O Olho de Belize leu: “Do cotidiano, o amor”, de Sandro Aragão + Entrevista

“O próprio Sol e a própria Lua parecem ter-nos sido roubados.” Oscar Wilde, De Profundis

“Esse silêncio que os signos de água carregam”, Eduardo

Resenhar um livro não lançado, um livro ao qual o público não terá acesso por enquanto, é uma tarefa impressionante quando se trata desse “Do cotidiano, o amor”, do estudante de Letras, escritor, poeta e fotógrafo, Sandro Aragão. Sandro está em busca de lançar “Do cotidiano” contando com a ajuda de editais e agências de fomento.

Sandro Aragão é estudante de Letras – Literaturas na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, contista, pesquisador e morador da Baixada Fluminense. Foi vencedor do concurso de contos promovido pela UFRuralRJ e ganhou o prêmio “Melhor Filme Celular” no Festival de Cinema 72 Horas Rio 2016. Atualmente trabalha com pesquisa na área de Literatura/História na Fundação Biblioteca Nacional.

O livro é uma mistura boa de se ler. Entre contos, relatos, trocas de cartas e presentes, encontramos, esbarrando e entrando como leitores em histórias entrecruzadas de afetos. Ou melhor, entre afetos entrecruzados por narrativas. Os silêncios e as pausas. As interdições de afetos públicos, um alerta silencioso permanentemente ligado, as falas entrecortadas. Quem vive, sabe.

Quem nunca viveu, tem grandes questões a lidar com essa leitura.

“A invisibilidade do desejo homoerótico ou do indivíduo homoeroticamente inclinado não está presente apenas nos estudos históricos, como nos mostra Crompton; mas também nos estudos literários. Por muito tempo, a crítica especializada preferiu deixar de lado a presença do homoerotismo nas obras literárias, considerando esse desejo como um elemento sem importância para a análise crítica; principalmente em um tempo em que a análise da obra era, necessariamente, vinculada à biografia do escritor. Negar o homoerotismo da obra era também negar o desejo homoerótico de seu criador. Já que esse desejo era associado, comumente, à doença e ao crime, ele tornou-se um tabu para a crítica literária.” (Literatura homoerótica: o homoerotismo em seis narrativas brasileiras / Warley Matias de Souza. – 2010.)

“encontros intermediários entre amores passageiros”, Eduardo

“A história homossexual é, como adverte Balderston, a cicatriz de duas histórias: insistência e escamoteação, brilho e negação, e as formas da escamoteação foram tão variadas como o jogo erótico dos poetas com os caçadores de metáforas. Mais ainda, a escamoteação não provém do texto, mas de seus leitores, que insistiram em ludibriá-lo de forma a obrigar a sua rebelião a se adaptar aos bons costumes. […], e convém ressaltar: o recato em torno da homossexualidade não se origina no texto, mas em uma história que se torna “pudica” diante dele. Dessa forma, e fora dos consabidos binarismos de composição, o esquema crítico impõe uma história de evidências escritas e apagadas, proclamadas à meia voz, e cria um sistema no qual a homossexualidade se mantém precisamente no terreno de uma “marca”, de um “rastro” que apenas chega à superfície para ser novamente relegado ao suplementar” (QUIROGA, 2004, p. 12, tradução nossa. In Literatura homoerótica: o homoerotismo em seis narrativas brasileiras / Warley Matias de Souza. – 2010.)

Sobre o livro, a atenção do Olho está voltada para a linguagem, para a construção e a forma que Sandro articula seus personagens nas narrativas para traçar uma espécie de perfil literário ligado a uma estrutura teórica, uma linha reta quanto aos estudos literários de nossa época: esse agora longuíssimo e flutuante. Uma tentativa de ligar a construção do escritor à uma série de estudos e teorias aos quais estamos profundamente sintonizados, ainda que para renegá-los.

“(…) Eros vem juntar os pedaços, construir um mosaico – e a cada mosaico favorecer um estilo de corpo, um espelho de alma.” Samira Chalhub

“Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?” Ana C.

Dentro do quarto não se enxergava nada, mas neste instante, mais do que em qualquer outro, eu pude te sentir. Ir além das rasuras da linguagem, do silêncio estabelecido pela palavra. Era como se no único momento onde não somos capazes de dividir com o outro, você se mostrasse.”, Sandro Aragão

Sendo assim, gostaria de agradecer ao Sandro Aragão pela confiança ao permitir que eu lesse seu livro, bem como tecer comentários sobre sua obra.

“Ela ficava olhando pela janela

que não era, nem existia como janela:

Ela ficava olhando pelo buraco” Ana C.

Entre acasos, noções de poesias, citações invisíveis para incautos, relações de amor, noções de territórios fugazes, passadas largas, uma geografia do Rio de Janeiro, este livro é um passeio afetivo-subjetivo por territórios sempre díspares para o lado de cá, a linha 2. É, sobretudo, um livro sobre sínteses e antíteses.

Paisagens que se descortinam sob outras classificações, não só de afeto, mas sobre questões territoriais que pertencem, exclusivamente, à Baixada Fluminense.

“ ‘Cheguei’, disse ao soltar em Botafogo. Enquanto esperava, observei os prédios, a arquitetura, as pessoas e percebi como aquele lugar me estranhava. Era como se, ao estar ali, o sentimento de pertencimento, daquilo que diziam ser o Rio de Janeiro, me faltasse.”, Sandro Aragão

Mas, acima, paira aquela palavra clichê: amor. Um livro sobre amor.

“Só não me fale de sentimentos.”, Nathan

“perseverança da língua”, Sandro Aragão

Lendo os contos de Sandro, me veio uma questão quanto a figura do crítico, literário ou não, que é o papel a que me disponho fazer nesse projeto, nesse site, como na universidade, na Letras. Lendo os contos, percebi a tamanha sensibilidade imbuída em cada leva agir dos personagens nas narrativas. Sentindo de cada um a urgência, a indagação, o mistério, a construção, também me senti tomada por um sentimento de que a crítica, por si só, não é veículo total para atribuição de significados possíveis aos textos literários. Dirão alguns: “Mas a intenção da crítica literária não é essa!”

Ótimo.

Porém, o juízo de valor do qual, ainda, muitos se imbuem não deixa fluir outros signos, significados, literários ou não, além de emoções e, um toque, arrisco dizer, de uma escrita de ternura, acolhimento pela literatura do outro. Uma empatia crítica, será possível?

Não sei. Mas, quanto ao livro, ao texto, à linguagem de Sandro é o que me proponho: sendo ele o meu Outro, que eu saiba, ao menos, dar a ele não uma crítica-porrada, mas uma crítica que abraça.

Crítica-empática.

A empáfia a gente deixa pra linha 1. A decadência esmaltada.

Deixa estar.

“Julgo que o que eles amam não é a Arte,

Eles, que quebram o cristal do coração de um poeta,

Para que aqueles olhos pequenos e viciosos possam irritar-se ou deliciar-se?”

Oscar Wilde

“Mas: na fluência verbal do silêncio, a burla da censura, desvios da sintaxe, originais montagens de sentido, gramática das diferenças e das rupturas: o lugar do desejo sem lugar.”

Samira Chalhub

a rasura da linguagem”, Sandro Aragão

“como rasurar a paisagem

a fotografia

é um tempo morto

fictício retorno à simetria

secreto desejo do poema

censura impossível

do poeta”

Ana C.

Um livro sobre encontros, embora Marcos, personagem e narrador, diga que escreve sobre “despedidas”. De olho fotográfico, focado nas luzes que reverberam e também nas sombras que escondem, mas também nas meias-luzes que mostram tudo.

“Onde seus olhos estão

as lupas desistem.” Ana C

Entre as citações mapeadas, estão Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, que abre o livro, inclusive, Ana Cristina Cesar e muitos outros que, desapercebidamente, foram tragados na leitura, não por qualquer desatenção. Mas por desconhecimento.

acreditando no gostar que se mostra nos desvios”, Sandro Aragão

A linguagem escrita, no livro, reflete a linguagem fragmentada das mensagens de texto no celular e na internet, entre offlines e onlines, desligamentos contínuos de ligação não só no campo do afeto. O offline sendo status da vida. O apagamento dos limites entre o lá dentro da vida virtual e o aqui fora, este livro mostra tudo como uma coisa só, bem ao gosto das contemporaneidades.

me pus um sorriso”, Sandro Aragão

A experiência de territórios sempre hostis. Seja pelas distâncias entre baixada e zona sul/centro, seja pelas experiências contraditórias, linguagem fragmentada, encontros que se dissipam porque são apenas lembranças, seja pelo mais grave: territórios hostis pela homofobia.

“Tenho que conservar o Amor no meu coração, a qualquer preço. Se for para a prisão sem Amor, que será da minha alma?” Oscar Wilde, De Profundis

O medo do personagem/narrador Marcos não é apenas por não ser correspondido, mas há algo inerente já ao afeto, que é o medo de se expor, de abrir não só o verbo, mas como o encontro, por mais simples que seja, um toque entre as mãos, um olhar, tudo isso é permeado até o âmago pela presença obscura do medo do olhar e preconceito alheio. Esse medo que não é dito, mora nas entrelinhas, detalhes e passa vagamente da personagem para o leitor, não apenas como medo, mas transformando-se numa profunda angústia.

O encontro entre os textos, livres entre Marcos e os que o respondem, tomam o território da escrita com um profundo e intenso sentido de liberdade dialógica, além da polifonia nas citações.

Mas além disso, os encontros que na realidade foram permeados por temores e dúvidas, na cidade linguística, são encontros intensos.

Uma sentinela: ilha de terrível sede.

Conchas humanas.”

Ana C

Os diálogos ensimesmados misturados aos diálogos que se tem, misturam-se os dois aos diálogos imaginados que gostaríamos de ter. O livro é um convite à um signo de ar: mente ágil, escapismos sutis, sentimentos fluidos, emoções vagas e, no fundo, um silêncio que diz muito.

Esse silêncio tem motivo?”, Sandro Aragão

Estas areias pesadas são linguagem.

Qual a palavra que

todos os homens sabem?”

Ana C.

Para ler o livro, a questão do leitor é saber, primeiro e acima de tudo que “aqui há um gostar”.

Acompanhamos um relato de pensamentos que são cotidianos. Nós, os comuns aqui de fora, referenciados, espelhados tão comuns que poderiam ser aqueles que nos atravessam com os olhos no metrô, no ônibus. Que nos atravessam, como atravessam as pessoas do verbo no livro.

“Silenciei meus pensamentos com os fones de ouvido”

Sandro Aragão

Entre o eu e o tu, humanos, personagens. Narradores. Se fundem, nesse livro, a primeira e a terceira pessoa, jogadas no turbilhão fluido, imenso, imerso e intangível da realidade. Realidades. Diário, relato ou narrativa? Pra quê saber?

O que diferencia é a construção.

Sem sintaxe, não há emoção duradoura. A eternidade é função dos gramáticos, cito de memória Fernando Pessoa.

O livro é dividido entre os quatro elementos, quase como dedicatórias aos quatro elementos, sendo Marcos, o narrador, um elemento que transpassa, sem ultrapassar. Por ser aquele que conta, Marcos representa a quintessência: o espírito que vai a todo canto, mas não é onisciente e se infunde de dúvidas que prosseguiriam alheias, senão fossem narradas. E que se tornam belezas, peças de linguagem que lemos e relemos, anotamos e guardamos para não perder nesse oceano infinito que perdas que se tornou nossa memória bombardeada por informações, tantas vezes inúteis, quantas vezes são descartáveis.

“Pensar dá medo. Você sente isso também?”, Sandro Aragão

Esquecemo-nos de que a água pode limpar e o fogo purificar, e que a terra é mãe de todos nós. Como consequência, nossa Arte é da Lua e brinca com as sombras, enquanto a arte grega é do Sol e lida diretamente com as coisas. Tenho certeza de que há purificação nas forças elementais, e quero voltar a elas e viver em sua presença.”

Oscar Wilde, De Profundis

O toque como tentativa de afeto. O toque, ainda que num ambiente privado, também é sutil como uma brisa. O pensamento também tateia. Pensamento-tato.

Esse indizível tão difícil, tão.”, Sandro Aragão

O mar (…) lava as manchas e feridas do mundo.” Oscar Wilde, De Profundis

O olho é uma câmera. Toda escrita de Sandro é uma fotografia das despedidas.

Acredite, falar é tão angustiante quanto esperar o que se vai dizer.”, Sandro Aragão

“Mas a verdadeira vida vivida

em língua de pês e vês

nos diz que não desperdiçamos tanto assim.” Ana C.

Esse indizível tão difícil, tão.”, Sandro Aragão

“Te convenço então. Venço como estúpida

quando peço guarita ao interfone,

então, seco teus cabelos,

ando pela casa facilmente,

quando tiro tua febre” (Ana C.)

Os evangélicos vão nos queimar vivos.”, Sandro Aragão

eu sei que somos um alarido de vozes”, Douglas

Nós, Outros.

Nós, nós.

ENTREVISTA

Olho de Belize: É possível amar no cotidiano?

Sandro Aragão: Tá aí uma pergunta que eu não imaginei que me fariam. Risos. Bem, antes de dar uma resposta objetiva, acredito ser importante deixar claro que esse “amar no cotidiano” é uma possibilidade dentre muitas outras. Porém, ao meu ver, é uma possibilidade de um amor mais próximo do real, que se desfaz das idealizações e dá chance de não ser visto como destino, mas como escolha.

Essa pergunta me lembra uma situação que vivi, onde namorei um rapaz que, depois de alguns dias viajando juntos, me perguntou – você está apaixonado por mim ou pela idealização frente ao que você acredita que eu sou? No momento eu não soube responder, porém, o questionamento me fez pensar que, talvez, eu só teria a resposta caso desse chance para que o meu sentimento por ele fosse ganhando espaço no meu cotidiano, revelando, então, uma possível resposta.

Dito isso, minha resposta é sim, acredito que se possa amar no cotidiano, desde que esse amar seja uma escolha.

Olho de Belize: Há muita delicadeza na sua forma de escrever. Como essa delicadeza sobrevive no mundo-cão? Ou melhor, como manter isso à salvo? Há que se manter a escrita à salva do mundo?

Sandro Aragão: Essa pergunta me lembrou o final da novela Rútilos, de Hilda Hilst: “Até um dia. Na noite ou na luz. Não devo sobreviver a mim mesmo. Sabes por quê? Parodiando aquele outro: tudo o que é humano me foi estranho”. Acho que esse fragmento revela o lugar de onde surge em mim isso que você nomeia de “delicadeza”: que é um sentir de deslocamento, de desconforto do/no mundo. Nesse sentido, pensando na minha produção, não acredito que se deva manter essa “delicadeza” à salvo do mundo-cão, já que que é ele quem suscita em mim a externalização desse sentir.

Agora, quanto a última pergunta, não, não acredito que se deva manter a escrita à salva do mundo. Para mim, ela tem de estar no mundo, para que assim o mundo tenha a possibilidade de modifica-la, assim como o contrário: a escrita modificar o mundo. Ou, no mínimo, permitir uma perspectiva diferente deste.

Olho de Belize: Como você explicaria sua relação de escrita com seu olhar na fotografia? Em seu livro, há uma bonita relação entre a literatura e a fotografia, mas como isso se dá na construção literária?

Sandro Aragão: Diz-se que na fotografia se desenha com luz: momento em que o obturador abre e capta a luz que cria condições físicas para que a imagem possa se fixar no papel. O que isso tem a ver com a relação da minha escrita com a fotografia? Se a câmera fotográfica desenha com luz uma imagem física, a minha mente desenha com a caneta, no papel, a imagem que se encontra no meu imaginário, captada por minhas sensações: olhos, ouvidos e tato, dando forma, então, ao texto.

O obturador é minha mente, a luz a caneta e a plataforma na qual essa imagem vai ser chapada é a mesma da fotografia: o papel.

Olho de Belize: Muito interessante ler sobre seu estranhamento com o território da zona sul. Sempre sinto isso também, como moradora da Baixada. De que forma isso se reproduz na sua escrita?

Sandro Aragão: Essa é uma pergunta capciosa, e vou explicar o porquê. Risos.

