Dworkin e Falks: Mulheres que escrevem

17425172_1305542436159737_1633020037454277828_n

1. Introdução

O objetivo deste texto é relacionar o livro da autora Maya Falks “Versos e outras insanidades”, lançado em 2017 pelo Editora Macabéa, a trechos da fala de Andrea Dworkin, sobre o tema “Mulheres e sobrevivência”, contido no vídeo “Heartbreak: A Biografia Política de uma Militante Feminista.  A escritora e ativista Andrea Dworkin (1946-2005) fala de seu último livro, Heartbreak: A Biografia Política de Uma Militante Feminista, publicado pela editora Basic Books, e responde a perguntas.

 

Deixo aqui o link da página de Maya Falks pra quem ainda não conhece:

https://www.facebook.com/escritoraMayaFalks/

Tem o blog: http://nacasadamaya.blogspot.com.br/

17862752_1318687834845197_5188592671673574174_n

A intenção aqui não é discutir se a poesia de Maya é feminista. A proposta é analisar duas sensibilidades poéticas, alinhavando suas densidades e, dentro disso, perceber o mover poético das duas mulheres: Andrea fluindo cada vez mais para o tom político, enquanto Maya toma outro caminho, introspectivo, de observação da vida e seus acontecimentos, além de, e por isso é poeta, de sua preocupação com a linguagem e estrutura de versos.

SOBRE AS FLORES
E se ousarem negar
que eu falei das flores
cá estou a confirmar
que bem são os meus amores
se tentarem te enganar
eu te mostro tantas cores
para nunca duvidar
que eu já falei das flores.

O link para a fala de Andrea Dworkin estará no fim do texto, porém os comentários e trechos destacados serão enxertados na resenha, às vezes com aspas da Senhora Ortografia, às vezes não, deixando que o entalhe não prejudique o entendimento e, muito menos, que a linguagem se transforme num apelo de artigo acadêmico, à qual a Senhora ABNT tanto ama. E esta que vos escreve não deseja.

Ainda que eu seja revisora e lide a todo momento com a Senhora ABNT, nos tratamos respeitosamente. Porém, aqui existe ainda uma tentativa de coloquialização da linguagem, de aproximação entre o texto e seus leitores. Assim, acredito que o palatável transborda em prazer, em suspiro e, muitas vezes, no ininteligível da linguagem abstrata. Aqui as resenhas muitas vezes contém excessos. Mas não peco por falta. Jamé.

“E hoje me acolho na dor que me resta
Talvez a amiga mais antiga a abraçar meu corpo”

“A essência do poeta é compartilhar a dor com o leitor.” Maya Falks, em sua abertura do livro já nos traz uma ideia que perpassará toda sua obra poética e de prosa.
A ideia de que é a partir da dor que a escrita nasce não é nova, assim como o estilo de Maya, teremos isso no Romantismo e em outras escolas literárias voltadas para uma espécie de pessimismo, com grandes elaborações a partir da Vida, da Existência e da posição do poeta diante do Mistério que se apresenta ao escrever e, mais ainda o que seria a bendita, ou maldita?, poesia.

“Nas veias o fluxo do sangue
ofende
Não é possível vida em um corpo
esvaziado”

Assim sendo, Maya está vinculada não somente a seu tão querido Gonçalves Dias, mas a todos os homens e mulheres que, antes dela, escreveram versos. Importante dizer isso porque Maya não é escritora que deseja ser marginal, nem se põe nessa posição. Ainda que o marginal de ontem seja o canônico de hoje.

“A louca, insana, deixou-se abater
Se nasce e se morre sem nunca vencer
Batalhas criadas pra me derrotar
Feia! Louca! O chão é seu lugar
Não me importo com gritos, finjo surdez
Subo escadas, nas torres eu grito
– Chegou minha vez!”

A linguagem de Maya, seu estilo, sua escrita e seus temas são tratados com alta qualidade  de linguagem e vinculados a uma escrita de alta poesia.

HISTERIA
A alma vazia clama amores
Findos tormentos, encontro dos mares
Marés e luas transformam sabores
Histeria
O corpo grita
O sangue umedece o vão entre as pernas

Ainda que possamos dizer que Maya é romântica, no sentido mais técnico do termo, voltada a temas de “amor e dor”, como bem era dada à segunda geração, melancólica em sua essência, ainda assim, o que a difere de tantos outros poetas contemporâneos e os românticos de antigamente é seu esforço e transpiração, diferente do tom inspiracional dos românticos, ainda trabalhando com categorias como o “gênio”.

“Você nunca será como os outros”, diz-me.
Eu sangro.

Deixo claro que não se trata de uma crítica aos românticos, inclusive quem se pretende criticar o romantismo a partir desse ponto em questão erra feio se não olhar também o contexto de nascimento da burguesia, da ideia de Estado-Nação e da relação entre aristocracia e burguesia no contexto europeu da época.

Enfim, a escritora precisa trabalhar muito, “suar a camisa”, para fazer uma boa obra, além disso, utilizar a própria dor como instrumento, como “inspiração”, como técnica e substância. O poeta é comparado a um ourives da língua, sempre

“Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!”, como Bilac diria.

Porém, Maya está longe de beneditinos e instruções aos poetas. Maya é mulher, isso diz tudo.

“Então me levanto. Não serei, mas e se eu tentasse… ser como eu?
“Louca. Obviamente louca”, diz-me então.”

Maya sabe, como toda mulher escritora sabe desde Woolf até Carolina Maria de Jesus, que por ter nascido de mão feminina, suas obras já tem como destino, muitas vezes certo, o anonimato. E antes, em Teresa D’Ávila, Juana Inés de La Cruz e tantas outras.

“Podias ir longe se não fosses tão tola.”
Escuto, mas fi njo que não. Talvez eu possa ir longe se não
ouvir tua opinião.

Seja o anonimato total, seja a máscara de um pseudônimo, o fenômeno não é antigo: aí mesmo pelos idos dos anos 2000, acho, ainda tivemos o caso de Joanne Kathleen Rowling, que, aconselhada por seus editores, lançou seu primeiro livro assinando apenas como J.K. Rowling porque, segundo eles, ninguém acreditaria que a obra era boa se soubessem que veio da escrita de uma mulher.

“Da vertigem a distorção
Da distorção o erro.”

Assim, Maya é um exemplo de mulher que, assim como outras tantas, que segue usando seu nome para assinar suas obras. Mesmo sabendo como o machismo editorial existe e é a maior causa de seus insucessos e não seus versos, sua prosa ou suas olheiras.

