E, para reconsiderar a sentença, cita Camões. Dá-lhe gosto trabalhar com as palavras, com os sentidos. E a crônica permite este gesto, de estar cá e lá, da incerteza, da reflexão, do poético em coisas que parecem comuns, mas aos olhos dos cronistas transformam-se em matéria-prima de alta qualidade. Na crônica de Sabino o olhar no corriqueiro e a preocupação com a literalidade do texto são constitutivos do enunciado (“assim eu queria meu último poema”), em sua Última Crônica.

14. Indo um pouco mais à frente, chegamos a Luis Fernando Veríssimo. O cronista exemplifica a relação entre autor e gênero, com a seguinte frase: “na verdade, a gente não escreve sobre a rotina, escreve sobre uma quebra de rotina, sobre coisas incomuns que acontecem com pessoas comuns e mudam suas vidas, alguma epifania ou paixão” (2008, p. 32).

15. “Como gênero híbrido, a crônica reivindica do cronista todo o talento de um bom escritor e a disciplina de um grande jornalista. Perigo é quando os cacoetes da dupla profissão vêm a reboque e. além de se mostrar um escritor indisciplinado, o cronista se mostra um jornalista sem nenhum talento.” (Tiago Germano em “A crônica repetida”)

16. Assim, no final do século XX e início do século XXI as crônicas são adaptadas para os meios audiovisuais, publicadas em blogs, dando continuidade ao que lhes é constitutivo: permanecer em movimento, confrontando a história, o jornalismo e a literatura. Talvez o sentido da crônica brasileira seja este: causar o estranhamento, desestabilizar, fazer do incerto seu tempero mais genuíno e, em sua errância, buscando outros discursos para participar de sua trama. Agora sem o descarte do papel, na perenidade do mundo digital.

Bibliografia a la mode ABanguNT

SIEBERT, Silvânia. A crônica brasileira tecida pela história, pelo jornalismo e pela literatura. Linguagem em (Dis)curso – LemD, Tubarão, SC, v. 14, n. 3, p. 675-685, set./dez. 2014.

Crônica: um gênero menor? Indagações acerca do texto lítero-jornalístico – Aline Cristina de Oliveira (UNESP)

A crônica: problemáticas em torno de um gênero – Simone Cristina Salviano Ferreira (UFU)

Estudo da crônica – Eloisa Silva Moura (UNISUL)

Crônica: uma Intersecção entre o Jornalismo e Literatura – Yolanda Maria Muniz Tuzino (Universidade Estadual de Ponta Grossa)

Aletheia na barriga da baleia: o Olho de Belize imergiu em “A marca da água”, no teatro Nelson Rodrigues

Sinopse:

O espetáculo conta a história de Laura (Patrícia Selonk), que vivendo numa aparente placidez, numa espécie de cotidiano automático e morno, aos 40 anos, é surpreendida pelo misterioso aparecimento de um enorme peixe em seu jardim. Esta perturbadora e surrealista aparição traz de volta à vida desta mulher sintomas de uma doença neurológica causada por um acidente na infância. A partir daí, Laura passa a ter acesso profundo e muito nítido às suas mais antigas memórias e é arrebatada por uma música imaginária e constante dentro de sua cabeça. Com tons e movimentos que mantém o universo de “A Marca da Água” entre o real e sonhado, a busca e o delírio da personagem flagram estados sutis quando a fragilidade física pode transformar-se em afirmação de vida. A encenação serve-se de inspirada ambientação cenográfica, em que movimentos dentro de uma piscina e coloridas projeções auxiliam na condução da ação. Antes de dar voz ao texto caprichado de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, que “bebem” em fontes como os livros do neurologista britânico Oliver Sacks, o elenco fez intenso preparo corporal para, em cena, conseguir, sem embaraço, atuar tendo que a quase todo instante se lançar num tanque com 3 mil litros de água. Os figurinos de Rita Murtinho, em neoprene e tactel, faz com que os atores alternem o visual molhado/seco ao longo da encenação. O diretor musical Ricco Viana executa ao vivo a trilha original.

30168046_10156312501390750_5922187178155748863_o

Resenha:

“No início foi o ato.” (Freud)

E Vishnu nasceu da boca de um peixe, diz o mito.

“E o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gênesis 1, 2)

De vestido azul, desliza Laura, personagem de Patricia Sehlonk, pelo palco. Um peixe se destaca no cenário, mexe-se, deixando plateia e personagens estupefatos.

Memória de peixe, entre escamas e assoalhos, entre véus e Dory. Náufragos, pescadores, piratas. O mar é um tanque no palco. Sol que flui como Laura, pelo palco, quando ouve sua música. Calorosamente melancólico. Antitético e paradoxal como também é a questão da personagem principal: escolher entre sintoma e cura.

Ela escolhe sintoma porque é mais belo. E a cura é um silêncio.

A superfície do chumbo é particularmente interessante no nosso contexto: não apenas porque chumbo é o metal saturnino, e Saturno é o planeta que rege os melancólicos, em termos freudianos, os que incorporaram um passado que não pode ser enlutado.”