Eu demorei dois anos e meio para terminar definitivamente a base desse projeto. Olhando hoje, percebo que no início, quando comecei a escrever, não havia uma preocupação consciente, da minha parte, em me pensar pertencente ao espaço geográfico da Baixada. Apesar disso, relendo os primeiros textos que produzi para o livro, eu vejo que aparecem, na minha escrita, reflexos do impacto desse território em mim, porém, sempre de forma inconsciente, como escapes da minha subjetividade quanto a essa questão.

Eu acho que um ano depois de produção, apesar de não ter interesse em construir um trabalho que trouxesse em seu bojo uma bandeira política (Deixo aqui uma ressalva: só o fato de eu dizer que não era do meu interesse fazer um trabalho político, já o faz ser. Tenho consciência disso. Risos), eu passei a sentir necessidade de incluir elementos nos textos que falassem desse território marginalizado (que, obviamente, também falam de um eu e das experiências desse eu), mesmo que de forma sútil, possibilitando, talvez, algum tipo de reflexão sobre essas “fronteiras”.

Agora, quanto ao fato da pergunta ser capciosa, é por conta do fato de saber que a questão do território passou a ser uma questão cara para mim enquanto pessoa e, logo, sobre os trabalhos que busco contruir.

Olho de Belize: Sua escrita tem uma linguagem simples, mas não simplória. Como é utilizar uma estrutura clássica como a do conto, porém com uma linguagem poética e de um quase-relato, com uma forma muito parecida com a de um diário? Influências de Capucho? Rs

Sandro Aragão: Na verdade, o que me suscitou a ideia para o formato do livro foi dois trabalhos de uma artista plástica/escritora chamada Sophie Calle. O primeiro foi o “cuide de você”, no qual ela pega a carta que o ex-namorado a enviou para terminar a relação e pede para que 107 mulheres interpretem a partir de suas experiências; e o segundo foi o livro de crônicas Histórias Reais, em que cada crônica vem acompanhada de uma foto, no intuito de atestar que aquele “relato” é real, trazendo à mesa a máxima “Uma imagem fala mais que mil palavras”. O interessante é que tanto as fotos quanto os “relatos” das crônicas são todos irreais.

Esses dois trabalhos foram o ponto de partida para eu ter a ideia para o meu projeto. Quando os descobri, foi como uma luz acendendo na minha cabeça. Risos.

Depois, durante o processo de produção, obviamente, acabei sendo influenciado pelo trabalho do Capucho, e por boa parte dos textos com abordagens homoeróticas que li, o que me fez começar a perceber que o processo de produção que eu estava entrando poderia ser como uma tentativa de me utilizar dessa estrutura clássica para falar/representar sobre questões mais marginalizadas/contemporâneas. Eu busquei, com os contos, trazer uma escrita mais confessional, que se aproximasse de quem lê, mas procurando não abandonar o literário, a preocupação com a forma, o distanciamento que a produção literária pede entre escritor/texto.

Quanto a essa última questão, li um artigo de um pesquisador chamado Fabio Figueiredo Camargo (UFU/Estudos Literários), em que ele analisa, em um artigo, algumas produções literárias com esse caráter confessional, essa “escrita de si”. Na análise, ele comentou algumas coisas bem interessantes, que me fizeram refletir sobre minha escrita: que o texto não pode ser/parecer reflexo das suas experiências pessoais, como se você estivesse fazendo um desabafo. Tem de ter algo mais, algo que não seja só uma tentativa de dar vazão ao que se sente. Os traços literários só começam a aparecer a partir do momento em que se consegue distanciar de si e olhar para esse “eu” de fora, buscando dar uma forma, uma estética para ele.

Bem, eu busquei fazer isso em meus contos, agora se consegui, é outra questão. Risos.

Olho de Belize: As passagens de seus textos, em fragmentos, revelam influências cinematográficas. De que forma o cinema moldou ou não a forma da sua escrita? Quais seus diretores favoritos da sétima arte?

Sandro Aragão: O cinema é extremamente importante para minha criação textual, pois eu busco sempre pensar o meu texto como um filme: enquadramento de imagem, cortes rápidos e fluidez tipicamente cinematográfica.

As influências do cinema para mim não é uma inspiração, mas uma base para pensar a estética do texto.

Agora, quanto aos diretores, gosto muito do trabalho do Javier Dolan, Pedro Almodovar (apesar do encanto ter dado uma morrida depois dele proteger um caso de machismo) e Karim Aïnouz.

Olho de Belize: Questões geográficas como distâncias e fronteiras são recorrentes na sua escrita. A que você acredita que isso se deve?

Sandro Aragão: Acho que essa pergunta dialoga diretamente com o que respondi na pergunta quatro.

Bem, quando eu me permiti conhecer outros espaços que não só a baixada, passei a ter relações pessoais que não se limitava aos que moravam no mesmo espaço geográfico que eu. Isso me desencadeou uma quantidade grande de experiências positivas e negativas, que me fizeram perceber essa distância não apenas como distância, mas, principalmente, como fronteira.

Um tempo atrás conheci um rapaz que veio fazer intercâmbio no Brasil. Ele estudava sobre fronteiras. Em uma de nossas conversas, eu tive um insight, que foi perceber que fronteiras não são apenas delimitações geográficas, que marca a saída de um país e a chegada noutro. Vou explicar o porquê: Como disse, assim que comecei a frequentar outros espaços fora da Baixada, conheci pessoas de outras regiões do Rio, porém, algo que sempre marcou esse “conhecer”, foi o fato de eu ser sempre o sujeito que ia às pessoas. Ninguém nunca podia vir a Baixada, a não ser as pessoas que moravam na Baixada (Existem exceções, obviamente). Isso é uma fronteira. Já conheci diversos rapazes pelos quais me interessei em conhecer melhor, assim como eles a mim, mas a partir do momento que falamos sobre o “de onde você é?”, a conversa findou. Isso é outra fronteira. Por último: o rapaz estrangeiro que conheci. Nós namoramos e decidimos que quando ele fosse embora, nós terminaríamos. A fronteira aqui não foi geográfica, foi econômica. Na relação com ele, descobri que pessoas pobres não têm o direito de ter uma relação com pessoas de outro país (Digo isso com ressalvas, claro. Mas, de qualquer forma, as histórias que dão certo, costumam ser exceções).

Enfim, respondendo de forma objetiva, acredito que essa recorrência se deve as minhas experiências pessoais.

Olho de Belize: O território influencia na sua escrita? De que maneira?

Sandro Aragão: Acredito que parte dessa pergunta eu respondi na que foi feita anteriormente. Mas, respondendo a essa, bem, acredito que o território influencie muito na minha escrita.

Durante o meu processo de escrita, quando falar de território se mostra como algo importante, eu tento trazer para as histórias não só os centros, mas também as periferias, criando, assim, um contraponto.

Além disso, procuro, também, não pensar o território apenas como espaços geográficos, mas como parte da construção da subjetividade dos personagens, territórios como relações afetivas ou como parte da formação de um corpo. E isso, claro, porque afeta, também, a mim.

Eu fiquei com a sensação de que não respondi o que você queria, mas o que me veio foi isso. Risos.

Olho de Belize: “O homem é o que ele silencia”?

Sandro Aragão: O homem é, sobretudo, o que ele silencia. Risos.

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Momento Olho no espelho: algumas perguntas são repetitivas. Pensei em modificá-las, mas não seria justo com o entrevistado, portanto deixo-as como estão. Porém, explico: como questão de urgência ao Olho de Belize, a noção de “território” sempre será citada repetidamente. Espero que não com essa insistência a que Sandro Aragão foi submetido a falar sobre, mas ainda assim, creio que este tema saltará aos olhos dos leitores daqui sempre que se falar de literatura e qualquer outra arte da Baixada. Principalmente em entrevistas.

A repetição é, de alguma forma, proposital. Uma investigação do indivíduo que pergunta e constrói a crítica sobre o indivíduo que responde.

Por enquanto, é isso.

Mas há, sempre, mais por-vir.

Laroiê, Exu.

Exu é mojubá!

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

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Dionísio caminha por Nova Iguaçu: o Olho de Belize assistiu “Antígona”

Ko si oba kan, ofi Olorun.”

Exu

Sentado, sua cabeça bate no teto. De pé, não atinge nem mesmo a altura do fogareiro.”

(itan sobre Exu)

DIONISO, em grego Diónysos, é palavra ainda sem etimologia. Quanto a Baco, em grego Bákkhos e seus vários derivados, como Bákkhe, Bacante e o (bakkheúein), “estar em transe, ser tomado de um delírio sagrado”, também não possuem um étimo seguro, até o momento. Na realidade, Dioniso e Baco não pertencem a qualquer raiz conhecida da língua grega. (Mitologia Grega, Junito Brandão, p.113)

Invoco ainda o deus da tiara de ouro,

epônimo deste país,

Baco dos evoés, de rosto tinto de vinhaço,

para que, sem seu cortejo das Mênades,

avance em nosso socorro, com sua tocha ardente,

contra o deus que entre os deuses ninguém adora.”

(As Bacantes, 145-150, Eurípides. In Mitologia Grega, Junito Brandão, p. 122)

 

Mas Zeus não foi o arauto delas para mim,

nem essas leis são as ditadas entre os homens

pela Justiça, companheira de morada

dos deuses infernais;

e não me pareceu que tuas determinações tivessem força

para impor aos mortais até a obrigação

de transgredir normas divinas, não escritas,

inevitáveis; não é de hoje, não é de ontem,

é desde os tempos mais remotos que elas vigem,

sem que ninguém possa dizer quando surgiram.

E não seria por temer homem algum,

nem o mais arrogante, que me arriscaria

a ser punida pelos deuses por violá-las.

Eu já saiba que teria de morrer

(e como não?) antes até de o proclamares,

mas, se me leva a morte prematuramente,

digo que para mim só há vantagem nisso.

Assim, cercada de infortúnios como vivo,

a morte não seria então uma vantagem?

Por isso, prever o destino que me espera

é uma dor sem importância. Se tivesse

de consentir em que ao cadáver de um dos filhos

de minha mãe fosse negada a sepultura,

então eu sofreria, mas não sofro agora.

Se te pareço hoje insensata por agir

dessa maneira, é como se eu fosse acusada

de insensatez pelo maior dos insensatos.”

(Antígona, Sófocles)

Brecht is present.

Tebas das sete portas…”

Jamais subestime Dionísio.

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O teatro é o corpo de Dionísio, A estrutura é seu corpo físico, seja palco italiano, seja palco elizabetano, o palco é seu coração, divino em feitio de homem.

A peça é sua alma. Múltipla como múltiplas são suas facetas, disfarces e máscaras.

DIONÍSIOS não me amarrem! me proclamo uma pessoa que sabe das coisas, não me dobro a quem não sabe

PENTHEU amarrem! eu te dobro, eu sou autoridade, meu poder é maior do que o teu

DIONÍSIOS você não sabe o que está te tramando, o que faz, nem quem é

PENTHEU Pentheu! Filho da minha mãe Agave e do meu Pai, Équion

DIONÍSIOS teu nome já traz tua pena: Pentheu

(As bacantes, Teatro Oficina)

Em todas as épocas, porém, houve movimentos contrários aos sistemas estratificados das religiões tradicionais, e a Grécia também assistiu a tais reações. O Orfismo e o dionisismo, os Mistérios de Elêusis, constituem bons exemplos. Tais correntes ofereciam a todos, igualitariamente — até aos deserdados — a comunhão com o divino.” (Mitologia Grega, Junito Brandão, p.10)

Descrição do evento em https://www.facebook.com/events/2381224055435448/

Petrobrás apresenta: 

XVI EncontrArte – Encontro de Teatro da baixada Fluminense, de 28 de Setembro a 08 de Outubro, 17 espetáculos gratuitos. Ingressos distribuidos a partir de 1 hora antes dos espetáculos. Sujeito a Lotação.

28/09 às 20h – Antígona 
Antígona é fruto do casamento incestuoso de Édipo e Jocasta. Na peça, a personagem está enclausurada em uma caverna depois de ter sido condenada à morte por ter desobedecido seu tio Creonte. Ele, o Rei de Tebas, proibiu que o irmão de Antígona fosse enterrado de acordo com as tradições religiosas de seu povo. A protagonista enterrou o irmão e, agora, paga com a vida pela desobediência civil.

Com Andréa Beltrão e direção de Amir Haddad. 
De: Sófocles
Tradução: Millôr Fernandes
Dramaturgia: Amir Haddad e Andrea Beltrão
Direção: Amir Haddad
Adulto/Tragédia / 16 anos/ Duração: 70 min.

Ao assistir a Antígona de Amir Haddad, não sabemos com certeza quem é o narrador ou narradora, coro. Temos personagens.

Mas, em algum momento, por entre os lenços, lamúrias, tragédias, prantos, saltos e punhais, percebi quem se iminuscuía por entre os panos, os casacos e nomes, entre os papeis…

Entre as luzes, contrarregras, efeitos, caixas de som e poltronas.

Entre os silêncios.

Entre tudo.

Era ele: Dionísio.

DIONISIOS por ruas escondidas, eu sou o teu labirinto. (As Bacantes, Teatro Oficina)

E aqui Teseu é devorado. Não há fio de Ariadne dentro de uma tragédia. Nós somos Teseu e Dionísio, demos graças! Evoés!, é quem nos devora as entranhas. E ele o faz para que, rejuvenescidos, possamos sair do teatro melhores do que entramos.

Haja catarse pra tanto mundo. Mundo, mundo, mundo… vasto mundo.

Dionísio está em tudo.

Na peça, Dionísio é o primeiro ator. É narrador de todo o arco trágico que vai de Zeus até Eurídice e um prelúdio secreto… de Medeia.

Mistérios.

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Em cena, temos Andrea Beltrão, vivendo inúmeros personagens dessa tragédia e de outras. De Ismênia a Creonte, de Édipo a Jocasta, de Penteu à Antígona, ecos das Bacantes e a presença soberana de Dionísio a todo momento.

Os mortos sabem quem agiu, e o deus dos mortos;

não quero amiga que ama apenas em palavras.

(Antígona, de Sófocles)

Andrea não interpreta Antígona, mas o próprio Dionísio, que entre risos e deboches, citações e comentários sobre nossos tempos, marca e demarca sua passagem e presença em nossa história.

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PENTHEU o que são esses mistérios?

DIONÍSIOS são vedados pra tapados que não tem fé cênica. (As bacantes, Teatro Oficina)

batuques de Elêusis, mistérios de Donga

Sacra seara… Sacra seara…”

(Pedra de iniciação – Thiago Amud)

Entre os véus que o teatro nos proporciona, sem ilusionismos que a realidade mentirosa nos cerceia, encontrar Dionísio não revelado foi um dos maiores presentes que Andrea poderia nos proporcionar, proporcionar à Baixada.

Dioniso é o deus da metamórphosis, quer dizer, o deus da transformação.” (Mitologia Grega, Junito Brandão, p.115)

Dionísio em cena, apresentando essa Tebas que não nos é familiar, cotidiana, mas que transparece em suas tragédias as mil formas do Destino. Entre Datenas e páginas policiais estamos fadados a acompanhar tragédias e por isso Édipo arrancando os olhos não seja uma cena tão horrenda quanto o normalmente esperado.

A Baixada tem o estômago forte dos sobreviventes, Dionísio. A gente come Tebas com farinha.

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Temos nossas Antígonas, as mil Ismênas que caminham por nossas terras, Creontes então… Nem se fala.

Há Creontes em todo canto. E votamos em Creontes de quatro em quatro anos…

Aguardamos que a amargura do destino venha corroê-los porque já não acreditamos mais na justiça como Antígona porque já não damos libações aos deuses. Nem rezas.

Os reveses vem e são tidos como naturais.

Até quando?

que pena, Pentheu,

que a pena do teu nome

não pentelhe de luto e penas todo teu palácio

não é um profeta fazendo profecias

são os fados, fadando

louco fala língua de louco.

(Tirézias, As bacantes, Teatro oficina)

Mas é aí que entra, naquela piscadela dionísiaca, o barrete vermelho e preto de um deus maroto e menos dado a flautas, mais também dado a festejos.

E ogós!

Exu.

Um deus se atraía e se atrai com flauta e tambores…” (Mitologia Grega, Junito Brandão, p.118)

E se as libações a Zeus caíram em desuso, mas por coincidência, tanto Dionísio permaneceu sendo louvado, vivendo e renascendo, nascendo e permanecendo vivo no corpo e na alma do teatro e dos atores e todos os profissionais envolvidos, Exu também não se faz de rogado.