“Entre um passo e outro, ainda errante
Vejo o destino ali adiante
Vejo os faróis, as buzinas gritaram
Perdoem-me, não fui eu que escolhi
Foram eles que me mataram”

Para complementar minha fala aqui, inclusive sugiro aos leitores que leiam artigos da professora Regina DalCastagné, da Universidade de Brasília, que pesquisa o mercado editorial brasileiro de maneira vasta e tem números confiáveis, acadêmicos repito!, que corroboram esta minha reflexão aqui. Não é paranoia, é a realidade dos fatos.

“Vejo dragões na minha estante”

Na fala de Andrea Dworkin, teremos muitos momentos em que ela critica essas situações, e lendo suas obras, como “Woman Hating” por exemplo, veremos que além de seu tom político, Andrea também utiliza seu tom literário para se aproximar das leitoras. Seu cuidado com a linguagem é a maior prova disso. Tanto pelo tema, quanto pelo refinamento estético, ela jamais será um best-seller, cuja tendência é alegrar e entreter como um amontoado de frases de agenda, muito pelo contrário. E nisso Maya e Andrea estão irmanadas. Tanto Maya quanto Andrea não constroem obras de entretenimento, de leitura corrida, de passar de olhos. As duas demandam atenção, concentração, desligamento do mundo. Empatia.

“sigo contando pontinhos de luz
em uma parede no escuro”

Além disso, as duas focarão em questões de gênero que, apenas mulheres nascidas e socializadas mulheres, entenderão por terem sentido na pele e na alma muitos dos traumas, questionamentos, dores e insanidades que as duas nos põem na leitura.

“Morro de tédio quando sou
muito normal”

Não são autoras fáceis para leitoras mulheres. Assim como Margaret Atwood, com seu “Conto da Aia”, recém descoberto como “obra prima de ficção científica”, apenas quando se transformou em série de televisão e que, sinceramente, não vai chegar nem em 40 por cento da população feminina do Brasil, que dirá do mundo. Assim como a muitas escritoras, militantes e estudantes feministas também escapa o texto “Um teto todo seu” de Virgínia Woolf e o “Qadós” de Hilda Hilst.

“No olho do furacão”

Gostaria de entender a militância política que se acha tão autossuficiente a ponto de não achar que a literatura de autoria feminina seja relevante para ser lida e estudada dentro dos próprios movimentos feministas. Não é com textos políticos e politizados que se faz uma revolução de pensamento. O político não é o privado e o privado somente é acessível pela imaginação, pela criatividade. Pela arte. Pela linguagem. É por isso que escrevo, para alertar, mesmo sabendo que esse texto chegará a tão poucos olhos de mulheres realmente comprometidas com as causas das mulheres. As outras são meras oportunistas que pegam carona. Existem. São muitas, mas não são invisíveis.

Voltando.

“Terreno onde sepultei meu coração”

Ainda que as linhas literárias antigas sejam vistas como arcaicas e com muito desgosto e desprezo pelas “novas gerações”, não caio nesse erro. “Arte pura, inimiga do artifício,/ É a força e a graça na simplicidade.”, diz Bilac em seu “A um poeta”.

“Muda.
Fique muda”

Muda de fala ou muda de planta? Ou muda de mudança? Ainda bem que não sabemos.

“Certa vez, Marcinha choveu.”

O desprezo pela tradição é uma traição a todos que vieram antes de nós, uma arrogância desnecessária, mas em voga nos nossos dias. Principalmente quando se fala de poetas, escritores e artistas brasileiros e brasileiras. Creio que esse também seja um dos motivos pelos quais as autoras brasileiras vendam menos livros do que a média masculina. A maioria dos escritores se inspira em autores de fora para criar suas obras o que atrai um público majoritariamente parecido com eles mesmos. Às mulheres, ainda que copiem, o nome pesa como um degredo. São “mulherzinhas”, escrevendo sobre “coisas de mulher”, fofocas, desabafos, assuntos cotidianos vistos com desprezo pelos editores, esmagadoramente homens brancos ricos. Daí o motivo pelo qual o termo “literatura feminina” ter sido tão rechaçado por algumas autoras, como Orides Fontela, por exemplo, que também se dizia “poeta”, ao invés de “poetisa”.

“Uma parte de mim que morrerá ao meu lado
cantarolando uma velha e esquecida canção
de amor.”

Termino esta parte,  com as palavras de Maya dedicadas a Gonçalves Dias, além da crítica embutida e a esperança brilhante, ainda que embaçada por um “talvez”:

“Ao mestre, Antônio Gonçalves Dias. Eu queria ser como você. Na sua época eu não poderia, mas talvez agora possa.”

“A proposta era um tema de mulheres para mulheres, sobre mulheres. A parte de ser de mulheres eu cumpri, afinal, eu sou uma. Para mulheres, sim, também o é, mas é para toda e qualquer alma sensível o bastante pra não me rotular de doida varrida pela, digamos, coragem de publicar estes versos.” (Maya Falks)

“A poesia nasce do caos.
Almas tranquilas não produzem poesia.”

O livro é dividido em duas partes: “Dos versos” e “De outras insanidades” e seus temas são os mais variados: corpo, solidão, amor, paixão, dor, e o que mais me chamou atenção, a loucura.

“A insanidade é apenas um detalhe.”

Assim como na vida das mulheres, todas nós em algum momento já fomos taxadas de “loucas”, seja por “brincadeira”, seja por psicopatas em relações abusivas, seja por médicos, seja por pessoas às quais nossa realidade de mulheres, nascidas e socializadas mulheres, parece ficção.

“Sou terra. Rego-me do cotidiano. Floresço em versos.”

Então, o livro de Maya, ao utilizar todo um recorte lexical voltado ao tema da loucura, é, de certa forma, não somente um alerta, mas sobretudo uma ironia fina à maneira como às mulheres é dado o rótulo de loucas quando não se subordinam, quando não correspondem às expectativas sociais, ou, simplesmente quando “se metem a isso de escrever e ler”. Não é esperado.

“Sou terra. Sou a fúria da natureza.
De minha mente surgem tempestades e amores.”

E é fortemente sabotado, forçadamente retirado de nós o direito à livre expressão, seja pela escrita, seja pelo auto-conhecimento de nossos corpos, pelas nossas relações com as outras mulheres e, principalmente, nossa relação conosco mesmas, nossas mentes, nossos desejos, nossas autocobranças e autossabotagens.

“Era tudo, e o vazio
Era nada, e transbordava
Era a confusão, razão e emoção
Era lágrima no gozo
Era lembrança e plano
Era ela, sempre ela, só ela
Era sonho. Era mulher.”