Márcio Seligmann Silva

A música é causada por um trauma causado na infância. Três cirurgias na criança e é dado como curado. Na idade adulta, ele retorna suavemente como… música. Laura continua deslizando, feito água, pelo palco. Azul, febril, ela mergulha e nos encara. Tenta pescar o peixe, que é a música, no tanque perdido da memória. A música escapa, o peixe que o filho queria desliza entre as cenas, ausência-presença. O irmão, Senhor Morte, coveiro da família, mensageiro do luto que Laura ri. Absurdo incompreensível. Tudo é lembrança e nada é lembrança, ao mesmo tempo em que deslizamos também ora pelo azul de Laura, que esconde um “memento mori” esgarçado pela presença da morte e pelo viés da eternidade, ora pelo marido, presa de baleia, Jonas.

Laura e Jonas.

E o peixe.

El universo fue creado del agua y flota en un gran mar”

Talvez, e mais uma vez, a Armazém Companhia de Teatro tenha me roubado o fazer crítico e me deixado apenas lacunas que tateio, admitindo não preenchê-las, mas acentuando significados e sentidos mil, buscar uma sintonia, mais do que um absoluto. As certezas estilhaçadas que colhemos no fim, meio abobados com a beleza blue que se estende pelo palco. Laura nos relembra de que estamos imersos em Melancolia. Não ameaçados por um planeta que se chocará com a Terra, como no filme de Lars Von Trier. Isso é fácil.

Destruição total e irrestrita. Prático até… toda semana uma nova data para um apocalipse. Não… no teatro não.

Mas se até Deus desistiu de dilúvios, por que encararemos uma destruição assim totalizante? Fugidia mesmo é encarar a desmemória apaixonada por uma melodia. Os acordeons soam como cortinas arrebentadas. Laura nos lembra da melancolia, do luto, do amor, do abandono. O peixe invisível na sala de estar. Uma maçã no escuro.

A maior das angústias é a angústia da morte.”

Schopenhauer

A mãe de vermelho interpretada magistralmente por Lisa Eiras nos espicaça enquanto chicoteia a água. Quer, ela quer, ela deseja até sua própria e última gota de água e sangue. Dão-lhe o vinagre da solidão, sua ira, sua fúria é tão grande que vergasta nossos corpos, ainda que de longe.

Lisa Eiras, que interpretou a Ofélia em Hamlet consegue, novamente, movimentar uma energia no palco que não há palavras para descrever. Espetacular o quanto seu grito nos sacode em e de nossos julgamentos. Impossível manter-se inóspito espectador, a grandeza dela nos devasta. Ainda bem.

O pai que não morreu – escafandrista de rios imensos e caçador de pérolas. A infância que nos é eterna e quase um ente ambivalente, um fluxo inimaginável que não detectamos nos passos diante da Vida, mas que pode nos saturar, afundar e destruir.

Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.”

Hilda Hilst

O adulto depende da infância para sobreviver ao arcano 22. Ou então viveremos na barriga da baleia para sempre e seremos Jonas e seremos pais e dançaremos sem ritmo, acenando para as pessoas, querendo apenas que sejamos vistos como normais. A vida desmorona aos poucos à volta dos pais de Laura.

Eles não encaram as Nínives: passam para outro o milagre de viver como uma batata quente. Nossas felicidades clandestinas inexistentes. Um olhar de Macabéa no silêncio, desvela Laura. Estendemos o mar, mas morremos de medo de mergulhos.

Somente as crianças sabem que nos disfarçamos. Afogamos as mágoas e somos afogados por um nado no Vazio, álcool evaporado em vão.

Na língua fenícia a palavra nun significa ‘peixe’. Em egípcio a palavra nun é usada indistintamente para ‘peixe e água’. A divindade Nun terá, portanto, o significado de águas primordiais, bem como o de peixe, que nada nestas águas.”

Laura sabe que esquecer é um silêncio. A Palavra Perdida é como a música que ela grava.

para a memória artificial tudo é ação, nada é paixão”

Paul Ricoeur

Letárgico texto, pedimos perdão aos atores por percorrer a peça de forma tão estranha. Toda aquela água tem tal apelo uterino que o chicote da mãe desperta alguma fúria, alguma força. Mas o chicote grita porque o corpo da atriz é uma faca na água. Marca da água, os atores são lidos através da luz.

Mecanizados como um corpo em luto que insiste em sobreviver mimetizando-se nos atos cotidianos e na rotina tirana que os filhos encenam na mãe, com a mãe. Mas ela mesma está alheia.

Pires, café, maquiagem, cigarro. Ela já estava morta antes.

O chicotear esgarça a fina malha que domesticou o real. O palco foge, se expande e estamos todos nele. Pequenos, órfãos, como diante da morte alguma vez. Essa invisível tirania.

O peixe se mexe só. E estamos diante de nossas carcaças.

E era como se a água

Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.”