Desconheces o que seja a tua vida, o que fazes e quem és! (Dionísio, As Bacantes, Eurípedes)

Conhece-te a ti mesmo. (inscrição presente na entrada do Oráculo de Delfos)

Todo ano faz sua festa, a Carnavalia, em que saímos dos nossos tripaliuns tradicionais e molejamos com os disfarces dele. E bom, Dionísio e Exu permaneceram pela alegria e pelo êxtase. Pelo vinho e pela cachaça.

BachaRNAVAllia.

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Io!

Com efeito, para os antigos gregos, a mania, a loucura sagrada, alicerçada no êxtase e no entusiasmo, era inseparável de Dioniso. E Platão, em outras passagens, insiste muito nesse ponto. E bem antes dele Eurípides, nas Bacantes, pelos lábios de Tirésias, afirma que Baco e sua mania fazem prever, com certeza, o futuro. A dificuldade maior é explicar a presença de Dioniso em Delfos. Uma presença tão marcante, que, no inverno, quando Apolo se retirava para o país dos

Hiperbóreos, o deus do ditirambo reinava soberano no Parnaso, sem, no entanto, se imiscuir pessoalmente no Oráculo.” (Mitologia Grega, Junito Brandão, p. 99)

Tebas compartimentou-se nos delírios creônticos dos capitalistas, neoliberais, conservadores, fascistas carregando os escombros da cabeça de um Penteu delirante.

Vencer o fascismo e a violência pelo riso, pela fúria imperiosa da Festa que arrastará consigo tudo que estiver pela frente. Até o delírio mercantil, as bolsas de valores, os deuses de mentira retirar-se-ão aturdidos entre murmúrios.

Tirésias conversou com Orunmilá um dia.

Io!

Aos ritos de iniciação tradicionais, a sophia e a philosophia substituem outras provas: uma regra de vida, um caminho de ascese, uma via de pesquisa que, ao lado das técnicas de discussão, de argumentação, ou dos novos instrumentos mentais como as matemáticas, conservam em seu lugar antigas práticas divinatórias, exercícios espirituais de concentração, de êxtase, de separação da alma do corpo.”

(As origens do pensamento grego, Jean Pierre Vernant)

A dinâmica da peça é tomada por elementos que se tornam, de repente, personagens. Assimilamos rapidamente o salto alto representando Ismênia. O lenço vermelho remetendo a Antígona e toda tradição de sangue que ela arrasta consigo com uma ternura e sabedoria impressionantes.

O casaco verde-militar que se torna Creonte…

Se tens de amar, então vai para o outro mundo,

ama os de lá. Não me governará jamais

mulher alguma enquanto eu conservar a vida!

Creonte (Antígona, Sófocles)

E é deprimente como ele se dobra e desdobra no final como a própria persona Creonte encontrando-se com a amargura do arrependimento pelos próprios erros.

 

A desmedida empáfia nas palavras

reverte em desmedidos golpes

contra os soberbos que, já na velhice,

aprendem afinal prudência.”

(Antígona, Sófocles)

Os nomes pendurados que quase falam. Querem todos, urgentemente, contar como estão fatalmente vinculados. Gritam contra as Moiras, contra os deuses. Quase, por um relance pude enxergar Édipo se esquivando pelos cantos.

E deuses contra deuses. E deuses contra homens.

Ao ignorante, o que fala com senso parece não pensar bem. (Dionísio em “As Bacantes”, Eurípedes)

E os pedaços da esfinge que caem do palco quando ela é desmascarada.

“É o homem. É o homem a tua resposta.” Esfinge de Tebas

Édipo vence a Esfinge mas é escravo do próprio destino. Adiantou ser herói se havia um enredo? Era melhor ter sido morto? Havia como fugir da profecia?

Não sabemos. só sabemos como foi

e não como poedria ter sido. bem como a vida é.

Ela é e pronto. Não há talvez.

Nada há mais nocivo que suportar que nos subjuguem as mulheres!

(Penteu, As bacantes, Eurípedes)

Falou et dixit, diria Bolsonaro. E foi então que Agave arrancou com as mãos nuas a cabeça de Penteu.

Cuidado, Bolsonaro. É bom já ir se preparando. Dionísio te aguarda e Exu está faminto.

Eu não estaria tão animado para 2018 se fosse você.

Opa, Crivella! Tudo bem?

Michi quoque niteris;

Nunc per ludum

Dorsum nudum

Fero tui sceleris.”

(Carl Orff)

Na tradição grega os touros indomáveis e ferozes, como os que Jasão atrelou, simbolizam o ímpeto desenfreado da violência. Trata-se de animais consagrados a Posídon, deus dos Oceanos e das tempestades, a Dioniso, deus da virilidade fecunda e inesgotável. São igualmente símbolos dos deuses celestes nas várias religiões indo-européias, por força de sua fecundidade infatigável e anárquica como a de Urano.”

(Mitologia Grega, Junito Brandão, p.35)

Io!

Nós ainda não nascemos.

Ainda não estamos no mundo.

O mundo ainda não existe.

As coisas ainda não estão feitas

Nem foi encontrada a razão de ser…

Ao sair da memorável sessão, o público calou-se. Podia dizer-se o quê? Acabávamos de ver um homem miserável atrozmente sacudido por um deus, como se estivesse no limiar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila onde se não tolera nada profano, onde era exposto um vates como num Carmelo poético, oferecido a implacáveis iras, aos abutres devoradores, ao mesmo tempo sacerdote e vítima… Sentia-se vergonha do regresso a um lugar no mundo, onde o conforto se constrói de compromissos.”

André Gide em “A arte e a morte”, de Antonin Artaud

Vamos. De que me vale viver? Não tenho pátria, não tenho casa, não tenho refúgio para esta calamidade. Errei uma vez, quando abandonei a casa paterna, confiada nas palavras de um grego, que, com a ajuda do deus, sofrerá a nossa justiça. Porque não tornará a ver com vida, daqui por diante, os filhos que de mim teve, nem gerará nenhum da noiva recém casada, porque será forçoso que essa má tenha má sorte com os meus venenos. Ninguém me suponha fraca ou débil, nem sossegada; outro é o meu caráter: dura para os inimigos, benévola para os amigos. Porque de tais pessoas a vida é gloriosíssima.”

Medeia, Eurípedes

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?”

Bertolt Brecht

Laroiê, Exu. Io, Baco. Evoé, Dionísio.

É que, de fato, Zagreu voltou à vida. Atená, outros dizem que Deméter, salvou-lhe o coração que ainda palpitava. Engolindo-o, a princesa tebana Sêmele tornou-se grávida do segundo Dioniso. O mito possui muitas variantes, principalmente aquela segundo a qual fora Zeus quem engolira o coração do filho, antes de fecundar Sêmele. A respeito de Sêmele diga-se logo que se trata de uma avatar de uma Grande Mãe, que, decaída, porque substituída em função de grandes sincretismos operados no seio da religião grega, se tornouuma simples princesa tebana, irmã de Agave, Ino e Autônoe, todas filhas do legendário herói do ciclo tebano, Cadmo, e de Harmonia. A etimologia de Seme/lh (Seméle), Semelô, frígio ζemelw (dzemelô), postulada por P. Kretschmer, como oriunda do traco-frígio, com o significado de “terra”, é hoje normalmente aceita.” (Mitologia Grega, Junito Brandão, p. 120)

E um salve pra Semele também, pra gente sempre lembrar que a curiosidade fustiga e pode nos fulminar.

Sêmele, a mãe de Dioniso, caiu fulminada e pereceu carbonizada, porque fez que seu amante, Zeus, preso por um juramento, se lhe apresentasse em forma epifânica, isto é, em toda sua majestade de deus dos raios e dos trovões.”

(Mitologia Grega, Junito Brandão, p.63)

Máximo respeito a Tirésias, homem que foi mulher, mulher que voltou a ser homem.

HERA (cantando) Tirésias! Você que foi os dois, quem goza mais: o homem ou a mulher? TIRÉZIAS A mulher. Dez vezes mais.

HERA Tirésias, quem goza mais: A imortal ou a mortal? A esposa legítima ou a amante? Hera ou Semelle?

TIRÉZIAS Semelle goza mais.

HERA Você vê demais. Daqui pra frente, não vai enxergar mais nada.

(ESCURIDÃO.TIRÉSIAS ABRE OS OLHOS E NADA VÊ.)

ZEUS Mas, vai ver tudo. Será o Vedor.”

(As Bacantes, Teatro Oficina)

 

Laroiê! Evoé!

Io!

Io!

Io!

Iáhahaha!

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

Tal como num dia de festa: o Olho de Belize entrevistou o músico Pedro Iaco

“Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.” Rumi

Biografia: Pedro Iaco é cantor, compositor, violonista e artista plástico. Cursou História, Filosofia e Artes Visuais. Explora a voz como instrumento flutuando entre improvisação vocal e música acapella. Suas composições nascem na fronteira entre a canção e a música instrumental, aliadas ao violão de sete cordas. Apresentou-se com Guinga, Bobby McFerrin e Tommy Emmanuel.

Page no FB: https://www.facebook.com/pedroiacoficial/

  • Sobre a entrevista como forma

Cada cabeça, uma sentença.

Mas como entender as sentenças sem conhecer as cabeças? A invasão de território alheio, pela linguagem, um trabalho delicado, não de força bruta. E, mesmo assim, somos vítimas da linguagem, do que escapa, dos ruídos de comunicação. O abismo entre o que se fala e o que se entende.

E é por isso tudo, por essas lacunas da linguagem, que o Olho de Belize indaga não à teoria, nem a crítica literária, mas ao outro: o artista.

E aqui inauguramos mesmo as entrevistas no site, explicando o porquê dessa necessidade, ainda que limitada por caracteres e pelos vieses à que estamos submetidos, nós que usamos essa linguagem. Linguagem manca, bela, mas falha justamente no oculto, no silêncio, nas entrelinhas.

Um homem fala, sobretudo, em seu silêncio.

A mulher fala, sobretudo, em seu grito.

Aqui, o Olho de Belize, utilizando a entrevista indagará ao artista sobre a feitura, o processo, o nascimento, o olhar sobre a obra acabada ou em processo, o olhar sob e sobre o mundo, de onde vem a música ou se não vem. Sobre a emoção, o sentimento, a razão e os porquês.

A entrevista não é um mero clichê televisivo, ou pelo menos não se pretende esse formato “Marília Gabriela”, “Jô Soares”, haja visto nem utilizarmos imagens, mas apenas letras e, no caso do artista de hoje, as músicas.

Não elevaremos egos, não dilataremos vaidades, muito menos um culto à personalidade, ao artista-ídolo, essa ilusão de “popstar”… Essa não é a função do Olho de Belize, mas sim deslocar o olhar para aquele que faz.

A entrevista é uma tentativa de entendimento entre quem faz o papel de crítica e quem faz o papel de artista, do fazer música, do fazer poético, quem está envolvido nessa atividade, nesse trabalho, nesse amor.

Propõe-se um diálogo entre compreensões, visando também as vontades de quem é ouvido, respeitando as decisões de não-resposta, de silêncio e de discussão, além de respeitar também o método e a linguagem de cada um.

A crítica caminha sobre as pontes elevadiças que podem, ou não, se encontrar. É um risco dentre os vários desse exercício que, em nada, é cristalino. É o outro que ouviremos. Ainda que as palavras sejam conhecidas por todos nós, falantes de Língua Portuguesa, é notável como os significados disfarçam-se de sinônimos para atormentar os críticos e de antônimos para atormentar os amores.

Não é fácil um “seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não.”. Não é simples, nem binário.

A linguagem, veredas.

A entrevista, para o entrevistado, jamais saberei o que é.

Pode ser um questionário monótono; pode ser o sintoma de um juízo já construído, do qual o entrevistado, durante a entrevista se desvencilhará; pode ser uma intimação respondida ou não; pode ser uma oferta, um júbilo, um encontro, um diálogo fraterno.

Uma fonte de busca por um entendimento possível entre as duas partes e, depois, entre nós que perguntamos, aquele que responde e o outro que nos lerá, tomando partido ou não, discordando dos dois.

Enfim, mais veredas.

Uma entrevista, para o que pergunta, é um incômodo.

Questionar um outro é um incômodo.

Essa sabedoria em construir as perguntas de algum modo a não serem tão violentas.

Esse cuidado com as palavras, que perpassa todo o Projeto Literário Olho de Belize, leva a um trabalho hercúleo.

Afinal, não sabemos o que, ou mesmo se o entrevistado irá responder às perguntas. Perguntar é tatear.

Conseguir uma pergunta é lapidar um diamante que pode ser jogado fora, simplesmente porque o outro não sabe que assim a consideramos, a pergunta, a construção, a palavra.

Diálogo é jogo.

A pergunta mantém suspensa a interrogação que pesa e volta duplicada ao perguntador… quando não respondida. O silêncio é maior que tudo.

Fazer a entrevista tem muito de curiosidade e muito mais de afeto nesse querer conhecer. Mas também tem o certo mistério que paira entre a pergunta e a resposta.

Para o outro, não sei.

Mas repito: a grande tentativa nesse jogo é a de espiar esse laboratório, como se dá a atenção do artista pela arte, como se dá essa feitura, essa relação. Um espiar na relação do artista com sua produção.

E, além disso, tentar, sempre tentar, compreender os processos, analisar as criatividades, observar as imaginações, indagar, indagar, indagar.

  • Sobre disciplina e o exercício da crítica como uma atenção correta

Se para o trabalho do crítico é necessário uma disciplina, o ruminar que nos fala Schlegel, nas leituras, imersão em músicas, atenção plena às peças de teatro, ser todo olhos em uma exposição, tudo isso requer um grande esforço do corpo do crítico, principalmente habituados que estamos à uma vida desatenta, alienada, levada no piloto automático.

Essa disciplina está no tempo do olhar, do exercício do pensamento, nas atividades de escolha de corpus para relações intertextuais, fora o tempo de construção do texto escrito.

O texto escrito então cobra mais tempo: entre análises, leituras, buscas, outras leituras, intuições, caminhadas… não só de um texto longo, teórico, voltado para um público especializado, mas mais ainda na construção de um texto que seja prenhe de indagações, mas sem hermetismos desnecessários.

Sendo assim, o texto escrito é revisado. Revisado. Revisado. E então, publicado. Muitas vezes, ainda restando dúvidas e dissabores que, infelizmente, não serão corrigidos.

Nenhum autor é perfeito. Todo texto será imperfeito.

  • Aviso

Este texto pretende ser uma experiência sensorial entre audição e visão. Uma tentativa de sinestesia em grupo. Ouça as músicas enquanto lê, please.

https://www.youtube.com/watch?v=5V5tUOPjZh4

(…) para que eu

Aos que estiverem receptivos cante uma canção de aviso.” Hölderlin

 

Olho de Belize: A música é algo, quem, onde ou quando?

Pedro Iaco: A música é algo quando nada existe
A música é onde, quando o onde não há
A música é quando, quando falta um quando
A música é quem vem de longe e de perto sai daqui

Uma boca que flutua quem engole

Flutuação

Flutuação

https://www.youtube.com/watch?v=gqqZPxta4Vk

Olho de Belize: O que é o músico? O instrumento ou o mensageiro?

Pedro Iaco: Músico é música vertebrada.

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https://www.youtube.com/watch?v=SrcI0WwZDKU

Olho de Belize: Em que medida sua música se baseia na Natureza?

Pedro Iaco:

A natureza ecoa sons de seu ventre. Cada nota é uma filha da natureza.
Mas a natureza também é algo indecifrável:

não falemos tanto dela.

https://www.youtube.com/watch?v=1l_aIyEXgOA

Olho de Belize: A natureza ouve música? A música é natureza?

Pedro Iaco: Tudo se baseia em nada. Nada se baseia em tudo.

https://www.youtube.com/watch?v=pBZ1poGcFVI

“E da videira goteja a chuva

Que do céu trouxe alegria e resplandecentes

Ao sol silencioso se erguem as árvores do bosque:

Assim se erguem em propício tempo,

Aqueles que nenhum mestre por inteiro educa, mas aquela

Que é maravilhosa e imensa e de uma leveza envolvente,

A poderosa, a divinamente bela natureza.”