Nossos desejos entre Eros e Thanatos, sempre penderão para Thanatos assim que os tiranos veem que, em nós, florescerá Eros.

“É história, mito, mãe.
Foi um dia.”

Andrea Dworkin dirá que seu lar não é Harvard, mas que sua questão de fala principal é algo pertencente a todas as mulheres: a sobrevivência.

“Sinto-me em constante vontade
De deixar minha vida
Pela metade…”

Como sobreviver em um mundo controlado e regido por seres que, inconscientemente e, cada vez mais consciente e real, nos odeiam.

“Queima! Queima! Brada o povo diante da
moça de longa túnica branca embebida em
gasolina, ou qualquer dessas coisas fortes
que a deixavam nauseada.”

Está em tudo o ódio às mulheres. Na propaganda, na medicina, na escrita, nos gestos, nos corpos dos homens, nas falas dos homens, no dinheiro dos homens, na economia masculina, na misoginia e nas mortes perpetradas pelos homens que criaram suas sociedades sobre os corpos dilacerados das mulheres e, ainda hoje, não param de deixar cadáveres de corpos femininos e, muitas vezes, anônimos, por onde quer que passem.

“Na beira do asfalto, olhando pro alto, chorando de dor
Implorei em silêncio o fi m do lamento por um pouco de amor
Eu mesma sabia que a sina viria sem nem avisar
Que a dor que causei me perseguiria
Que a noite viria a me torturar”

O assassinato de mulheres, nascidas e socializadas mulheres, mulheres com vagina, mulheres vítimas de fetichizações, mulheres vítimas de pedofilia, mulheres vítimas de estupros, mulheres sabotadas por pais, homens mais velhos a vida inteira, mulheres invisibilizadas por serem consideradas “feias”, “indesejáveis”, “indignas de amor”, de qualquer afeto, mulheres que “merecem” ser estupradas, mulheres, mulheres, mulheres.

“Sou posse, pertenço, não tem pra onde fugir
Me aprisiona no tempo, ME TIRA DAQUI!
Eu fujo, eu corro, tento me libertar
Ninguém me escuta, ELE VAI ME MATAR!

A cada 3 horas, são 2 que vão
Sucumbem nas mãos de quem não aceita um “não”
Pro nosso “pecado” não existe perdão
Pra eles, “doentes”, toda compreensão
Coitado, amava demais essa vadia sem coração.”

O que sobrevivência significa. É mais do que querer ser lida, como o desejo narcisista masculino anuncia. O “querer ser lida” de Maya, assim como o desejo de Andrea de ser ouvida por todas as mulheres, os dois caminham de mãos dadas. Não vejam mulheres com os olhos dos homens. A conquista da atenção feminina, da leitura e estudos de mulheres das questões de sua própria literatura é muito maior do que o mero narcisismo.

“Me encolho no canto cansada de mentir
Tudo o que eu queria agora era ver você partir
Mas menti pra mim muito mais que gostaria
Quando tentei dizer adeus, conheci sua pontaria
Há um lago vermelho ao meu redor
No chão, no meu cantinho, entendo que acabou
Tudo o que eu tentei, eu dei o meu melhor
Agora um corpo morto é tudo o que restou
Então eu minto outra vez que foi tudo culpa minha.”

Um aporte: eu, Maya e Andrea somos brancas. Falo aqui de feminismo branco, de vivências de mulheres brancas. Ainda que em outros lugares sejamos taxadas como latinas. Ainda que existam tretas infinitas dentro dos movimentos feministas atuais quanto a isso. Minha questão aqui é assumir que posso ser racista em alguma fala nesse texto e, desde já me desculpar e pedir encarecidamente, que se alguma mulher negra se sentir ofendida com qualquer coisa aqui, pode dizer que será revisto e modificado. O primeiro passo para as mulheres brancas é assumir o quanto podemos ser e somos, muitas vezes, racistas em nossas falas. As mulheres que aqui me refiro quando falo sobre política são brancas. As mulheres brancas não leem autoras brancas. E muitas vezes leem mulheres negras para lhes apontar “erros” e sabotar o movimento alheio. Isso é fato.

Voltando.

“É história, mito, mãe.
Foi um dia.”

Enquanto Maya nos citará a história, com letra minúscula inclusive, pois não é a disciplina nem o campo de estudos, mas uma história no sentido de narrativa nossa, de mulheres, que foi subjugada, afundada, sobreescrita, mas retorna como mito e, sobretudo, como mãe. Como avó. Como bisavó.

“Pés descalços, em feridas das pedras
pontiagudas da vila
Pelo leite e pelo pão, as mulheres murchas
envelhecidas faziam fila
Era pouco, quase nada, em lágrimas
densas saía a mãe da mesa
Engolia o luto da vida perdida, do filho
consumido de fome e pobreza”

A família feminina, os laços de sangue, a ancestralidade que nós, mulheres brancas, não desenvolvemos, ou tratamos de maneira bem menor em nossas politizações do lado de fora de casa. Ir à rua é uma sensação maravilhosa de liberdade, não tiro a razão nem critico a luta das mulheres que vão pra rua lutar por direitos de todas. Jamais. Porém, meu questionamento sobressai nesse âmbito interno que é o lar, a casa, os laços familiares, as relações com as mães, as avós, as bisavós, nossas narrativas vem de onde?

“Não quis o destino dar-lhe esperança
Encheu-lhe o ventre e a casa de rebentos
sem instrução
Sofria com a expressão do desespero no
rosto cansado de cada criança
Cada doença da água estragada e comida
faltosa lhe feria o coração
Diziam-lhe que era escolha sua porque se
quisesse nenhum filho faria”

Novamente, a política não se atém aos âmbitos privados do desejo, do corpo, da mente, das emoções e do inconsciente. Isso são outros quinhentos. E isso é sobrevivência. E isso não é “sagrado feminino” de final de semana. Isso é pra vida inteira.

“Um prato vazio de comida sobre a mesa
quebrada da casa que ia se esvaziar
Dos filhos, famintos, sem chance, os que
viveriam iriam roubar
Ela, fraca e sem brilho, da vida maldita
que Deus lhe deu
Abraçou o diabo com força, pedindo a
bênção de quem já morreu
Os panos que separavam os quartos
testemunhariam sua depressão
Seu corpo entregue aos homens com bom
dinheiro e sem coração
Como você lida com seu trauma?
A mim não foi dado o direito ao erro
Cada palavra deslocada, uma condenação
Ai de mim, se paro ou corro
Não há escolha, nem perdão
Como você lida com sua escrita?
Não reconheço meu rosto no espelho,
meus dedos se movem sem eu controlar
Eu paro perdida no meio do nada, com a
alma ferida, eu quero gritar
Sei que nada disso é verdade, tô presa em
minha mente, ninguém vai me salvar
Seguro meus braços em prantos, meus
dedos malditos me farão me matar
Minha mente que grita assustada, perdi o
controle, não sei pra onde ir
Você escreve?
Rompo um pouco de pele, liberto a ferida
que tá dentro de mim
Rubro, escorre aquecido, corpo
umedecido já posso prever”

Como você respira?