Hilda Hilst

Peça extremamente tocante e poética. Uma lírica tecida entre silêncios e sons, gestos, passagens, improvisos, sorrisos e lágrimas. Uma passagem entre linguagens construída com sensibilidade e um exercício de liberdade tocante e sublime. Tão fluida que sentimos que nos enleva. Carrega élan. A linguagem teatral elevada a um pertencimento lírico, transtorno poético entre linguagens. Rios que se cruzam, águas que se alimentam. Mares que se tocam, naufrágios acompanhados, peixes que escapam pela casa 12. Espírito e azul. Os atores são estrelas pintadas à mão e deslizam. São emoções puras, distintas e impressionantes. Peixes e pés, águas e águas. Emoções que caminham entre nós, por dentro. Enquanto isso, inconscientes, nos movemos em combates férreos.

Desnecessárias guerras. Laura mergulha na música da água e nos convida a acompanhá-la.

Razão afogada in blues.

A mística de Laura é anterior ao trauma. Água da vida, Alma do Mundo – o desejo de fundir-se ao Incomunicável, Incognoscível… O mistério é mais antigo que o teatro e o teatro é sua tradução mais aproximada, seja no exercício de quem assiste e se envolve, são poucos!, seja no trabalho de quem se propõe a fazê-lo. Este trabalho sagrado. A ação põe a vida pra andar. No palco, o ato é a verdade sem esquecimentos.

Io!

A água transtorna e queima circuitos, a tudo inunda e invade, toma a forma que lhe aprouver. Intacta e antitética, dá a vida e também mata. Chove, inunda, mas caída do olho alivia a alma.

Laura não se despede da infância. O vestido azul permanece como uma memória renitente.

A iluminação consegue soprar em nossos olhos e luta contra as obviedades e clichês. Os movimentos, os relevos, as nuances nos atravessam. O espelho, a água que se move e dialoga em silêncio com a luz, consegue demover o espectador da neblina emocional a que a sociedade habilmente se encarrega de construir. Erguemos muros que a água derruba. Água é emoção. E enleva.

Os recursos visuais utilizados são de tal forma impressionantes não só porque auxiliam na contação da história, mas porque diante do recurso estético, a própria plateia é mobilizada emocionalmente e desperta pelo cenário. As imagens fluem também como líquidos em telas impressionantemente realistas. Não é somente um recurso secundário, mas retoma, dialoga e traz ainda mais consistência às atuações e, principalmente, aos pensamentos de Laura.

O espelho se abre e revela a memória. Partes de um todo que se arrebentam em fragmentos.

A música entra pelas frestas e as vozes dos atores acalentam um pouco nosso estado de espírito, esfregando ao nosso contragosto, deixando em nós a marca da água que nos compete. E que, se estava parada, é num segundo que ela transborda.

Milagre dos peixes: é a água que afoga as areias do tempo.

Laura sobrevive, intacta e fluida nos mares de nossa memória ancestral mais antiga. Labirinto do olvido.

Estanca o tempo. Descobre a ânsia. Guarda a fé.

Laura existe: torrente de riso e lágrima.

E é música.

“A música estava lá, bem dentro dele, ou em algum lugar, e bastava que ele a deixasse vir. ‘É como uma freqüência, uma faixa radiofônica. Se eu me abrir, ela vem. Quisera dizer que ‘ela vem do céu’, como Mozart disse.’ Sua música é incessante. ‘Ela nunca se esgota’, ele prosseguiu. ‘No máximo, eu consigo desligá-la.’ ” (Oliver Sacks)

Laroiê.

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

Armazém Companhia de Teatro convida para “A Marca da Água”
Teatro da CAIXA Nelson Rodrigues
Av. República do Chile, 230, Centro, Rio de Janeiro (entrada pela Av. República do Paraguai)
Estacionamento rotativo no local / Próximo ao Metrô e VLT Estação Carioca
Temporada de 27 de abril a 20 de maio, sexta a domingo às 19h
Eleito um dos melhores espetáculos de 2012 pelo Jornal O Globo, “A Marca da Água” foi vencedor dos prêmios Shell de melhor autor, APTR de melhor iluminação e Fringe First Award durante o Edinburgh International Festival, em 2013. Desde a sua estreia em 2012 o espetáculo cumpriu temporadas em 10 cidades brasileiras e participou de 3 festivais internacionais, o mais recente foi o Wuhzen International Theatre Festival, em Zhejiang, na China, em outubro de 2017.
Direção de Paulo de Moraes, dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, montagem da Armazém Companhia de Teatro, com Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Marcos Martins, Marcelo Guerra e Lisa Eiras, iluminação de Maneco Quinderé, figurinos de Rita Murtinho, direção musical de Ricco Viana, cenografia de Paulo de Moraes, vídeografismo de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca.

Bibliografia

seligmann-a-escritura-da-memória

oliver-sacks-alucinações-musicais

schopenhauer-metafísica-do-amor-metafísica-da-morte

jubilo-memória-noviciado-da-paixão-hilda-hilst