Tal como num dia de festa”, Hölderlin.

 

Olho de Belize: O silêncio também tem música?

Pedro Iaco: Acho que não. A menos que alguém ouça.
Mas estaria ouvindo a si mesmo.

 

Olho de Belize: Qual a relação entre as artes plásticas e a música, na sua vida?

Pedro Iaco: : A sinestesia acontece quando vejo cores em cada som que me toca. Desde pequeno a junção entre cor e som me transforma e sinto que a língua vira um lápis, e o lápis uma espécie de instrumento.
Sempre tentei encontrar a diferença entre som e cor. Ou o que os une. Já sonhei que o vermelho era si maior. O ré é esverdeado, o lá amarelado, o sol está entre verde e amarelo, assim como o Sol do Brasil.
Virei desenhista com 1 ano de idade. Cantor com 18. Mas na verdade uma coisa já desembocava na outra, e tudo se colocava em gestação. Eu sempre cantei escondido no quarto, desde pequeno. Imitava sons de orquestras com a voz enquanto meus pais ouviam música do lado de fora. No quarto em si, bilhões de desenhos, cores e grafites por todo o canto. As coisas se enveredam. Hoje sou eu correndo atrás do desenho, como naquela época corria atrás da voz. Esse sertão ainda vai virar mar!
Minha voz é um pincel.

 

Olho de Belize: Criar música é uma forma ou um desejo?

Pedro Iaco: : Esquisita essa pergunta. Por que criar música seria uma coisa ou outra? Eu tenho vontade é de não saber.

Olho de Belize: Qual seu compositor brasileiro favorito e por quê?

Pedro Iaco: João Bosco.

Porque o caboclo grita e ouve ao mesmo tempo. Porque a língua entorta e estica. Porque a percussão estrala e assopra. Por que a lágrima cai e volta.

https://www.youtube.com/watch?v=1_esrMHjLTQ

 

Olho de Belize: Qual seu compositor estrangeiro favorito e porquê? E qual obra dele/dela você mais admira?

Pedro Iaco: Hansi Kursch. And Then There Was Silence.

É o maior pintor vocal de todos os tempos. Essa música é a Capela Sistina.

https://www.youtube.com/watch?v=R5NOXuD4Vaw

Olho de Belize: O que é a voz e o que é a palavra na música?

Pedro Iaco: Não sei o que a voz é.

Sei o que é uma avó.

 

“… quando ela parece dormir em algumas épocas do ano

No céu ou entre as plantas ou os povos,

O rosto dos poetas também se entristece,

Parecem estar sós, porém sempre estão cheios de pressentimentos.

Pois, pressentindo, ela própria também repousa.”

Hölderlin

https://www.youtube.com/watch?v=bqblJbmX9mQ

Olho de Belize: Qual o som da natureza que mais te agrada?

Pedro Iaco: Essa pergunta me faz querer ouvir a natureza com mais força. Espero nunca conseguir chegar a uma resposta.

Olho de Belize: O Universo é feito de som ou silêncio?

Pedro Iaco: Um não é o oposto do outro. Som é um tipo de silêncio. Silêncio é um tipo de som. O universo é feito da gente e não é feito da gente.

(…) E eis que o dia nasce! Esperei e vi-o aproximar-se,

E para o que vi, sagrada seja a minha palavra.

Pois a própria Natureza, mais antiga do que as eras

E superior aos deuses do ocidente e do oriente,

Acordou agora com o fragor das armas,

E descendo das alturas do Éter até aos abismos

Segundo a firme lei antiga e gerado do sagrado caos,

O entusiasmo que tudo cria volta

A fazer-se sentir de modo novo.”

Hölderlin

Olho de Belize: A música é realmente o menos irritante dos ruídos?

Pedro Iaco: *silêncio*

https://www.youtube.com/watch?v=JTEFKFiXSx4

Olho de Belize: Ruído é o mesmo que barulho? E o que é som?

Pedro Iaco: Ruído é talvez o barulho envolto por mistério.

Um unsre Weisheit unbekümmert

Rauschen die Ströme doch, auch”

Hölderlin, “Voice of the people”

trad:

Unconcerned with our wisdom

The rivers still rush on, and yet”

Hölderlin

https://open.spotify.com/track/4oJXIz1kS3epr27xCYkXy5

Olho de Belize: Por fim, indique músicas para embalar este post.

Pedro Iaco: Benguele, The Eldar e Ava Waits.

 

(…) E tal como uma chama se acendeu nos olhos do homem

Que projectou coisas sublimes, assim agora

Lavra de novo um fogo nas almas dos poetas

Deflagrado pelos sinais, pelos feitos do mundo.”

Hölderlin

Agradeço ao Pedro Iaco por conceder a entrevista e por dividir com o Olho de Belize um pouco de sua música.

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

Projeto Literário Olho de Belize na VI Semana da Baixada – UFRRJ, Nova Iguaçu – PET e Leafro

Dia 3 de outubro, apresentei o Projeto Literário Olho de Belize na Sexta Semana da Baixada, que aconteceu na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Agora, apresento a vocês o resumo do que foi dito e, principalmente, o meu agradecimento a todos que confiam no Projeto, a todos que já passaram por ele e, mais ainda, ao Leafro, ao PET-Conexões Baixada e à nossa Grande Mãe, Baixada Fluminense.

Projeto Literário Olho de Belize

facebook.com/olhodebelize
olhodebelize.wordpress.com

Projeto Literário Olho de Belize: mapeamento cultural e crítica literária da Baixada Fluminense
Uma espécie de relato de experiência

Resumo: O Projeto Literário Olho de Belize foi criado em 2015 e é escrito pela estudante de Letras Mariana Belize. Tem por objetivo um mapeamento cultural dos territórios, principalmente da Baixada Fluminense, utilizando a crítica literária e todo seu aparato teórico para um olhar mais aprofundado das obras e artistas, além dos eventos produzidos no território.
Além disso, os artistas são tomados em suas devidas áreas, como literatura e música, por exemplo, e analisados criticamente através de leituras, releituras e diálogos com teorias de suas próprias áreas, sem pretensão meramente acadêmica, mas sobretudo de colocar este artista como foco em um estudo, ainda que breve.
Percebendo a lacuna de estudos críticos e, ao mesmo tempo, um jornalismo que desse conta criticamente desses artistas numa análise metódica e polifônica, o Olho de Belize começou esse trabalho, ainda timidamente, falando sobre o ator e cantor Átila Bezerra, de São João de Meriti. Um texto ainda sem o viés crítico, mas que é perpassado pela experiência do espetáculo e construído por alguém do próprio território, que sabe bem a odisseia que é para ser um artista na Baixada e da Baixada.
Pensando nisso, o projeto foi criado. É literário, tanto por conta da formação de quem escreve ser em Literatura, mas principalmente, pelo cuidado e atenção dada à linguagem como construção, interrogação e um pensar sobre questões estéticas, analíticas e críticas, não apenas sobre questões do território, mas sobre a posição do artista, seu trabalho em si, pelos próprios termos, sobre o cuidado ao escrever e sobre um desenvolvimento do próprio olhar como crítico para observar detalhes e microexpressões nas obras de arte produzidas na Baixada.
Começou com uma pequena página no Facebook, em 2015, até que foi transformado em site, em 2017, para abarcar tags e dar mais visibilidade ao projeto e, consequentemente, aos artistas.
Dentro do site também existem textos que debatem conceitos de literatura, teoria e crítica, além de análises de artistas de outros eixos, territórios e áreas, além de entrevistas com escritores, músicos e poetas. E também relatos sobre eventos e entrevistas com produtores da Baixada, como é o caso de Carla Cavallieri, professora e historiadora que produz a Feira Ubuntu.
Tudo isso começou para a Baixada Fluminense. E continuará sempre por ela. É daqui que falo e a partir daqui que nasceu o projeto, foi esta terra que me deu o dom e o olho.
O projeto é uma forma de agradecimento e sempre uma alegria de escrever.
Salve, BF!

Mariana Belize

Lista de artistas da Baixada Fluminense que já passaram pelo Olho

1. Leonardo Rocha Dos Santos, poeta. Entrevista e análise crítica da obra.
2. Slow Da BF, rapper, poeta, etc/ análise crítica de letras/ entrevista
3. evento Palco Coelhão – cidade/território/lugar, Banda Gente, Hollywood Mantra, João Azevedo/ relato sobre evento/ análise sobre as bandas/ texto crítico sobre território
4. Alan Salgueiro, poeta/ análise crítica da obra
5. Robson Gabiru, cantor e músico
6. Thaíssa Zuchelli, professora/ entrevista
7. Carla Cavallieri, professora e historiadora/ relato sobre evento e entrevista
8. Dida Nascimento, artista plástico, cantor, músico, designer, etc/ relato sobre show/ análise sobre pintura
9. Ivone Landim, arteterapeuta, professora, poeta e escritora/ relato sobre exposição/trabalho teórico sobre sua obra com gravatas/ texto teórico sobre seu livro
10. Mário Coutinho, escultor/ relato de exposição
11. Lisa Castro, rapper e poeta/ trabalho de comparação entre sua poesia e a escritora Conceição Evaristo
12. Fernanda Morais e Beto Rocha, cantores/ relato do show de lançamento do disco
13. Átila Bezerra, cantor e ator / relato sobre show

Um labirinto de repetições e apneia: o Olho de Belize assistiu “O princípio de Arquimedes”

SINOPSE:

A peça “O princípio de Arquimedes” gira em torno dos acontecimentos após um gesto de carinho de um professor de natação infantil, em seu aluno, o que gera uma imensa onda de medos, preconceitos e pré-julgamentos.

No espaço asséptico e clorado do vestiário de uma escolinha de natação, quatro personagens – Ana, diretora da escolinha (Helena Varvaki); Rubens, o professor acusado (Cirillo Luna); Heitor, o outro professor (Gustavo Wabner) e David, pai do aluno Daniel (Sávio Moll) – discutem sobre o significado e as consequências de um beijo que um professor dá em um dos seus alunos, fazendo vir à tona medos, preconceitos e fantasmas íntimos e coletivos, levando o espectador a confrontar-se com seu próprio julgamento, diante daquela situação e a tomar partido sobre que modelo social e educativo desejamos.

Pode um gesto de carinho de professor, em um de seus alunos, acender todos os alarmes de segurança da sociedade? Quantas versões e pontos de vista compõem a verdade? Devemos nos apoiar na primeira impressão, para julgar e condenar alguém? Um comentário numa rede social pode ser determinante para incriminar alguém? Essas e outras respostas o espectador terá que buscar e encontrar em “O Princípio de Arquimedes”.

RESENHA CRÍTICA

A repetição como didática

Sob uma infraestrutura de repetição perversa, arrasta-se a sociedade ocidental. Oscilando entre nascimento e morte, estamos fadados, como sina, a repetir erros e a receber como herança o medo.

A peça “O princípio de Arquimedes” ao apresentar-se fazendo desta repetição a estrutura que desenrola a trama faz com que a infraestrutura social seja exposta e exercita o poder do teatro de incomodar os acomodados e tornar alerta os desavisados.

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O fenômeno da repetição traz à tona, ao consciente, uma lembrança longíqua de tempos cíclicos e nossas ruínas circulares, sendo assim toca o espectador num incômodo que cutuca justamente na obviedade e no fetiche de nosso século: o delírio da busca pela novidade, além de enfiar o dedo na ferida ocidental que é a relação esquizofrênica com o próprio tempo. Fora as questões entre privacidade e segurança. Processo e acusação, vingança e Direito.

O mais frustrante para os desavisados: embora existam novas informações, a forma labiríntica não se desfaz. Pelo contrário, iluminar as histórias pessoais de cada personagem só confunde e traz maior desconforto ao espectador. Além de que, aquele que julga, normalmente não ouve o que é dito, mas o que deseja porque já tem o juízo feito antes mesmo de qualquer palavra alheia e utiliza o dito apenas como correspondência ao veredicto.

Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.”

Beckett

Ao apresentar cenários que se desdobram à meia luz, com as aparentes sombras dos contrarregras, a peça não deseja uma imersão do espectador. Ela se quer aberta, expondo perspectivas que mudam em cenas que se modificam em alguns diálogos. Porém, esses diálogos tornam cada vez mais claustrofóbicas nossas próprias percepções.

A peça submerge o espectador em si mesmo, mas de uma maneira tão genuína, que percebemos as correntes às quais estamos atados. Estamos presos em reviravoltas que apenas se desenrolarão em nossos padrões internos, estaremos imersos num tempo cíclico, que vira-e-mexe, uma fita rebobinada várias e várias vezes de um ponto a outro.

A memória é uma ilha de edição.”, Waly Salomão

Assim como num espelho, encaramos como nossas perspectivas e padrões de moral, pensamento, ações e comportamento são extremamente frágeis. Ao conhecermos uma história, deixamos de ouvir outras centenas. Além disso, quando nos aprofundamos no outro, nas histórias, nas experiências, exercitando a empatia, temos um critério mais fluido do que nós mesmos faríamos em determinadas situações.

Preferimos viver em um mundo onde ainda seja permitido um gesto de ternura para com uma criança, mesmo que isso abra espaços para abusos, ou preferimos uma sociedade cuja segurança blindada nos força ao total controle dos indivíduos visando prevenir qualquer risco?” (Laurent Gallardo)

A sociedade ocidental é formada por seres que não ouvem. Não ouvem a si mesmos nem a outrem. E, nesse não-ouvir, essa negação torna a realidade única e imóvel. O inferno não é mais o outro, mas a nossa surdez calculada e a impenetrabilidade às experiências alheias.

Na peça, não importa se Rubens é culpado ou inocente. Essa é, definitivamente, a camada mais superficial das perspectivas possíveis sob as questões profundas que perpassam a obra.

(…) o neofascismo é um consenso mundial para a segurança, para a gestão de uma paz não menos terrível, com a organização combinada de todos os pequenos medos, de todas as pequenas angústias que fazem de nós microfascistas, encarregados de afogar cada coisa, cada rosto, cada discurso um pouco mais forte, na sua rua (…)” (Deleuze)

Ao buscar uma síntese orgânica entre luz, cenário e, é claro, das atuações, a peça impacta muito mais do que se estivesse preocupada com uma estrutura clássica de início-meio-e-fim.

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Angústia como sintoma

Nós estamos apavorados.”

Ana

As atuações na peça seguem, de início, a ordem das posições profissionais e pessoais dos personagens, além de nos apresentar bem devagar o caos que vai tomando conta dos personagens. Mas seu ápice não aparece em cena. Apenas em Rubens enxergamos um vislumbre do horror.

É Rubens que anuncia onde aquilo vai dar.

Já os outros…

O sonho de Ana com as crianças afogadas pode representar, simbolicamente, o desenrolar dos acontecimentos. Além de que, também simbolicamente também, a água representa as emoções humanas. Se começamos a peça no clima insosso de normalidade, rotina entre piadas de mal gosto e rebeldias disfuncionais, inclusive nas palavras preconceituosas de Rubens, referindo-se às mulheres e mães de alunos dele, depois, cada uma de suas palavras será usada contra ele mesmo. E, por ironia, justamente por quem riu junto.

O machismo, que é inerente ao homem, em Rubens é declarado, gritado, exposto, inclusive no uso do corpo nu como forma de violentar a diretora Ana. Rubens é um homem retrato de seu gênero.

Heitor é discreto, mas participante intrínseco em cada uma das falhas de Rubens. Ao contrastá-lo com Rubens, nossa primeira impressão é a de um homem íntegro, ou segundo Rubens, um “mala”. Rubens captou bem as questões de Heitor. Ele não é um “mala” por ser um homem correto. Ele é um “mala” porque finge bem aquilo que não é e fiscaliza todos aqueles que, diferentes dele, são autênticos. Pro bem ou pro mal.

Rubens é autêntico. Ainda que seja um machista. Ainda que seja “ótimo professor e profissional de alto nível”.

Ainda que seja.

Mas a autenticidade, na peça, não é a essência de Rubens. É também uma máscara.

A peça é fria, inclusive nos momento de maior tensão entre os personagens. Esse fato, longe de ser ruim, mostra a que ponto do abismo estamos. Na água, quanto mais profundo, mais frio.

angústia (lat. angustia: estreiteza, aperto, restrição) I. Mal-estar provocado por um sentimento de opressão. seja de inquietude relativa a um futuro incerto, à iminência de um perigo indeterminado mas ameaçador, ao medo da morte e às incertezas de um presente ambíguo, seja de inquietude sem objeto claramente definido ou determinado, mas freqüentemente acompanhada de alterações fisiológicas.