“Não tenho mais energia pra minha vida retomar
As marcas do meu corpo não são visíveis a quem vê
Tenho medo do seu jeito, tenho medo de você
Sua posse se tornou o meu cárcere.
Como você vê o mundo, vocês mesma, as outras mulheres?
Camuflo meus dias sem glória ou calor
Meus sonhos distantes estão alucinados
Tiraram-me tudo, restou-me o torpor
“Velha”, gritam-me sem piedade
Faltam-me anos pra juventude voltar”

Como você lê as outras mulheres?

“Retomo, reclamo, insisto de novo até alucinada”

“E pelo que sei, em alguns anos, vocês também não saberão meu nome. É a verdade sobre as mulheres.” (Andrea Dworkin)

“É história, mito, mãe.
Foi um dia.” (Maya Falks)

Sobrevivemos, Andrea. Somos, Maya.

Mariana Belize

Projeto Literário Olho de Belize

PS: O vídeo de Andrea Dworkin, legendado na boa e velha língua portuguesa:

O Olho de Belize ouviu: “Rio escuro”, álbum de Giovanni Iasi e Pedro Iaco

“Mergulha!” – é a mensagem. – “Mergulha de olho fechado.” Esse é o tom maior do álbum “Rio Escuro”, essa pirambeira de Giovanni Iasi e Pedro Iaco.

Das duas, uma: ou mergulha ou não ouve. Não tem como só molhar o pezinho na beira. Não é piscina de bolinha nem piscinão azul de condomínio. Tá já no nome, rapá. “Rio Escuro” é assombro, fúria, tenacidade e loucura. Rito.

Ouvindo “Por Acaso”, você quase não sente, é ainda um ensejo, um introito, uma entrada. Engana. Quase você acha que não vai acontecer nada… E é aí que você, feito um peixe com a isca na boca, relaxa.

Aí a Assombrosa é o anzol. Ela vai barulhar tua vida, igual como se você fosse uma concha com o mar morando dentro. Mas não é mar, é rio. Então é doce, docinha e dolorida. E você continua. Segundo Pedro, em entrevista improvisada pra minha pessoa, “essa é bomba atômica do duo”. Não duvido.

Percebeu que assombroso é um negócio que te deixa esquisito? Sem saber se é bom ou ruim? Ele suspende teu juízo de valor. É uma pedrada na vista do crítico, uma luz que cega o bom juízo. A voz é doida e dolorida em “Assombrosa”. O nome da música não é exagero algum. É o piano que canta.

Ou melhor, o piano é que dá a letra. No início, parecem dedos cutucando o corpo do ouvinte: “Tá acordado? Tá acordado?”

É uma sensação engraçada porque você sabe, meu caro leitor, que os burgueses adoram álbuns “meia bomba” como adoram romances “água-com-açúcar” pra ler e ouvir em casa, “no conforto de seus lares”, bem longe de qualquer coisa que pareça ou cheire à gente. Uma música como “Assombrosa” faz esse ouvinte tão pleno se jogar do oitavo andar. Não são duas mãos cutucando, é uma multidão de sensations, bases, toques. Tem suor. Essa música não foi parida facilmente. Uns anos de trabalho de parto. Horas e horas. Dá pra ver que ela tem uma obsessão. Não é fácil.

Vai, a gente deixa. Aperta o repeat. Ouve de novo pra nascer de novo.

Na verdade, a maioria das pessoas morre de medo de arte que cutuca. Pessoal gosta daquilo que se assiste feito televisão. Você morre ali sentado na poltrona e a televisão segue seu ritmo ininterrupto de imagens e conquistas e decibéis e fluxos e de vários nadas.

As pessoas costumam ter medo de música que cutuca. Às vezes, o cara está tocando e nem tá vendo as pessoas. A maioria gosta de música de elevador, aquela que não incomoda, nem parece que tá ali, mas cobre aquela “torta de climão”, como dizem os jovens, que é um espaço como o elevador. Enfim, no teatro seria o correspondente ao ator que acredita em “quarta parede” e faz a peça pra ele mesmo. Sei não… tudo muito clean… uma higienizações meio escapistas… uma eugenia de sons…

Mas “Assombrosa” não acabou ainda. Depois que você está incomodado, vem a voz e você, ouvinte acostumado à nossa música popular brasileira de rádio-mpb-é-tu-do, você fica esperando a letra. E vai deitar pra esperar. Bom, letra tem. Só que ela é ininteligível. Isso que é quebra de expectativas! Mas que prende a atenção, ah!, isso ela consegue desde o primeiro minuto. Pela curiosidade ou pela dor, você fica grudado.

Nem toda dor é de doer. Nem todo doer é de ruindade. “Assombrosa” é assistir uma bailarina dançando no gelo fino. Um cisne negro sob a lua.

Às vezes é dor de viver mesmo… Coisa que tem gente que não está acostumado.
Aí, tem o que parece um resmungo cantado, um choro, uma raiva, um canto largo solto no final. A letra mesmo é do piano.

E acaba do nada. Você fica em suspenso.

Ainda bem que vem a “Festança” depois. Se o álbum acaba na “Assombrosa”, você ia ver o que era uma insônia braba pra doer essa vida que a gente recebeu e ainda tá meio receoso de pensar nela. Ou o que equivale a ter lido alguma obra da dona Clarice Lispector. Same sensation.

Segundo Pedro, na entrevista, “Festança” é para respeitar esse choque ( de “Assombrosa”) e ter tempo de diluir.
Eu ainda tenho ouvido de ouvir uma uma risada no fundo, bem no finzinho da festança. Exu riu de quem sobreviveu. E vida que segue. Mas a festança acaba, viu? O rio continua… Sem pabulagem.

(A resenha que tem no site deles é muito mais ordeira e límpida, explica os métodos com aqueles termos musicais tão bonitos… mas que não entendi patavinas. Ainda existe “patavinas”? Não sei, mas a resenha bonita tá aqui, ó: http://www.iasiaco.com/show )

Mas segue aqui também. Até a bagunça tem seu método.