Ana, personagem vivida pela atriz convidada Helena Varvaki, reflete nos gestos iniciais uma aparência paranoica e controladora sobre o comportamento dos professores no local de trabalho sob sua direção. Rubens aparenta “o cara legal”, “rebelde”, que desobedece as regras apenas por diversão. Heitor encanta pela ponderação e apego às regras.

“A angústia se distingue do medo, porque o medo é medo dos seres do mundo, enquanto a angústia é angústia diante de mim.” (Sartre)

Conforme a tensão externa consome e incinera as aparências, destrói também as máscaras dos personagens, confinando-os em si mesmos, moendo suas estruturas e fazendo com que eles mostrem, não a verdade absoluta, mas as próprias verdades. O minotauro do labirinto de cada um deles observa os espectadores, atraindo para a superfície nossos abismos, os fantasmas, as narrativas de dor e perda, os preconceitos, toda sombra que empurramos para baixo e para o fundo.

Empuxo.

O homem é o desafio do mundo. E o mundo é, para o homem, o supremo desafio. Situando-se fora das modas filosóficas, acredita no advento de um pensamento “questionador, planetário e mundialmente errante”. Denuncia os traços depressivos, esquizofrênicos, histéricos e obsessionais de nossa civilização e de nossa cultura: “perdemos o segredo da saúde sem termos descoberto o da loucura”. O homem de hoje vive no medo do mundo. Para não ter que afrontá-lo, busca soluções fáceis. (Kostas Axelos)

O princípio de Arquimedes é visível nesse ponto: ao empurrar para o fundo, toda carga, todo lixo, toda miséria, o ser humano está fadado a uma luta infinita.

Como uma mola, como um empuxo, tudo aquilo que você acredita se livrar, uma hora volta.

Sempre volta.

Por sorte, ainda existe uma arte de viver em sociedade, não é mesmo?” (trecho da peça “O Deus da carnificina” de Yasmina Rezza)

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O processo e o julgamento

“Vocês têm mais medo ao fazer seu julgamento do que eu ao tomar consciência dele”. Giordano Bruno

Rubens é um personagem antitético. Começamos rindo de seu posicionamento diante do profissionalismo e respeito pelas regras que Heitor preza. Dentre piadas machistas, a utilização do corpo como afronta que, dentro da lógica de Rubens há justificativas, mas na verdade só demonstra o profundo desprezo pela figura feminina que Ana representa. Ao desconhecer a história de Ana e julgá-la como “amarga”, Rubens demonstra também seu caráter de julgamento baseado em preconceitos de gênero.

Assim como demonstra ao dizer o que faria com a mãe de uma aluna.

O que você acha que pensariam se nos encontrassem assim?”, Rubens

Rubens é o típico machão que, frágil e inseguro, tem a necessidade de auto-afirmar-se a todo momento quando em companhia de outros homens. Essa obsessão pela auto-afirmação, que é masculina por construção social, e não uma essência, é um sintoma de uma insegurança profunda que a sociedade patriarcal coloca como base da personalidade masculina. Assim como não demonstrar emoções, afeto e ternura.

A base da sociedade patriarcal para os homens é o controle.

Alguém devia ter caluniado Josef K., visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal.” (O processo, Kafka)

Como K. no romance de Kafka “O processo”, Rubens é um personagem acusado e, posteriormente, ficará preso na escola de natação com Ana e Heitor. K. não sabe do que é acusado, Rubens sabe suas acusações, mas nega.

O tribunal de Rubens é o facebook. K. nem chega a descobrir seu crime, mas morre. Rubens e K. são duas personagens que questionarão nossos julgamentos e, principalmente, nossa confiança na capacidade humana de fazer justiça.

Que espécie de gente era aquela? De que falavam? A que repartição do Estado pertenciam? K. vivia num Estado que assentava no Direito. A paz reinava por todo o lado! Todas as leis estavam em vigor; quem eram, pois, os intrusos que ousavam cair-lhe em cima no seu próprio domicílio?” (O processo, Kafka)

K., no fim do romance é morto na prisão por dois homens que acreditava serem atores, ou seja, jamais imaginaria que poderia ser morto. E não descobre qual sua acusação, ainda que todos a sua volta já o considerem culpado.

Rubens também está a ponto de receber uma punição pelo que acreditam que ele tenha feito, e não por quaisquer provas que o culpabilizem.

Suas ações, palavras, gestos, erros – tudo serve como veredicto, tanto para os pais e alunos, quanto para Ana e Heitor que, ao serem interpelados por um Rubens já desesperado, não conseguem responder se acreditam ou não em sua inocência.

“― Não ― replicou o padre ― mas receio que acabe mal. Consideram-te culpado. Possivelmente, o teu processo nem passará dum tribunal baixo. Pelo menos por agora têm a tua culpa como provada.

Mas eu não sou culpado! ― retorquiu K. ― É um erro. Como pode, em geral, um homem ser culpado? Aqui todos nós somos homens, uns como os outros.

Tens razão ― volveu o padre ―, mas é assim que os culpados costumam falar.” (O processo, Kafka)

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Another brick on the wall

Ao escrever, como é difícil escrever!, é um exercício a toda letra manter alguma possibilidade de estabelecer diálogo com o mais intrincado da peça. Ela testa cada um de nossos nervos, além de nossa memória e não a capacidade de julgar, mas justamente um exercício de suspensão de julgamento. Um acompanhar dos acontecimentos como um espelho límpido das possibilidades humanas de exercer sua crueldade.

Julgar não é natural, mas está naturalizado em cada ação e pensamento que temos, sendo a partir daí que a peça começa a desestabilizar o espectador. Espectador esse que, normalmente, buscará o caminho mais fácil e, a partir da primeira cena, declarará para si mesmo se Rubens é culpado ou inocente.

Essa dualidade que é impressa na sociedade se desfaz e cada uma de nossas razões é jogada por terra com o crescente pânico que toma conta do palco.

E não é um pânico externalizado. É um pânico real, interno, claustrofóbico, inscrito na linguagem do corpo, do ir e vir de Ana, por exemplo, pelo palco, um caminhar frenético de quem quer sair, mas não sabe o que faria se saísse, ao mesmo tempo que teme pelo próprio patrimônio e nome.

Cutucando as águas de nossas emoções, que esquecemos que existem muita vezes, o trabalho excepcional dos atores se intromete, sacode nossas estruturas, afoga nossos instintos, fazendo-nos desconfiar da razão, entrar em desespero, numa melancolia aquática das lágrimas de Ana, na raiva tempestuosa de Rubens, e posterior desespero, nas águas brandas, do início ao fim, de Heitor.

Menos do pai.

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O pai é seco. Carregando uma bolsa marrom, ele é a terra, mas uma terra que não é porto seguro, nem segurança. É uma terra infértil, uma areia movediça que enreda e afoga. O pai diz, mas não faz. Inflama, mas não joga a pedra. Segue as regras que lhe convém, agindo na surdina, protegido por uma tela, um perfil.

O pai que invade a escola, invade a privacidade do professor, desejando ardentemente saber sua orientação sexual, mas é incapaz de acompanhar a vida dos próprios filhos. Pai fake.

“O princípio de Arquimedes” é uma peça enigmática e que, como a Esfinge, devorará a todos nós. Não há resposta, estamos sem lãs no labirinto de Josep Maria Miró.

Nós estamos apavorados também, Ana.

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

Ficha técnica

Autor: Josep Maria Miró

Tradução e Direção: Daniel Dias da Silva

Elenco: Helena Varvaki (Ana) – atriz convidada, Cirillo Luna (Rubens), Gustavo Wabner (Heitor) e Sávio Moll (David, pai de Daniel)

Cenografia: Cláudio Bittencourt

Figurinos: Victor Guedes

Iluminação: Walace Furtado e Vilmar Olos

Preparação Corporal: Sueli Guerra

Design Gráfico: Gamba Júnior

Assistente de Figurino: Camila Scorcelli

Cenotécnico: André Salles

Fotos e Imagens: Zero8Onze (Aguinaldo Flor / Fernando Cunha Jr.)

Assessoria de Imprensa: Mônica Riani

Estagiário de Direção e Produção: Daniel Mello

Produção Executiva: Letícia Reis

Direção de Produção: Daniel Dias da Silva e Gustavo Falcão

Um Espetáculo da Lunática Companhia de Teatro e da Territórios Produções Artísticas Ltda.

Realização: SESC

O Olho de Belize leu: “Tempo e eternidade”, Murilo Mendes

“De fato, cada um será salgado ao fogo.” (Marcos 9, 49)

“De noite Exu entrou na casa de Oxalá.

Ele trazia uma cabaça cheia de sal

e a amarrou nas costas de Oxalá.” (Mitologia dos Orixás, p. 512)

“Sinto-me compelido ao trabalho literário: (…) pelo meu dom de assimilar e fundir elementos díspares; (…) pelo meu apoio ao ecumenismo, e não somente o religioso; (…) porque não separo Apolo de Dionísio; (…) pela notícia de que Deus, diante da burrice e crueldade soltas, demitiu-se do cargo de administrador dos negócios do homem; (…) pela decisão de Casimir Malevich, ao pintar um quadrado branco em campo branco” (Murilo Mendes por Murilo Mendes em “Obras completas”, p.45)

Murilo Mendes (1901-1975), poeta e escritor considerado uma voz solitária na tangente da época modernista. Nele se fundirão temas e estilos, além de se desenrolarem poéticas que se modificam a cada obra. A obra comentada será “Tempo e eternidade”, de 1934, utilizando-se como viés a mitologia dos orixás e a bíblia, antigo e novo testamentos. Para referências mais completas, verifique a bibliografia no final do texto.

De dentro destes universos, colheremos rastros de cometas.

“Muito me ajudaste

e eu bendigo teus atos por toda eternidade.

Sempre serás reconhecido, Exu,

será louvado sempre

antes do começo de qualquer empreitada.” (Prandi, p. 45)

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“E disse: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.” (Jó, 1, 21)

“Todas as tuas obras dão testemunho de ti,

Mas ninguém sabe o que queres de nós.” (Mendes, Novíssimo Job)

“Ninguém jamais viu a Deus.” (João, 1, 18)

“Olorum viu isso tudo e, descontente,

mandou Exu recolher os mil pedaços de Oxalá.

Exu recolheu de Obatalá todos os pedaços que encontrou,

mas não pôde encontrar todas as partes.”

(Prandi, p. 514)

A visão de Deus que o poeta deseja é justamente por desejar que não terá. Deus encontra aquele que não está buscando.

“Pensar Deus, amar Deus, não é mais do que uma outra maneira de pensar o mundo.”

(Simone Weil)

……………………………………………………………………………….

“Ou porque não me fizeste morrer no ventre de minha mãe?” (Mendes, Novíssimo Job)

“Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!” (Jó 3, 3)

“Se falo das coisas da terra

e não credes,

como creríeis se vos falasse

das coisas do céu?” (Jo, 3, 12)

“Os homens, imortais como eram,

pensavam em si mesmos como deuses.

Não precisavam de outros deuses.”

(Prandi, p.306)

……………………………………………………………..

“Não me liguei ao mundo, nem venci o mundo.” (Mendes, p. 245)

“ Chama agora: há alguém que te responda? E para qual dos santos te virarás?” (Jó, 5,1)

“Pois Deus não enviou o Filho

ao mundo para julgar o mundo” (Jo 3, 17)

“Quanto mais comia, mais fome Exu sentia.” (Prandi, p. 45)

………………………………………………………………………

“Prefiro o inferno definitivo à dúvida provisória.” (Mendes, p. 245)

“Porventura não era o temor de Deus a tua confiança, e a tua esperança a sinceridade dos teus caminhos?” (Jó 4, 6)

“Furioso, Orunmilá compreendeu que Exu não pararia

e acabaria por comer até mesmo o Céu.” (Prandi, p.45)

“Mas ele lhes disse: Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis.” (Jo, 4, 32)

…………………………………………………………………………..

“Manda a tempestade de fogo a destruir minha existência.” (Mendes, p. 246)

“Então sua mulher lhe disse: Ainda retens a sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre.” (Jó, 2, 9)

“Eu nada posso fazer por mim mesmo.” (Jo, 5, 30)

“Mesmo depois de morto,

podia-se sentir sua presença devoradora,

sua fome sem tamanho.

(…)

Os homens não tinham mais o que comer

e todos os habitantes da aldeia adoeceram

e de fome, um a um, foram morrendo.” (Prandi, p. 46)

…………………………………………………………………………

“Meu novo olhar é o de quem adivinha na criança

O futuro doente, o louco, a órfã, a perdida.” (Mendes, p.247)

“Então o Senhor disse a Satanaz: Donde vens?

E Satanaz respondeu ao Senhor: De rodear a terra, e passear por ela.” (Jó, 1,7)

“Para um, o desconhecido usava um boné branco,

para o outro, um boné vermelho.

Começaram a discutir sobre a cor do barrete.

Branco.

Vermelho.

Branco.

Vermelho.

Terminaram brigando a golpes de enxada,

mataram-se mutuamente.

Exu cantava e dançava.

Exu estava vingado.” (Prandi, p.49)

“Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como desejaria que já estivesse aceso!

(…) Pensais que vim trazer paz na terra? Não, eu vos digo, mas a divisão.” (Lucas, 12, 45 e 51)

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“Angústia e escuridão dominam o homem

Porque tu ainda não deste a volta ao mundo.” (Mendes, p. 248)

“Sabia Oiá que a morte

não suporta ver-se frente a frente,

tal sua feiura.”

(Prandi, p. 257)

“Terra escuríssima, como a mesma escuridão, terra da sombra da morte e sem ordem alguma, e onde a luz é como a escuridão.” (Jó, 10, 22)

“Oiá pronunciou algumas palavras

e cruzou seus braços em direção ao céu.

(…)

Um raio partiu as grades da prisão e Xangô foi libertado.” (Prandi, p.306)

“Tu renovas contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira; reveses e combate estão comigo.” (Jó, 10, 17)

“Há noites intransponíveis.

Há dias em que pára nosso movimento em Deus.”

(Mendes, p. 252)

“Porque eu digo a verdade,

não credes em mim.” (Jo, 8, 45)

“Orunmilá respondeu:

‘Porque com a língua os homens se vendem e se perdem.

Com a língua se caluniam as pessoas,

se destrói a boa reputação

e se cometem as mais repudiáveis vilezas.’.”

(Prandi, p.467)

……………………………………………………………………………………..

“(…) Os homens te dividem em mil imagens falsas:

Mesmo assim, mutilado, esquartejado, sujo,

Dás a todos o único, o insubstituível consolo.

(…)

Diariamente o mundo te persegue e te mata,

Diariamente ressuscitas e atrais o mundo a ti.”

(Mendes, p. 252)

“Agora, porém, eles têm visto

e, mesmo assim,

têm odiado tanto a mim

como a meu Pai.” (Jo, 15, 24)

“Os outros que lutem para possuir o mundo.

Quanto a mim, quero te ver face a face.” (Mendes, p. 254)

“Porque a impiedade lavra como um fogo, ela devora as sarças e os espinheiros, sim ela se ateará no emaranhado da floresta, e subirão ao alto espessas nuvens de fumo. (…) Se cortar da banda direita, ainda terá fome, e se comer da banda esquerda ainda não se fartará; cada um comerá a carne de seu braço.” (Isaías, 9, 18 e 20)

“Um sacerdote da aldeia consultou o oráculo de Ifá.

(…)

Exu, mesmo em espírito, estava pedindo sua atenção.

Era preciso aplacar a fome de Exu.

Exu queria comer.

Orunmilá obedeceu ao oráculo e ordenou:

‘Doravante, para que Exu não provoque mais catástrofes,

sempre que fizerem oferendas aos orixás

deverão em primeiro lugar servir comida a ele.’”

(Prandi, p.46)

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“Há tardes em que qualquer vagabunda

Parece mais alta do que a própria musa.” (Mendes, p. 252)

“Ora, quanto às coisas que me escrevestes, bom seria que o homem não tocasse em mulher.” (Paulo aoc Coríntios, 7, 7)

“Um dia, estando sozinha em casa,

Iansã procurou em cada quarto, até que encontrou sua pele,

Ela vestiu a pele e esperou que as mulheres retornassem.

E então saiu bufando, dando chifradas em todas, abrindo-lhes a barriga.

Somente seus nove filhos foram poupados.”

(Prandi, p. 298-299)

“E de fato, onde se juntam o rio Oxum e o rio Obá,

a correnteza é uma feroz tormenta

de águas que disputam o mesmo leito.”

(Prandi, p. 316)

“Disse também Orunmilá:

‘Mas quando os seres humanos morrem,

a cabeça nunca é separada do corpo para o enterro.

Não. Lá está o Orí. Lá vai ele junto com o devoto morto.

Somente o orí pode acompanhar para sempre seu devoto

a qualquer lugar.’

Falou ainda Orunmilá:

‘Pois o Orí é o único que pode acompanhar seu devoto

numa viagem sem volta além dos mares.”

(Prandi, p. 481)

“Todo homem que ora ou profetiza tendo algo sobre a cabeça desonra sua cabeça. E toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra sua cabeça, pois é semelhante a tê-la raspada. (…) Pois o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem.”

(Paulo em Coríntios, 11, 4 e 8)

“Foi então que Nanã Burucu veio em seu socorro.

Apontou para o fundo do lago com seu ibiri, seu cetro e arma,

e de lá retirou uma porção de lama.

Nanã deu a porção de lama a Oxalá,

o barro do fundo da lagoa onde morava ela,

a lama sob as águas, que é Nanã.”

(Prandi, p.196)

“Mas tem um dia que o homem morre

e seu corpo tem que retornar à terra,

voltar à natureza de Nanã Burucu.”

(Prandi, p.197)

“Nanã o levantou bem alto no céu

para que todos admirassem sua beleza.

(…)

E lá ficou Oxumarê, à vista de todos.”

(Prandi, p.197)

“Os homens temiam a justiça de Nanã,

pois se dizia que Nanã só castigava os homens

e premiava as mulheres.”

(Prandi, p.198)

“Oxalá observou tudo.

Um dia, quando Nanã se ausentou de casa,

Oxalá vestiu-se de mulher e foi ter com os eguns.”

(Prandi, p.199)

“Que os sacrifícios feitos a ela

fossem feitos sem a faca,

sem precisar da licença de Ogum.”

(Prandi, p.201)

“Nanã deu a matéria no começo

mas quer de volta no final tudo o que é seu.

(Prandi, p.197)

“Descerra os véus da Criação, mostra a face de Cristo.”

(Mendes, p.262)

“Obata lá entregou a Xangô o novo colar vermelho e branco.

Agora todos saberiam que aquele era seu filho.”

(Prandi, p.262)

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“Deus diz: Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos.” (Jer. 17:10)

“Sede meus imitadores, assim como eu sou do Cristo.” (Cor, 11, 1)

“Poeta, cobre-te de cinzas, volta à inocência.” (Mendes, p.262)

“Por isso, diz-se de Sapatá:

‘Ele faz festa ao pai que está dentro de casa

e enquanto isso mata o filho que está na entrada.” (Prandi, p.215)

“Todos os que foram tocados pelo bastão de Sapatá adoeceram.

Seus olhos ficaram vermelhos e bexigas espocaram em sua pele.”

(Prandi, p.214)

“Somente Sapatá, que detinha o segredo da varíola, não dançou.

Tinha uma perna de madeira e movia-se com a ajuda de uma bengala.

Então ele sentou-se quieto enquanto as festividades prosseguiam.

(…)

Mas Sapatá não quis dançar, preferia estar sozinho,

pois se envergonhava de sua perna de pau.”

(Prandi, p.213)

“De cidade em cidade, de vila em vila,

ele ia oferecendo seus serviços,

procurando emprego.

Mas Omulu não conseguia nada.

Ninguém lhe dava o que fazer, ninguém o empregava.

E ele teve que pedir esmola,

mas ao menino ninguém dava nada,

nem do que comer, nem do que beber.

Tinha um cachorro que o acompanhava e só.”

(Prandi, p.205)

“Obaluaê e Iansã Igbalé tornaram-se grandes amigos

e reinaram juntos sobre o mundo dos espíritos,

partilhando o poder único de abrir e interromper

as demandas dos mortos sobre os homens.”

(Prandi, p.207)

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“Cairão fábricas, palácios e choupanas,

Cairão museus, teatros, igrejas, bibliotecas,

Os poetas e os falsos salvadores do mundo, chefes e empregados;

Mas um anjo de asas unindo o universo de ponta a ponta

Levará tuas palavras até o fim do tempo e por toda a eternidade.” (Mendes, p. 261)

“O monstro foi aprisionado e, com ele, o falso profeta, o que fazia prodígios diante dele, por intermédio dos quais seduzia os que tinham recebido a marca do monstro e os que adoravam sua imagem. Os dois foram lançados vivos no lago ardente de fogo e enxofre.”

(Apocalipse 19, 20)

“E o Senhor disse a Caim: ‘Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante?” (Gênesis 4, 6)

“E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus os criou; macho e fêmea os criou.” (Gênesis 1, 27)

“Samaria virá a ser deserta porque se rebelou contra o seu Deus, cairão à espada, seus filhos serão despedaçados, e as suas mulheres grávidas serão abertas pelo meio.” (Oséias, 13, 16)

“Disse-lhe Jesus: ‘Crê em mim, mulher.” (Jo 4, 23)

“E Oxum Apará remoeu amarga inveja,

já não era a mais bonita entre as mulheres.

Vingou-se.

Um dia foi à casa de Egungun e lhe roubou o espelho,

o espelho que só mostra a morte (…)

Oiá olhou no espelho e se desesperou. (…)

Oiá enlouqueceu.

Oiá deixou este mundo.

(…)

Obatalá condenou Apará a se vestir para sempre

com as cores usadas por Oiá,

levando nas joias e nas armas de guerreira

o mesmo metal empregado pela irmã.”

(Prandi, p.325)

“Oxum estava pasma. Surpresa. Enfurecida.

O ardil do tempo fora mais do que funesto.

O tempo se esgotara e Oxum não percebera,

todo o tempo apurando sua beleza.

Todo o tempo banhando seus cabelos,

polindo seu punhal, lavando seus indés.

Oxum não podia deixar a aldeia saber desse segredo.

Que Oxum envelhecera. Oxum Ijimu. Velha e feia.”

(Prandi, p.329)

“Ficou pobre por amor a Xangô.

Restou a Oxum apenas um vestido branco.

Que era tudo o que tinha para vestir.”

(Prandi, p. 336)

“Depois de três dias, o umbigo de Oxum começou a sangrar.

Nem os cuidados extremosos de Iemanjá resolveram.

Nada estancava o sangramento.”

(Prandi, p.340)

“Oxum falava que todos lhe diziam

que ela nunca conseguiria nada de Oxalá,

porque ele era um egoísta sem igual.

E daí pra pior.

As palavras de Oxum abalaram a cidade.

Oxum passava o dia a difamar Oxalá,

falava e falava sem parar.”

(Prandi, p.344)

“Em sua volta Nanã foi surpreendida com a afirmação de Oxalá,

que ele também mandaria nos eguns.”

(Prandi, p.199)

“Na semana seguinte, Obá preparou a mesma comida,

cortou uma de suas orelhas e pôs para cozinhar.

Xangô, ao ver a orelha no prato, sentiu engulhos.

Enojado, jogou tudo no chão e quis bater na esposa, que chorava.”

(Prandi, p.315)

“Cada odu conhece um segredo diferente.”

(Prandi, p.444)

“Exu não perguntava.

Exu observava.

Exu prestava atenção.

Exu aprendeu tudo.”

(Prandi, p.40)

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O poeta trabalha na encruzilhada das palavras e suas entrelinhas são misteriosas como os segredos do Destino. Murilo Mendes arrisca-se a desvendar Tempo, encontrando apenas a ferocidade e crueldade humanas escritas nas linhas obscuras da História, na tentativa de absorver a eternidade do que é Sacro, Profundo e Indevassável. O humano é cego ao divino.

Enquanto isso, Exu, que vive e reina fora, dentro e além do tempo para Tempo, sendo eterno e igualando um segundo e um milênio, ensina àquele que o escuta atentamente que não há eternidade.

Há apenas um enorme e festivo Agora.

Uma ágora na qual desliza as pernadas de Hermes.

Laroiê, Exu. Exu é Mojubá.

Zara, Tempo.

Uma grande reverência a todos os orixás citados

e Evoé, poeta. Evoé.

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

 

Bibliografia:

Mitologia dos Orixás, Reginaldo Prandi

uma bíblia de João Ferreira de Almeida

um novo testamento, lançamento da Editora Paulinas

Poesia Completa e Prosa, Vol 1, Murilo Mendes

O poeta e a Angústia: o Olho de Belize leu “O silêncio oculto das palavras”, de Leonardo Rocha

Nós todos estamos na beira da agonia”

Murilo Mendes

Indo e vindo num mar seco de novidades

Não vem nada que compense esse passado

Morrendo aos poucos na paisagem circundante”

Leonardo Rocha

Meu cérebro fotográfico

Vaga náusea física”

Álvaro de Campos

Neste setembro, quem está no foco do Olho de Belize é o poeta iguaçuano Leonardo Rocha.

Ele se apresenta em sua autobiografia construída em terceira pessoa, mostrando um pouco de seu olhar sobre si mesmo, seu passado e presente, além de comentar suas experiências no mundo da leitura e poesia.

Além disso, temos uma breve entrevista, bem como uma atenciosa análise de alguns de seus poemas, retirados da página no facebook: O silêncio oculto das palavras.

Com a palavra, o poeta Leonardo Rocha:

“Nascido em 1979 em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, sempre foi muito tímido e introspectivo. Nunca foi um aluno exemplar, muito pelo contrário, fazia de tudo pra fugir das aulas e das tarefas escolares. Não se enquadrava nas regras e no método disciplinador das escolas tradicionais onde estudou.

Até que, na 3a série primária, descobriu o prazer da leitura na série de livros ‘Para gostar de ler’ que trazia contos de autores consagrados como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, entre outros. Fascinado e curioso, procurou outras obras de Carlos Drummond de Andrade e teve a primeira experiência poética ao ler ‘Quadrilha’.

No mesmo ano, ganhou um concurso de poesia e, desde então, sua vida foi escrever tudo o que calava. Passou toda a vida guardando e escondendo seus escritos até que, em 2015, conheceu os vários movimentos literários da Baixada e do RJ. Resolveu mostrar algumas poesias e enfim, descobriu o que realmente faz sentido na sua vida.

As palavras exorcizaram alguns medos e demônios onde nem o tratamento psicológico conseguiu alcançar.

Hoje, frequenta alguns dos principais saraus do RJ e faz parte do ‘Coletivo Pó de Poesia’ em Belford Roxo.

Guarda todas as suas poesias na página www.facebook.com/ osilencioocultodaspalavras que considera um ‘guardador de rascunhos’ onde ficam registrados seus pensamentos.”

Vejo muitas rajadas de afeto

Escondidas entre a tragédia e a audiência”

Leonardo Rocha

Entrevista com o autor

Olho de Belize: Por que escrever poesia?

Leonardo Rocha: No meu caso, é pra compensar a dificuldade de me expressar oralmente. A poesia é tudo aquilo que sinto, que me incomoda ou me satisfaz e não consigo deixar sair de outra forma que não seja pela palavra escrita.

Olho de Belize: Quais tuas influências na poesia?

Leonardo Rocha: O primeiro contato com a poesia foi quando li “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade no Ensino Fundamental. Aquela condução de ideias pelas palavras me deixou intrigado.

Anos depois, descobri que era o “espanto” de que Rubem Alves tanto falava. É aquilo que desperta nossa curiosidade e nos leva a querer conhecer mais.

Portanto diria que Carlos Drummond de Andrade foi o “start” e depois, veio Fernando Pessoa.

Olho de Belize: Quais autores favoritos de literatura brasileira? De prosa e/ou poesia.

Leonardo Rocha: Costumo dizer que sou um ignorante de Literatura Clássica e não tenho autores prediletos fora aqueles que me influenciaram na poesia.

Portanto, fora os já citados, gosto do Leminski, Jorge Amado, Fernando Sabino e Rubem Alves.

Olho de Belize: Outras artes também te influenciam? Tipo música, cinema, etc?

Leonardo Rocha: Tudo me influencia, uma entrevista, um filme, uma música, às vezes, até mesmo uma situação cotidiana.

Muitas vezes a arte provoca em mim uma angústia, que tomo pra mim ao imaginar alguém em determinada situação de alegria ou tristeza. Como se eu sentisse o que aquela pessoa sente e isso pesasse sobre mim.

Uma necessidade de colocar essa angústia pra fora. Nessas horas, a poesia é cuspida de uma vez.

Olho de Belize: Você pensa em lançar livros algum dia?

Leonardo Rocha: Sim, mas não é uma prioridade.

Não sei se é falta ou excesso de vaidade, mas não tenho nenhuma pretensão de lançar um livro sem que haja uma procura genuína pelo que escrevo.

Talvez, por isso, não tenha essa meta como uma necessidade. Me sinto mais completo quando alguém gosta e lê uma poesia minha, o que é muito raro.

Talvez, por isso também, a ideia do livro, pra mim, não signifique tanto atualmente.

Mas penso em lançar um dia sim, mesmo que seja só pra mim.

Olho de Belize: Qual poema de tua autoria é teu favorito?

Leonardo Rocha: Não tenho um meu favorito, pois não lembro de todos.

Isso (ter um favorito) depende muito do meu estado de espírito: tem dias que leio um poema que quase foi pro lixo e acho o máximo.

Não sei qual é o favorito.

Quando eu ler meu próprio livro, talvez tenha essa resposta. Pelo menos, o favorito do livro eu saberei. Taí um motivo pra publicar um livro.

Olho de Belize: Qual teu autor ou autora favorito de poesia brasileira?

Leonardo Rocha: Carlos Drummond de Andrade.

Olho de Belize: Qual teu poema favorito desse autor/a?

Leonardo Rocha: Além de “Quadrilha”, gosto muito de “Os ombros suportam o mundo”. Mas o meu poema favorito não é do C.D.A., e sim, do Fernando Pessoa (Álvaro de Campos).

Não tem nome, segue abaixo:

E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo…

O dilúvio de Deus e o bebé loirinho boiando morto à tona de água,

Eu, em cujo coração a angústia dos outros é raiva,

E a vasta humilhação de existir um amor taciturno —

Eu, o lírico que faz frases porque não pode fazer sorte,

Eu, o fantasma do meu desejo redentor, névoa fria —

Eu não sei se devo fazer poemas, escrever palavras, porque a alma —

A alma inúmera dos outros sofre sempre fora de mim.

Meus versos são a minha impotência.

O que não consigo, escrevo-o;

E os ritmos diversos que faço aliviam a minha cobardia.

A costureira estúpida violada por sedução,

O marçano rato preso sempre pelo rabo,

O comerciante próspero escravo da sua prosperidade

Não distingo, não louvo, não (…) —

São todos bichos humanos, estupidamente sofrentes.

Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo,

Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho,

E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim.

Meu coração esquife, meu coração (…), meu coração cadafalso —

Todos os crimes se deram e se pagaram dentro de mim.

Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos,

Bebedeira da servilidade altruísta,

Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo…”

Olho de Belize: Você tem alguma rotina pra escrever?

Leonardo Rocha: Não. A Poesia vem e escrevo.

E ela parece gostar de testar minha entrega, pois vem em momentos inusitados: no meio de uma reunião de trabalho, de madrugada, no banho, no trânsito.

Dificilmente ela vem quando estou na mesa com papel e caneta na mão.

Olho de Belize: Você revisa muitas vezes o que escreve?

Leonardo Rocha: Hoje reviso bem pouco. Antes, eu simplesmente escrevia e esquecia a poesia em algum canto.

Hoje, ainda que muito raramente, deixo passar algumas semanas e volto em alguma poesia pra revisar e mudar algo.

Olho de Belize: Quais são os temas que mais te inspiram a escrever poesia?

Leonardo Rocha: Tudo que escrevo é inquietação minha em relação a alguma coisa.

Normalmente a poesia é fruto da minha insatisfação constante com o mundo.