Voltando, comento da risada no fim da “Festança”, uma coisa meio “Roxanne” do The Police, que tem uma risada no início… é porque a gente fica ouvindo as músicas gravadas em estúdio com o áudio tão límpido, parece que não tem gente fazendo a música, a música é maquínica a ponto de parecer em gravidade zero, uma câmara de áudio. A eugenia de som que falei lá em cima. Um exagero de silêncio. Ninguém ri, tosse, espirra nem nada. Às vezes falta uma agulha no vinil.

Ou no cantor.

Segundo Pedro Iaco, “Enquanto dorme”é o travesseiro da Jumbalalão.

Pergunto ao Pedro Iaco se “Jumbalalão” tem algo com o Guimarães Rosa, mas ele diz que não. A música é doce feito algodão doce. Uma melodia de mel mesmo. Fácil relacionar o nome a Dão-dalalão do Guimarães. A linguagem é brincadeira de criança.

É um carinho de mistério, uma brisa de manhã doce. Um aloe vera. O cantar de uma seda.

“Pétala de rosa” é um amor só! Um samba íntimo, de segredinho.

Em “Chet Parker”, a voz conversa com o piano. Uma brincadeira entre velhos amigos. “Chet Parker is here today”? Ouvi certo? “Is here to say?” “Is here to stay?”

“Florescer” é pungente, uma colheita de augúrios. Segundo Pedro, “é a lágrima do orvalho” e “o tempo fez-se rei”. A delicadeza toda em síntese. Poesia em botão.

Ainda bem que “Cordilheira” vem consolando depois. É uma andante, como aquelas de Baudelaire… passagens, caminhadas, passadas largas, mas não por pressa… Por alegria no caminhar. Uma música de andarilhos, estrelas que pinicam o céu inteiro e se movem por dentro da música. São vários andantes inclusive, que se entrelaçam, às vezes caminham pelo mesmo passo, mas logo se separam, enfim. Dinâmica.

Segundo Pedro, é um “trem-bala da Venezuela até o Chile em 1 min” e ante-sala de “Abismo”.

Iasi Iaco-57

Segundo Pedro, “Abismo” é porque tem que entalar no fundo do escuro.

“Abismo” é. Um cântico. E por que escrever, se já ouvir é a experiência total? A letra inteligível esconde nas metáforas a escuridão que digere a poesia, o encanto e a beleza que, de tão fremente, chega a parar o andarilho, a agulha no vinil, o compasso. É uma quebra no ouvinte, enquanto a harmonia permanece de pé. É um tornado que derruba o homem, mas mantém a casa. “Abismo”, ainda assim, é um abraço. É um raridade encantada.

As duas vozes compõem braço esquerdo e direito, trabalham juntas, embora soe difusa a discordância de linhagens. Essa coisa escusa que vaza atrás da letra não tem nome. Um violão engana o ouvinte mostrando um passo seguro, uma ponte sobre o abismo. E ele segue, ainda que balançando.

Sem perceber saiu da caverna, mas não há sol que o cegue. É a escuridão amiga que brinda ainda a ignorância com alguma ilusão para aquele que não quer ver. É a lua, ainda escondida, mas como carta de tarô ela ilumina o tolo, o cachorro, o louco e as mulheres.

“Abismo” é rito. Renascem nossos instintos mais obscurecidos pelo tempo cronológico, mas que, para o inconsciente, ainda foi ontem. A noite traz animais noturnos de olhos brilhantes, abismos entre as mãos dos amantes que não se encontram, uma oração que se perdeu na linhagem. A letra mata.

“Pulso ofegante”

Mito, medo, morte, horror. “Abismo” nos faz passar por todo terror noturno, mas livra-nos das setas que voam ao meio-dia.

O primeiro som do homem foi um grito e continua sendo, ainda hoje. O pranto inabitável, a dor do desejo inalcançável. O amor inacabado não é uma balada. O amor é.

“É no fundo que vou desmanchar”

Não tem diálogo. Assim como na vida, as duas vozes se entrechocam, ainda que combalidas. E dor e amor e afundamos na negra noite.

“Sepulcro em alto mar”, eu já ouvi isso em algum lugar… Será que é a Beleza que nos protege do Horror? O sol nascerá.

“Me alucina como fosse aliviar”

A luz também não é salvação. É luz de deserto, quentura seca que não deixa nem transpirar. Respira poeira, mas não entra ar. Mas segue.

A poeira do deserto, o que mata, é a solidão. Mas canta.

“E a dúvida,

e a dúvida

e a dúvida…”

Nessa altura, as vozes se entendem, repetem entre si suas estrofes numa tentativa de consonância.

“ó dor

que me põe

soterrada no claustro

a minguar”

Aqui, quem fala? É a lua? Não sei.

Só sei que é mulher… um artigo feminino não falha nunca.

Sigamos para encontrar as dissonâncias de “Minha viúva”.

As últimas teclas do piano como taças de cristal se envergando e vão quebrando, quebrando… A voz enlutada não é pelas taças.

É pela alma.

“Nana, neném…”

A música, depositada em nosso imaginário, sai do senso comum e bate na porta da morte. Trágica.

Tem faca, tem igreja, “velório no altar”. Uma disritmia incômoda.

“aceita o azar”

Outra voz. E muda tudo. Vozes alteradas destrianguladas. Estranguladas.

De repente… Nani.

Voltamos aos vocalizes melancolicamente doces.

Sobre cada obra que escrevo me transforma de algum jeito. Existe numa transição que esse álbum me trouxe que veio em boa hora. até para rever questões de linguagem neste projeto. Deixar a resenha seguir o tom que a obra de arte pedisse e não o contrário. Não ousaria chamar meus textos de “ensaios”.

Mas, confesso que, ao mesmo tempo, não sei se banco essa linguagem nova. Essa coloquialidade, falta de referências bibliográficas que afasta o texto da estrutura acadêmica, o tom coloquial é correr o risco de tentar uma prosa poética na minha linguagem. E errar em tudo: na prosa, no poema, no artigo.

Ao mesmo tempo, a estrutura de artigo científico não parece combinar com a estrutura das músicas e, como crítica musical soaria falso, já que não sou musicista. O projeto é literário. A forma da análise pretendida é para arriscar-se em responder de várias maneiras, inclusive contraditórias entre si, à questões de como as artes impactam no corpo e, para além do corpo, na alma. E como escrever isso. Como descrever isso da melhor forma possível, ainda que passível de erro, distração, discordância, ruído.
Sendo assim, Iasi e Iaco, aceito a linguagem que me trouxeram.

Esta sinestésica linguagem na contramão da voz e da palavra como signo. É costumeiro achar que toda música tem que ter letra. Ou sem letra, ser instrumental.