Uma espécie de urro de um amordaçado. Dificilmente escrevo sobre o amor ou sobre a natureza.

Posso dizer que o principal tema das minhas poesias é minha agonia.

Olho de Belize: Escreve prosa tbm?

Leonardo Rocha: Nunca tentei.

Olho de Belize: E finalmente, pra você, o que é a poesia?

Leonardo Rocha: É a expressão mais verdadeira e instigante da alma humana. A poesia consegue ser única pra todos, ao mesmo tempo em que é única de cada um. A poesia é a leitura que se faz do mundo através de tudo que não está explícito.


1. Introdução

um coágulo manobra a sua trilha”, Celan

Nos anos de faculdade, em algum momento ouvi a expressão “laboratório do escritor” vinculada aos questionamentos sobre a produção e escrita desse ser que, durante muitos séculos, foi rotulado, marcado e forjado à base de pré-conceitos e, quando poeta, os rótulos vinham de gênio a marginal, entre mil outros de acordo com as fases, humores e teorias. E correntes (literalmente!) literárias.

Sinto Deus por dentro do peito

Batendo descompassado

Na cadência da realidade

Olho pro céu e vejo o limite”

Leonardo Rocha

Sendo assim, fazem da figura do escritor, às vezes, uma caricatura de um ser humano que dedica seu tempo a esse exercício, que é a escrita. Porém, o laboratório do escritor, no caso de Leonardo Rocha, por exemplo, não existe ou é a própria mente do poeta. Como entrar então e investigar para fazer as relações necessárias a um texto crítico?

Pela obra.

A curiosidade de quem lê, normalmente, paira sobre aspectos cotidianos da vida do escritor/poeta, mas aqui no Olho de Belize, é necessário fazer uma ressalva: ainda que nos limitemos a aspectos, por muito tempo considerados pueris, como “autores favoritos”, “poemas favoritos”, questões de gosto pra alguns e, pra outros, questão de política, aqui o buraco é mais embaixo.

Apesar da própria vontade

Morta e desfigurada

Na passada anterior”

Leonardo Rocha

O guardador de rascunhos visitou o guardador de rebanhos?

Tenho sangrado demais

Tenho chorado pra cachorro

Ano passado eu morri

Mas esse ano eu não morro”

Belchior

Ao mapear autores/autoras/livros/poemas/músicas/etc favoritos de escritores de um território considerado sempre à margem, carente e despido de literatura, poesia e arte, conhecimento técnico, teórico e acadêmico, o papel que me cabe é jogar uma isca e puxar.

Por exemplo, Leonardo Rocha, na entrevista diz que não leu os clássicos brasileiros, mas cita um dos poetas mais importantes do movimento modernista que é Drummond, canônico até o último fio de cabelo que não tinha. Citar Drummond e Leminski já é uma filiação, uma busca pela origem de seu desejo pela escrita, além de sua angústia e estranhamento do mundo. “A angústia revela assim a condição na qual o homem se encontra, a de finitude e por meio dessa finitude procura atingir o infinito.”

Isso definitivamente importa quando se fala de poesia no território da Baixada. A filiação, tão regrada e queixosa em alguns autores lá de baixo, pra nós não é subserviência nem uma busca de brilhar sob a estrela alheia. Muito pelo contrário, o poeta da Baixada quando mostra suas influências, conscientemente ou inconscientemente, na linguagem, é outro o sistema que demonstra ao crítico. Na Baixada, estar filiado é o mesmo que não estar. Não faz diferença a linha, corrente ou teoria.

Sempre nos jogam no mesmo rótulo: “poeta da Baixada”. Nem marginais somos, queridos. Marginais são os da geração mimeógrafo, os esquerdomachos, o pessoal que aplaude o sol no Arpoador. E até Antônio Fraga, o do Desabrigo, morreu em Queimados, totalmente esquecido, mesmo com uma obra de filiação claramente joyceana, fragmentada e com um trabalho de linguagem pra deixar qualquer teórico/crítico embasbacado.

Nossa filiação não significa nada lá embaixo porque não existimos como artistas, teóricos, críticos, poetas, músicos. Academicamente falando, o que somos?

E os que vão e significam algo são justamente os que vão e não voltam.

O mundo cai todos os dias de pé”

Leonardo Rocha

Então, cá estamos. Para a Baixada, ao meu ver, é importante dizer de onde o verso veio, de onde a música veio, de onde nasceu a prosa. Não por nós. Mas pelos canônicos que arrastam correntes nas discussões infindáveis de mil-setecentos e antigamente.

Quando um poeta como Leonardo Rocha nos traz Drummond lido e relido e trelido e refeito, degustado e vomitado em seus versos, ainda que com admiração, espanto e amor, Leonardo demonstra autonomia poética. Ele não copia Drummond, mas também não fagocita, nem é antropofagia.

Nem plágio. É o sentimento do mundo. Mas de mundos diferentes. E essa é a senha, o mistério e a luz: o território fala pelo corpo do poeta. Inclusive em sua mística de escrita e busca por Deus.

QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

A angústia, como senso comum, é tratada de maneira rasa e, principalmente cruel, para quem não está acostumado aos corres e ciladas do cotidiano. Pode ser uma bobagem, uma besteira, uma mentira.

Mas se eu trago a angústia dos versos de Leonardo Rocha para o viés filosófico, essa angústia que faz Leonardo escrever, que faz Leonardo, sobretudo, pensar e se indignar, essa mesmíssima angústia é existencialista.

Pertence a uma das escolas filosóficas mais importantes do século XX. Assim, eu trago Leonardo Rocha, iguaçuano, e ponho ao lado de Sartre, francês, que escreveu a Náusea. Só o Tempo os separa, mas a crítica que escrevo não pode mantê-los separados se, ao fim e ao cabo, essa náusea é a mesma. Isso por que ainda esperamos Godot, ainda não lemos Macunaíma, ainda esperamos Sebastião… mas essas questões são pra outro papo.

Se paro no meio do fosso

Fecham as portas do céu

Apertam as correntes dos pés”

Leonardo Rocha

Então, pra muitos, inclusive pro próprio Leonardo, sim, é importante dizer que a poesia dele é existencialista. Essa afirmação, embora cheia de receios e ciladas, como já disse antes, é uma escrita teórica, arriscada como tudo que se escreve na Baixada, principalmente como teoria, inscrevendo um poeta da Baixada Fluminense numa corrente acadêmica, filosófica e poética, entre filiações e influências importantes, indo além de quem conceitua a Baixada simplesmente como marginal. E tal e é isso.

Somos cânonicos sem fraque, somos marginais sem mimeógrafo, escrevendo poemas com giz nas portas das lojas. Somos poetas de zine, ainda. De saraus da bandalheira sem século XIX. A margem que nos puseram à força, à força e viemos disso à fórceps. Tanto a marginalidade romantizada, bandidos “honrados”, polícias e mocinhos, novelas da Globo, quanto o cânone do fardão não nos pertence, verdadeiramente. Porém, lemos. Escrevemos vocês. Conceituamos vocês também. Sobrevivemos a essa sacanagem.

E nos inscrevemos em vocês mais do que vocês em nós. Nunca, nunca nos pensaram.

E, ufa!, ainda bem que não nos alcançaram. Estamos “apenas solitariamente livres” pra fazer o “nosso”.

Aquilo que sou quando ninguém vê

O desentendimento comedido do lapso

O sangue quente não escorre pro papel

O suor frio não molha minhas mãos

Apenas solitariamente livre”

Leonardo Rocha

A minha alucinação é suportar o dia a dia

E o meu delírio é experiência por coisas reais”

Belchior

No poema abaixo, sem título, teremos escolhas lexicais interessantes como: razão, vontade, infiel ao mundo, vitorioso cabisbaixo, ignorância, sensível, percepção, putrefação cotidiana, rajadas de afeto escondidas/ Entre tragédia e audiência, herois sem nome, altares invisíveis, becos sem saída.

O mundo cai todos os dias de pé

Rendido a putrefação cotidiana

Vejo muitas rajadas de afeto

Escondidas entre a tragédia e a audiência

Me rendo aos heróis sem nome

Me prostro nos altares invisíveis

Dos que levam Deus dentro de si

E não nos becos sem saída.”

Leonardo Rocha

Assim como essas escolhas, também teremos o uso do verso livre, composições de versos rápidos, como “rajadas” de significados, mensagens rápidas, telegráficas, ainda que o poema seja levemente extenso, para os padrões facebookianos.

A construção poética de Leonardo é a de um martelo, não iconoclasta como o de Nietzsche, ainda que contenha ressonâncias, mas um martelo sonoro, um baque surdo no início dos versos com o uso de oclusivas e sibilantes como “b”, “c”. “s”, “m”, “v” e “d”. Antes que reclamem, eu sei que os símbolos fonéticos não são esses, mas é só uma representação possível pra que fique inteligível.

E o favor de existir apesar do mundo”

Leonardo Rocha

Os temas também são de raiz existencial: o cotidiano que se putrefaz porque é rotina e não apresenta inovação, só repetição mecânica de ações e palavras, além do que podemos pensar na poesia como fuga possível dessa mecanização, repetição, alienação do exercício da palavra como fala e que se espráia como escrita.

Além disso, em Leonardo Rocha, também veremos a escrita como cura do medo, como busca de respostas, como veiculação de perguntas, indignação e revolta.

Busca e cura que a poesia responde e trata, ainda que seja uma presença caprichosa, por vir a hora que bem quer. Porém, quando vem, é consoladora, alívio dos tempos sombrios e descanso para o pensamento, ainda que nasça dessa angústia do cotidiano.

Porque a sua própria profundidade o salva do esquecimento; não se cicatrizando, ele salvaguarda a cada instante uma possibilidade de salvação” (KIERKEGAARD, 2009, p. 84).

Bastaria me render ao improvável

Como sinto as marcas da razão

E subiria alguns degraus quebrados

Caminhos amassados pela vontade

Ignorando a linha reta dos pássaros”

Leonardo Rocha

2. Eixos

O mito é o nada que é tudo.”, Fernando Pessoa em seu livro “Mensagem”

Para Leonardo, a poesia é “urro de amordaçados”. Prometeu acorrentado, Atlas e a eterna pedra a rolar… Dilemas tão antigos quanto a humanidade, mas que, se mascaravam em mitos. Agora perdem-se fragmentados como as relações líquidas.

Na vontade muda de fechar o tempo”

Leonardo Rocha

Além disso, o eu-lírico dos poemas escreve de dentro da angústia. Isso diz mais do que parece. Ao não conseguir se expressar pela prosa e pela voz, o autor busca instrumentos e método, ao encontrar a poesia também acha sua forma, dentro do fragmentado, da quebra de parágrafos para a expressão do que é inenarrável a ele, mas que o eu-lírico encara e urra.

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada”

Roberto Piva, A piedade

A poesia como alternativa de sobrescrevivência, de sobrevivência, também como vai nos chamar atenção a poeta Conceição Evaristo. O que cala também se inscreve em Fanon, tá lá no “Peles negras, máscaras brancas”.

O caminho que trilho a esmo

Pra justificar o que a vida exige impune”

Leonardo Rocha

A poesia de Leonardo, ainda que assim não se imponha, é negra. Ainda que tenha por fontes Drummond e Leminski, a construção poética de Leonardo passa à frente porque é um corpo negro que escreve e sua angústia não é mero luxo ou “grita de consumidor”, mas sim, a angústia ancestral de quem sabe o racismo porque vive e vê e sente, ainda que, no Brasil, muitos acreditem no delírio da “democracia racial”. Então, o cânone brasileiro, ainda que dominado pelo “macho-adulto-branco”, tem na figura de Lima Barreto e Conceição Evaristo, além de Carolina Maria de Jesus, figuras que destoam por se destacarem e mostrarem a realidade desses tristes trópicos.

Na cara do abismo entre a certeza e o acaso”

Leonardo Rocha

“Angústia, repugnância e espanto despertou a multidão metropolitana naqueles que pela primeira vez lhe fixaram o rosto. Em Poe, ela tem algo de bárbaro. A disciplina somente lhe impõe um freio a duras penas. Mais tarde, James Ensor não se cansará de defrontar nela disciplina e desordem. (…) Valéry, que tem um olhar muito agudo para a síndrome ‘civilização técnica’ assim descreve um dos elementos em questão: ‘o homem civilizado das grandes metrópoles retorna ao estado selvagem, isto é, a um estado de isolamento. O sentido de estar necessariamente em relação com os outros , a princípio continuamente reavivado pela necessidade, torna-se pouco a pouco obtuso, no funcionamento sem atritos do mecanismo social. Cada aperfeiçoamento desse mecanismo torna inúteis determinados atos, determinados modos de sentir.” (BENJAMIN, Sobre alguns temas em Baudelaire, p.43)

“Portanto, onde há uma multidão, uma multidão, ou onde o significado decisivo está unido ao fato de que há uma multidão, é certo que ali ninguém está trabalhando, vivendo, esforçando-se, para alcançar a mais alta meta, mas somente por uma ou outra meta terrena, já que só é possível trabalhar a meta eterna e decisiva onde há um, e se este uno que todos podemos ser é permitir a Deus que nos ajude; a “multidão” é a mentira. Uma multidão – não esta ou aquela multidão, a multidão que vive agora ou faz tempo que murmurou, uma multidão de gente humilde ou de gente superior, de ricos ou de pobres, etc. –, uma multidão é, em seu mesmo conceito, a mentira, porque faz o indivíduo completamente impotente e irresponsável ao reduzi-lo a uma fração. (KIERKEGAARD, 1972, p. 128-129)

O chão que piso sem olhar

Confiante no passo seguinte

Esconde o próprio caminho

Revela o distante destino

Pra onde chegar sozinho

Cabe dentro da mão

Pra onde morar sem ninho

Esconde a insana razão

Não vou parar pra rezar

Nem me esquivar da verdade

Sinto Deus por dentro do peito

Batendo descompassado

Na cadência da realidade

Olho pro céu e vejo o limite

Sinto o chão e sei onde piso

Nada se faz lúcido a minha frente

Passo por cima da própria semente

Ignorando o pranto da gente

Apenas pra ter onde chegar

Se paro no meio do fosso

Fecham as portas do céu

Apertam as correntes dos pés

E tudo que achei ser quem eu sou

Voltará a ser apenas

O caminho que trilho a esmo

Pra justificar o que a vida exige impune

Mais um na mesma estrada

Ignorando a contra mão

Cabeça baixa

Olhar fixo em cada pisada

Mais um herói do ostracismo

Feliz por estar vivo

Apesar da própria vontade

Morta e desfigurada

Na passada anterior”

Leonardo Rocha

3. Tempo e memória

Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância;

E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;

A falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros,

Que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão.”

Álvaro de Campos, “Datilografia”

Olho pela janela

As coisas passando no tempo

No fio fino das horas e das conquistas

Olho o movimento da terra nessas histórias

E vejo findar vários eus, multiplos heróis

Na pequena janela entreaberta

Olho, debruçado sobre ela

As vontades ficando pra trás

As ideologias e os defeitos mais perfeitos de nós

Indo e vindo num mar seco de novidades

Não vem nada que compense esse passado

Morrendo aos poucos na paisagem circundante”

Leonardo Rocha

Solução solução solução (qual o quê)

Não tem saúde nenhuma

Não tem saída nenhuma

Não durmo nem sonho mais

Procurarei não acreditar em mim.”

Murilo Mendes

Nada nem ninguém que invente uma nova forma de ser feliz

Um novo jeito de ver o mundo sem doer

Olho pálido a janela que não fecha

Levam as lágrimas que não voltarão

Enquanto a ira permanece sadia e sorridente

Incrustada na dor imóvel e covarde

Na vontade muda de fechar o tempo

E todas as suas injustiças

Todas as trapaças

Na cara do abismo entre a certeza e o acaso”

Leonardo Rocha

Na outra, não há caixões, nem mortes.

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos, que é o que viver quer dizer.

Neste momento, pela náusea, vivo só na outra.”