Em “Rio Escuro”, há voz, porém é um vozerio que não é literal, de estrutura chapada.
O vocalize utilizado nesse álbum é uma contramão. É voz, mas como instrumento musical. Umas vozes nascidas antes das palavras, das frases, dos termos técnicos.
É o balbucio, é o desejoso chamuscar da língua, é o chororô… Um resmungar rítmico titânico. Do Tempo.

O que eu sei, Rio Escuro, é que voz, poesia e música em algum momento eram uma coisa só tanto para o prazer, quanto para o horror.

E, pra mim, é o que este álbum tem de melhor: o resgate da capacidade de sentir, ainda que doa. Que doa, que doa.

Mariana Belize

Ficha técnica

produção artística: emiliano castro

produção executiva: pedro iaco

fotografia: guilherme castoldi
tutoria: walmir gil e wagner barbosa
gravado entre dezembro de 2015 e agosto de 2016
faixas 4 e 9 gravadas ao vivo no Estúdio Monteverdi por Mehmari
Técnico de gravação Zé Godoy
Mix e Master por Homero Lotito

O Olho de Belize ouviu: “Além do princípio do prazer”, de Pedro Sá Moraes

Estou sempre atrasada. Eliminando um pouco do tom professoral destas partículas de textos que posto por aqui, hoje venho falar sobre o álbum de um dos músicos que mais admiro na MPB, esta música nossa rebelde que não cabe no rótulo que lhe deram e graças a todos os Deuses não cabe ou estaríamos perdidos,

mas onde eu estava mesmo?,

20131pedro_sa_moraes_a_hora_da_estrela_single

ah! Sim, então, o álbum é “Além do princípio do prazer” do músico Pedro Sá Moraes. O álbum é de 2014 e já em seu título nos dá a senha não de um tema, mas das provocações que virão pela frente. É Freud!

Ouça mil vezes e, ainda assim, vai te cutucar todas as vezes. Em cada letra, ritmo e desarmonia seu corpo vai gingar sem que você perceba. Tem beleza destoante, ainda bem! E assim, arrancados do lugar-comum, ouviremos melhor esse mote e glosa que se anuncia.

20131118_Pedro_0038-PS_Alta_CredTomasRangel

“Pra nós” é a quinta faixa do álbum e foi escrita por Pedro Sá.

Uma balada dissonante em seus entremeios. Há um clima de um tédio entre apaixonados, um pós-apocalíptico desistente olhando pela janela. Canção de amor sem esperas. Sem cobranças, a não ser ao tempo. E mais dissonâncias entre assobios. “Anseios trágicos”. Um tempo que se deseja aprisionar porque aprisionado não traria o futuro.

O que mata a paixão nada mais é do que o tempo. Para os apaixonados, o que se deve temer nada mais é do que, justamente ele, o tempo já que

“o tempo traz anseios e dúvidas”

Ouçam “Pra nós”:

Respirou?

Agora, vamos voltar três músicas atrás e ouvir a primeira faixa, cabeça do álbum escrita por Pedro Sá Moraes e musicada por Thiago Amud.

Amud esse cuja assinatura é visível em tudo que faça. Impressionante esse “ALARIDO”.

Tem uns incômodos nessa vida que não machucam, só sacodem a gente em lugares desconhecidos. Esta canção é isso. Misturando elementos visuais e sonoros, bantus e cristãos, a experiência sinestésica é inevitável ainda que se use o mínimo de imaginação.

Palavras não faltam. Mais dissonância. “Cê já vai ter os nervos no diapasão”

Tenho não.

Mas o alarido assusta assim, de primeira, o desacostumado às naturezas rítmicas mais devotadas à natureza do que à harmonia matemática. Ainda que as duas convivam apartadas em nossos positivismos, dentro da música tudo é possível.

“Quando enfim tudo mais ressoar outra vez”

A gente às vezes quer ficar surdo, Pedro.

Mas “Além do princípio do prazer” é pra desistir dessa ideia vil, pra distinguir “tom de cor, amor de ardil, deus de algum egum”. A distinção é dolorida, ainda que sejamos sóbrios, lúcidos, pacatos, parados.

Ainda que estanquem. Tem horas que a sangria tem que arder.

E como arde o alarido no tímpano da alma. Mas “se a razão corriqueira interferir…” Carregue sua “serena atenção” e ouçam aí:

O mundo. Arcano do tarô, ser de silêncio enquanto gira, gira sua roda de Fortunas para todos e, longe dele decidir que ganha e quem perde.

“As milhões de opções atuais

Não tem mais

Restrições sexuais”

O mundo hoje, agora, nesse sentido já foi-se. O futuro é agora, infelizmente e mataram as utopias.

“Não tem mais coronéis”

Mas continuamos em Ditaduras.

“Nunca mais tradições”

Ocidente ruído.

“O presente é um sítio de vídeos virais”

E memes.

“Pra ninguém, pra você

Essa marcha ímpar

Não quer que o mundo mude

Mas sabe que a inquietude é uma flor

A se plantar”

Um álbum de 2014.

E talvez eu não esteja tão atrasada.

“Não tem mais

versos bons ou banais

Distinções aliás

de mil e oitocentos

Verdadeiros sentimentos

não admitem restrições…”

E Pedro estava no present tense, tenso nosso tempo, quando escreveu.

É a chama?

“Nós temos o privilégio de servir aos corações” e nunca soube se isso é uma ironia.

Nem saberei.

Mariana Belize

Ouçam tudo do Pedro Sá Moraes aqui, ó: https://www.youtube.com/channel/UC-egXvSxtbr0gfZ9IWX5ofg

 

O Olho de Belize assistiu: “Chão de pequenos”, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro

A Companhia Negra de Teatro apresenta na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, a peça “Chão de pequenos”, numa curtíssima temporada entre 11 e 14 de maio, às 19 horas.

3b1a8f04a3f572d15ed66102811cf921

A luz, em um espetáculo de tamanha sensibilidade, consegue levar o público para dentro de todos os ambientes nos quais as cenas se passam, do orfanato à rua, do voo compartilhado e imaginado pelos meninos, as asas jovens que se espráiam também na luz trazem sombras e significados múltiplos.

A composição entre o cenário minimalista e as luzes foi feito de maneira delicada e convergente a que o trabalho dos atores em cena fosse tomado por uma naturalidade, um tom lúdico em alguns momentos e, em outros, o cenário deu às cenas um peso tão grande, como por exemplo, quando os atores colocam sua cabeças dentro dos armários de ferro. Uma claustrofobia que pega a platéia na mesma hora demonstra o nível de sufocamento a que as crianças estão sujeitas não apenas metaforicamente. Mas ao mesmo tempo os mesmos objetos são ressignificados em várias outras cenas, tomando as feições de banco, de carros, de plataformas e essa interação do cenário com o corpo, desmecaniza a ideia de cenário parado e impecável, trazendo-o para as vias de realização com o ator ali, ao vivo.

O refletor com o gobo em formato de grade naquele ângulo específico trouxe não apenas a sensação de confinamento e prisão, mas deu às cenas um aspecto onírico. É como se não apenas os corpos dos meninos estivessem enclausurados, mas as imaginações, sonhos e espíritos.

1424d6b7-3c58-45cb-8d17-7cee6e991141

O espetáculo não é chapado, tabula rasa de piedade e apatia diante da realidade. Teatro não é documentário científico e toda a emotividade presente no trabalho de corpo dos atores demonstra isso a todo momento, a empatia dos atores transpassa a platéia nos personagens construídos em conjunção plena à extrema sensibilidade do texto com o tema tão árduo, as personagens profundas com camadas dialéticas entre risos e revoltas, brigas e abraços. Meninos de ventania e brisa. Pássaros de fúria mas também filhotes caídos do ninho chamando “Manhê”. O orfanato como prisão do corpo, da infância tolhida e dos afetos infantis e os personagens com camadas, antitéticos entre maturidade e infância, uma puberdade nascente que se insinua, mas também o vazio do abandono em cada cena.

O texto é sinuoso diante das personagens em formação e os atores com interpretações maduras não deixam a desejar em nenhum momento. O som impecável, em total consonância com os atores e seus corpos, áudios sem ferir os tímpanos, ao mesmo tempo que as gravações iam trazendo cada vez mais vida para dentro do texto, das atuações, das performances dançadas. Uma dança também que é calcada num âmbar da iluminação e no chiaroscuro muito bem trabalhado. Consonância total é o que se pode dizer de todos os aspectos da obra final mostrada à platéia.

Os atores não forçam contato com o público, nem caricaturas, muito menos trazem trejeitos infantis aos personagens. As crianças que também fomos, eu e platéia, nos doem. Elas saem de onde nós, os “adultos bem resolvidos” as prendemos e vão voar com os sonhos dos meninos.

e8dfc91a-1abe-44c4-981f-aa23a93ad200

A crueldade cotidiana a que nos acostumamos, eu e platéia, e que compartilhamos em amarguras e perversidades, cruezas humanas indesculpáveis de seres, nós os dessensibilizados da dor alheia. Torturados de solidão e abandono, entre brincadeiras nas milhares de ruas e a vida pulsante nas vozes, gestos e palavras, a respiração dos atores mostrou as inocências roubadas… Os personagens estavam nas respirações e isso é que mostra a extrema dedicação ali presente no palco. Isso mostra o trabalho inscrito no corpo dos atores.

Os personagens não são metáforas, são metonímicos. Dois que representam muitos. As vozes dos muitos que não ouvimos, encarcerados e nós também cerceados em cotidianos e trabalhos ásperos, asquerosos, alienantes, que treinam nossa crueldade cotidiana para sempre estarmos armados.

O teatro vem e nos sacode, tira da zona de conforto. “Eu quero é que esse canto torto corte a carne de vocês”. Mas também alenta e conquista a criança que nós, adultos “bem resolvidos” afugentamos. Os sonhos, as noites, a quietude que buscamos e que tão pouco cultivamos. Os meninos tem em nós, platéia, forte reverberação no mais íntimo que negamos e esquecemos: a infância.

33608001301_5ab0270108_k

Um teatro de jovens consegue trazer de forma emocionante um tema sensível como a orfandade e trabalhado de maneira a exercer não um pensamento social superficial ou uma mera lição de moral que fosse esquecida assim que saíssemos do teatro. Muito pelo contrário, indo no emocional, a peça consegue cativar a empatia e, mais além, a alma da platéia, tirando o melhor de nós, que estamos imersos nessa sociedade dessensibilizada de todo horror que nos rodeia o tempo todo, mas que não vemos. E, se vemos, não nos movemos. O racismo posto em cena de forma tão crua também nos faz ir além da reflexão, forçando a tomada de posição da plateia não para os outros, mas para si mesma.

“Depois dos quatro anos aqui (no orfanato) todo mundo é velho.”

Mariana Belize

Ficha técnica:

Direção: Tiago Gambogi e Zé Walter Albinati

Concepção e atuação: Felipe Soares e Ramon Brant

Dramaturgia coletiva

Textos: Ana Maria Gonçalves, Felipe Soares e Ramon Brant

Provocação dramatúrgica: Grace Passô

Direção de movimento e preparação corporal: Tiago Gambogi

Iluminação: Cristiano Diniz

Operação de luz: Eliezer Sampaio

Trilha sonora original: GA Barulhista

Operação de Som: Diego Roberto

Figurino: Bárbara Toffanetto

Cenografia: Zé Walter Albinatti

Cenotecnia: José Soares da Cunha

Direção de Produção: Aline Vila Real

Projeto Gráfico: Estúdio Lampejo

Assessoria de comunicação: A Dupla Informação

Fotografia: Lucas Brito

Registro Poético do processo: Bremmer Guimarães

Realização: Companhia Negra de Teatro

Adorno em Amud: o ensaio como música

“lua plena, céu de Vieira”

Debruçada sobre essa janela que é “De ponta a ponta”, álbum solo mais recente de Thiago Amud, descubro que os críticos já decifraram tão tranquilamente seu tema. Decretam que é sobre o Brasil e, como toda obra de arte que desvela e lê nosso território, foi deixado de lado o mais rápido possível, as análises todas sempre eficientes em deixar vazar o mínimo possível do contra-óbvio do álbum.

“país de saúva e mar/ vivi pra te desvelar”

Assim como esquecer sem conhecer as suas milhares de nuances, sem cair em mesmices, mesuras, medalhas nem grandes esperanças.

“aqui um mundo perdido/ geme num búzio perdido”, aqui é de Murilo Mendes, mas cabe feito luva como comentário pra esse trabalho de Amud.

Neste texto, sem pretensão alguma de crítica exclusivamente musical, muito menos de análise (não entendo o idioma amudiano), caio numa outra tentativa de construção de linguagem escrita, desde sempre minada de dúvida, desejo, espírito e excessos.

Este texto se quer mais como um diálogo entre a obra amudiana e o texto “O ensaio como forma” de Theodor Adorno. Este texto é uma tentativa de provar que a música de Amud é um ensaio sobre o Brasil, mas um ensaio de moldes adornianos (se é que Adorno cria molde de ensaio, mas enfim…).