Álvaro de Campos, “Datilografia”

4. Metamorfoses

Nasci no lado errado

De onde se acorda e não se vê

De onde se toca e não se sente

Nasci assim igual todo mundo

Igualmente diferente

Leonardo Rocha

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos”

Kafka, “A metamorfose”

Sou infiel ao mundo

Um vitorioso cabisbaixo

Diante da ignorância tão exaltada

Disseminada na contra mão

Não vejo os olhos lacrimejantes

Não sou sensível ao insensato

Minha percepção pobre e insana

Afasta e atrai as pessoas

Me sinto culpado por não ignorar o ópio

Leonardo Rocha

(…) diante

da inenarrável e baldia

revelia de restos,

química e úmida.

no júbilo do lixo.”

Marcelo Diniz, “VI”, Prova-contato

Palavras do próprio Leonardo: Debruçado sobre as porradas do tempo, olho essa foto e sinto que a vida não basta. Definitivamente não. O tempo é implacável e não escolhe as formas de se fazer presente, muito menos onde vai pairar sua pesada mão e definir aquilo que não deveria ser delimitado. Não sei se a morte é tão dura quanto o tempo pois a morte é o fim e pode significar um alívio, mas o tempo é justamente o desenrolar daquilo que um dia será morte. Esse espaço consciente é frio e cruel pois por mais que tenhamos amor e amizades ao nosso redor, existem também os momentos de introspecção onde as questões são colocadas, cobradas, indagadas por nós pra nós mesmos. Ficamos sem resposta e a certeza vai tomando o espaço do que ainda sobra da vida. A morte é uma certeza e o que falta no final é a interseção entre a ausência eterna e a convicção de que nada será como antes.

Por um acaso hoje me deparei com uma postagem da filha do Rubem Alves e me veio a inquietação surda dos que ficam. As suas palavras se eternizaram nos livros e vídeos espalhados pelo mundo, ensinando a ensinar aprendendo. Dói saber que os bons também se vão num desperdício de tempo das próximas gerações que nascerão e morrerão sem as palavras quentes e inspiradoras desse educador. O tempo foi e continuará sendo cruel, até com os de bom coração. Se isso se chama vida, tá explicado porque existe a arte. A vida é muito pouco, é alvo fácil pro tempo. A arte ignora o relógio e o calendário.

Saudade do senhor dos espantos, muita saudade…”

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele

Poeta decadente, estupidamente pretensioso,

Que poderia ao menos vir a agradar,

E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.

Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!”

Álvaro de Campos

5. Revolução

EMPRESÁRIO: Quem é mais digno de pena, o que bate ou o que apanha?

JACQUES: O que apanha.

EMPRESÁRIO: O que bate.

JACQUES: O que apanha.

EMPRESÁRIO: O que bate.”

Jacques e a revolução”, Ronaldo Lima Lins

Ouço uma música

Caem verdades sobre meus olhos

Caem lirismos adocicados sobre minha pele salgada

Cai um pouco dessa torpe tragédia cotidiana”

Leonardo Rocha

Viver a divina comédia humana

Onde nada é eterno”

Divina Comédia Humana, Belchior

EMPRESÁRIO: Você não vê todos os ângulos do problema.

JACQUES: Não preciso.”

Ouço uma música e o mundo me escuta

Troco lágrimas com o desconhecido

Bebo doses sinceras de compaixão

Na sinceridade de cada palavra

No ritmo oculto de cada história

Visto a velha roupa colorida

E esqueço que sou real”

Há sempre lá – bem visível – a inscrição: EU SOU DE TODOS E NÃO PERTENÇO A NINGUÉM.”

Jacques e a revolução, Ronaldo Lima Lins

A música, mais nada

Apenas os sentidos tonificados

E a percepção muda e cega

Do arrepio involuntário

De quem dança sozinho

A realidade transgressora da ilusão.”

Leonardo Rocha

A máscara mascara a própria máscara. As palavras se tornam máscaras de máscaras: servem para esconder possíveis rostos, mas servem também para mostrar de modo marcante momentos cruciais da existência de todos.”

Flávio Kothe

ir à deriva no rio do atual.

Que nunca mais deverá nascer ninguém”

Murilo Mendes

6. “ (…) escolher

nosso

tempo” (Marina Fraga)

E o coração que já não bate

Se esfrega, roça no tempo

Como gato querendo colo

E o olhar que não tem rumo

Se esvai por qualquer caminho

Onde a luz rasteja e desemboca

Em contra mão”

Leonardo Rocha

HOMEM 1: Lutamos tanto… E o que conseguimos?

HOMEM 2, conformado: Lutar mais.”

Jacques e a revolução, Ronaldo Lima Lins

E as mãos que se escondem

No bolso das coisas, nas palmas das horas

Como a luz perdida num fim de tarde”

Leonardo Rocha

AQUELA FRASE DO BECKETT SOBRE FALHA FALHAR MELHOR SEI LÁ

(…) Febre imensa das horas!

Angústia da força das emoções!

Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,

A cadela a uivar de noite,

O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,

O bosque como foi à tarde (…)”

A passagem das horas – Álvaro de Campos

Para Bettlheim, é a diferença mínima com relação a ‘máquina biológica’ que define o critério de sobrevivência, fazendo o sobrevivente manter-se em sua humanidade, esta mesma humanidade que reaparece na culpa essencial do sobrevivente com relação àqueles que morreram.” (João Camillo Penna em “Sobre viver no lugar de quem falamos”)

esta cova em que estás

em palmos medida

é a cota menor que tiraste em vida

nem alto nem fundo

é a parte que te cabe deste latifúndio”

CONFIRMAR MORTE E VIDA SEVERINA

E o favor de existir apesar do mundo

Que se disfarça de sobrevivência

Travestido de ser

Aquilo que se esconde nas amarras

Justas e injustas da vida

E na falta do que sorrir

Se chora de tanto amar”

Leonardo Rocha

Amar e mudar as coisas

Me interessa mais”

Belchior

7. Diálogo

Talvez liquidaremos a eternidade”

Murilo Mendes

O raio surdo de um instante

Que cega minha alma

E impõe tirano ao mundo

O que a vida escreve em mim.”

Leonardo Rocha

O auto-esquecimento do sujeito, que se põe ao dispor da linguagem como de algo objetivo, e o que há de imediato e involuntário em sua expressão são o mesmo: assim a linguagem estabelece a mediação entre lírica e sociedade no que há de mais intrínseco. Por isso a lírica se mostra mais profundamente garantida socialmente ali onde não fala segundo o paladar da sociedade, onde nada comunica, onde, ao contrário, o sujeito, que acerta com a expressão feliz, chega ao pé de igualdade com a própria linguagem, ao ponto onde esta, por si mesma, gostaria de ir.”

(ADORNO, Lírica e Sociedade, p.198)

Meus cadernos continuam mudos

As canetas vazias

O mundo continua sem sentido

Isso não me torna infeliz

Isso me faz livre”

Leonardo Rocha

HOMEM 1: Eu dizia que há muito a fazer quando uma pessoa se vê só e desamparada, acordando para a própria miséria. É como se houvesse passado um carro em cima da gente. Fica um vazio, uma sensação de perda… E, curioso, sente-se, junto, uma impressão de alívio, uma vontade de recomeçar…”

Jacques e a Revolução, Ronaldo Lima Lins

Escrevo aquilo que falta da boca pra fora

Aquilo nulo no mundo

E transbordante em meu coração

A incompletude torna lícito

Meu lamento e minha alegria

Meus versos e minha inquieta paz

Aquilo que sou quando ninguém vê”

Leonardo Rocha

De lágrimas nos olhos de ler o Pessoa”

Belchior

Pedro, pedreiro, penseiro

esperando o trem”

Chico Buarque

8. Falsa, prática, útil – a letra suporta o mundo nos ombros

Uma corrente subterrânea coletiva faz o fundo de toda lírica individual” (Adorno, “Lírica e Sociedade)

Tenho comigo algumas distâncias

Lapsos de memória e sentimentos

Espaços grandes demais

Entre afetos e realidades

Guardo em cada um desses caminhos

Algumas chaves quebradas

E a certeza de não saber acessar”

Leonardo Rocha

E que ficou desapontado

Como é comum no seu tempo”

Belchior

A própria entrega ao amor

Não sei se firo tanto quanto sou ferido

Quando não sinto falta

Quando não tenho saudade

Quando não nutro a mesma necessidade

De conviver comigo mesmo nos outros

Leonardo Rocha

E que ficou apaixonado

E violento

Tanto quanto você

Eu sou como você

Eu sou como você

Que me ouve agora”

Belchior

Guardo essa angústia

E choro sem saber porque

Sendo ingrato sem saber com quem

Dividido

entre o egoísmo e a carência”

Leonardo Rocha

o que ainda nos falta é a engenharia para lançar as pontes entre a realidade e a teoria” (Estrada, Martinez, in O redemunho latino-americano de Luiz Costa Lima)

Ando entre as várias distâncias

Cultivando cada um dos abismos

Ignorando as pontes

E as respostas que prefiro não saber

Não vejo as lágrimas que provoco

Não bebo o próprio pranto em outros olhos

Saio e entro em mim sozinho

Só assim suporto o peso desumano do mundo

Leonardo Rocha

Bem antes da noite

te visita alguém que saudou o obscuro.”

Paul Celan

Muita coisa sofro pelos outros

Eu mesmo nem sofro às vezes”

Murilo Mendes

E agora, José?”

Drummond

9. O coração é do tamanho do mundo, Mu(n)do

Ando solitário no meio do mundo

Ignoro tudo que não cabe em mim

Mesmo quando sinto tudo

Não sei onde fica meu início

Meu fim”

Leonardo Rocha

O mundo telegrafa em vão

Para um Deus em tipo nove.”

Murilo Mendes, “O poeta nocaute”

Sou muita coisa pra caber num só

Mesmo quando não sou nada

Me atormenta a complexidade de ser simples

Ser um em tanto tudo

Quero um sossego utópico

Onde não sinta frio nem calor

Um arremesso sem destino no vento

Um agrado sem que seja favor”

Leonardo Rocha

A noite é um resumo de cios,

De soluçosde mártires anônimos,

De choros, vitrolas na sombra.

Eu não fui feito para pensar depois de amanhã”

Murilo Mendes, “O poeta nocaute”

Tudo é tão pouco

Não quero ser isso

Se entendo sou louco

Se ignoro sou lixo

No fim, apenas o fim

Rastro do tempo

No espaço da vida

Sou sempre um pouco assim

A casca que não seca

Na mesma ferida”

Leonardo Rocha

Ora, direis, ouvir estrelas”

Bilac na voz de Belchior

Eu sou terrivelmente do mundo

Meus demônios são daqui

As estrelas não me consolam

Não me falam da harmonia do universo

Não me transformarei em cidades

Em cânticos

Em multidões

Não serei uma placa

Não tenho força para cavar a ordem”

Murilo Mendes, “O poeta nocaute”

10. Conclusão

Tudo é esforço nesse mundo onde se querem coisas”

Álvaro de Campos

Escrever sobre a poesia feita na Baixada é quase sempre uma espécie de inscrição sobre minha própria pele dizendo: “Sou daqui. E esse ‘daqui’ pulsa.”

Quando tive a ideia de escrever sobre Leonardo Rocha, grande amigo e antigo companheiro de Coletivo em Belford Roxo, sabia que tinha por responsabilidade erguer a poesia dele e colocá-la onde se deve: nos ombros dos gigantes, dos canônicos, dos marginais-canônicos, disso tudo. Primeiro, porque acredito no que ele escreve e acredito que o crítico deve ter essa percepção, pelo menos no território de onde escreve, de onde fala, de onde nasceu. A Baixada não é, para mim, uma passagem, uma multidão, um paraíso, um prédio, um “algo”.

Que nossa escrita seja sempre uma revolução de planetas, que possamos ir no passado e trazê-lo ao presente, descrevê-lo, montá-lo, desregrá-lo, transgredi-lo, para que nosso futuro seja outro.

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Como voz de resistência, Leonardo Rocha deve ser reconhecido como poeta. Mas também, pela estrutura e pelo trabalho e beleza dos versos, nas metáforas, nas metonímias, nas retornadas, com as angústias pelo cotidiano que se postam nas palavras dele, mas que traduzem nossos sentimentos diante dessas realidades que, muitas vezes, não enxergamos, perdidos em nossa própria e fragmentada rotina.

Que leiamos mais, muito mais, nossos poetas.

Que ouçamos nossos poetas.

Como poeta, Leonardo Rocha não quer ser um visionário, não adivinha o futuro. Nem precisa. Ele faz muito mais do que isso, cerca o presente, observa, anota, escuta. Senta e escreve corajosamente, furiosamente, essa angústia que perpassa nosso peito, espírito-alma, esse Orí baixadense.

A Baixada é cruel, dizem.

Nossa canetada também.

O raio surdo de um instante

Que cega minha alma

E impõe tirano ao mundo

O que a vida escreve em mim.”

Leonardo Rocha

Bom, sobre meu texto, comecei com a ideia de descrever/teorizar/relacionar a poesia de Leonardo com outros poetas, críticos, teóricos voltados pra um viés mais acadêmico, que é de onde basicamente falo no Olho de Belize. Porém, os ecos nos poemas de Leonardo foram mais fortes e me puxaram pra um Belchior.

Trago Adorno e Benjamin, trago Murilo Mendes e também Bilac, Drummond e Pessoa.

Mas na pessoa de Álvaro.

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Entrecruzar referências dos preciosistas, arrancá-las das folhas amarelas e redigir tudo de novo, relacionando ao meu território foi o que aceitei como missão. E é o que faço. Os puristas seguem pedindo socorro, mas só encontrarão teias de aranha e portas fechadas.

Além disso, há no texto também duas tentativas: a primeira, de que o leitor construa seus próprios diálogos entre os poemas de Leonardo Rocha e os trechos designados e entre os autores, a partir disso também despertar a curiosidade para a leitura das obras relacionadas.

A segunda tentativa é a de mostrar que os poemas que tratam do cotidiano não são meramente desabafos, como alguns insistem para desmerecer e diminuir a criação poética e de escrita daqueles que estão começando, principalmente em relações de poder que encontrei na Academia.

Essa segunda tentativa coloca no cotidiano uma luminosidade teórica para além do preconceito, que inclusive é seletivo. Ana Cristina Cesar é um gênio e utilizava o gênero “diário”, suas anotações são tratadas como alta literatura.

E por quê?

Por que o poema de alguém da Baixada é “desabafo” e, portanto, “não é poesia”. Mas Ana Cristina Cesar é poesia, é o que quiserem? Por que lá é “gênero literário” e aqui é “desabafo não-poético”?

Não é por falta de trabalho de linguagem. De estrutura e uso da norme culte docês, garanto que nóis usa suas regra muito bem, obrigada.

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Seus teóricos alemães também.

A Baixada é muito mais do que imaginaram de nós. Do que fizeram de nós.

E cada poeta é símbolo de muitos. Cada autora é símbolo pra muitas.

Quantos de nós morreram em fábricas e em quartinhos de empregada?

Quantos de nós jamais puderam escrever versos?

É por eles que fazemos nossas escritas.

Nossa herança. É o que devemos a eles e a elas, todos.

“Se isso se chama vida, tá explicado porque existe a arte. A vida é muito pouco, é alvo fácil pro tempo. A arte ignora o relógio e o calendário.”

Leonardo Rocha

Gostaria de agradecer ao Leonardo Rocha pela disponibilidade e simpatia ao responder a entrevista e enviar as mil coisas que eu pedi. E também deixar aqui meu forte abraço e dizer: “Sim, você é um grande poeta, poeta grande, Coração-Mundo, Mundo, Vasto Mundo.”

Axé, poeta! Evoé!

E, sempre, sempre, Baixada, viva! Viva a Baixada!

Sem jamais esquecer, meu povo: laroiemos.

Laroiemos mais que tá pouco.

Exu é Mojubá!

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

Bibliografia mais ou menos estrututrada como a Dona ABNT gostcha

MENDES, Murilo. Poesia Completa.

CAMPOS, Álvaro de. Poesia Completa.

CELAN, Paul. Hermetismo e Hermenêutica.

BENJAMIN, Walter. Sobre alguns temas em Baudelaire.

ADORNO, Theodor. Lírica e sociedade.

SELLIGMAN-SILVA (org.). Palavra e imagem, memória e escritura.

COSTA LIMA, Luiz. Redemunho do horror – As margens do ocidente.

LIMA LINS, Ronaldo. Jacques e a revolução.

DINIZ, Marcelo. Trecho.

KAFKA, Franz. A metamorfose.