Sendo assim, o leitor será apresentado a trechos, frases, palavras tanto de Adorno quanto de Amud. E do Olho de Belize, apenas os recortes e a maior delicadeza possível no tratar dos fragmentos.

“quebranto na vertente das montanhas”

“Os impulsos dos autores se extinguem no conteúdo objetivo que capturam. No entanto, a pletora de significados encapsulada em cada fenômeno espiritual exige de seu receptor, para se desvelar, justamente aquela espontaneidade da fantasia subjetiva que é condenada em nome da disciplina objetiva.” (ADORNO, p.18)

“país de febre e luar/ morri pra te decantar”

Numa das pós-leituras de “Ensaio como forma” de Theodor Adorno em Notas de Literatura I, intrigou-me escrever sobre. Ou seja, na verdade, os objetos “Estigma”, “Devastação” e outras músicas do álbum serão motes para pensar sobre o ato do ensaio e, sobretudo, tecer dúvidas, redes de significados e transversalidades poéticas entre Adorno e Amud.

“Talvez sua fala
Se alastre na mata
Que nem um incêndio
Mas entre fogo e palavra
Cadê o tempo?”

Este texto pretende cultivar algumas das interlocuções possíveis, embora não haja senhas dadas gratuitamente, como em tudo no trabalho de Amud e em “De ponta a ponta” não seria diferente.

“O ensaio não apenas negligencia a certeza indubitável, como também renuncia ao ideal dessa certeza.” (ADORNO, p.30)

“Tempo repousa há milênios
No vale da eternidade
Rumina todo o silêncio
Da paragem”

Resta ao ouvinte refinar afinando seu próprio ouvido ou correr o risco de se engolfar em desconhecidas metáforas, o que também não é, longe disso!, de todo mal. Ou nem um, nem outro. Afinal, “há sempre um copo de mar/ para um homem navegar” ou fazer procelas.

Resta a você sovar estas heterogeneidades?

“Talvez o seu bombo
Adormeça o relâmpago
E rache o cristal
Mas essa coisa toando
Foi um trovão”

Em todo álbum “De ponta a ponta”, Thiago demonstra uma sensibilidade órfica ao enumerar entre sambas, percussões e estigmas as realidades do imaginário turbulento do Brasil, inclusive nos questionamentos mais voltados ao contemporâneo. Porém, não é nisso que entraremos.

“grassou Saturno, tudo está em transe/ o presidente zambo, a musa louca”

Em primeiro lugar, as críticas que li sobre “De ponta a ponta” até hoje sempre ficam no ponto mais óbvio da obra sem citar o caráter palimpsêstico que a escrita de Thiago traz de tarrafa pra dentro das harmonias, ritmos e tons. Também não vão além no seu falar sobre o que é o Brasil da obra amudiana. Assim como temos um Brasil de Caymmi. Tem um Brasil que Amud pariu nesse “De ponta a ponta” e que já estava em Sacradança todo cifrado…

“De ponta a ponta”: veredas.

“No mês do carnaval nasci no ano dois mil
E abri mais uma estrela em teu pendão com meu fuzil, Brasil!”

“E o ventre do mundo aberto
Trazendo-me o novo filho
Hora vasta, tempo feito
Sol quebrando agora a barra
Mar que depara”

“teus flancos de Marancangalhas/ tua língua de Grande Sertão”

Assim como há os brasis históricos que se entrechocam nas narrativas, também há os brasis musicados entre hinos nacionais, canções do exílio e sambas-enredos…

E há o Brasil deste Hiram: construído desde a sacradança de procelas e marchas dos desacontecimentos até este de ponta a ponta do qual só veem o dito.

Arrisco indagar o não-dito?

“país que agoniza luz/teu nome é a minha cruz”

Escolhi “Estigma”. “Estigma” pesa. Primeiro pela posição que ocupa no álbum, depois da tensão de “A saga do grande líder”, “Estigma” é uma pedra fria de violinos e coros.

Permitam-me outro parênteses: quando escrevi sobre Sacradança, me vi à caça das referências, embora algum tempo depois tivesse desistido deste mapeamento hercúleo, ainda assim, a curiosidade me tenta em tudo que Amud que li. E ouvi. Por exemplo, em Fado de Bandarra:

“Lua velha, mal de Luanda
Torvelinho de mil algas assombrando a flor das águas
E a mão do destino incerto
Lavrando-me em suas tábuas
Portugal no vão do peito
Desconcerto de guitarra
Mar que separa”

Mas assumo: isso é um delírio enciclopédico que pouco interessa aos artistas e ao público ou à crítica. Entretanto, segundo Adorno, “quem interpreta, em vez de simplesmente registrar e classificar, é estigmatizado como alguém que desorienta a inteligência para um devaneio impotente e implica onde não há nada para explicar.”

“Tantas coisas não vemos, que existem
E que, tanto quanto somos, são
Pescarias, clarins para Dora
Maricota, Marina, Valentão
E esse travo da morte de tudo
E de tudo a continuação”

Acredito que a análise de partes que trabalham por um todo poético às custas de um tom enciclopédico da obra de arte faz despencar os significados do todo, ainda que ininteligível para alguns e transforma o texto em caça a um tesouro que é desnecessariamente buscado, ainda que com ânsia. Esse tom biologizante-cientificista é que não me interessa.

“E conheci a voz daquele chanceler
Notei nas suas têmporas sinais de Lucifer
Sujeito de palavra que auxilia quem mal quer”

O esforço por catalogar referências pode ser utilizado sim, para descrever outros detalhes e sentidos que se apresentam na obra de arte, mas não para definir, limitar ou esgarçar a obra de arte até exaurir sua sensibilidade prenha de sentidos.

“Nasci num paradeiro que chamavam de Brasil
No mês do carnaval de um já remoto ano dois mil
Tô velho e deslembrei do seio que murchei
Mas lembro das porradas sob as quais eu desmamei”

Daí entra uma tentativa de leitura de Adorno, sobre o exercício do ensaio e de como utilizar isso para atender melhor às leituras e pensamentos sobre as obras.  Como objeto, conforme já dito, temos “Estigma”, “Devastação”, entre outras letras espalhadas em fragmentos, como focos do álbum “De ponta a ponta”e também como cartas espalhadas numa mesa.

“Sou velho
Fui alçado pelo touro
E hoje a linhagem traída
E a força partida nos atos e músculos meus
Definham nas cátedras sob o conluio
Cultíssimo dos fariseus”

Segundo Adorno em “O ensaio como forma”, “o ensaio, porém, não quer procurar o eterno no transitório, nem destilá-lo a partir deste, mas sim eternizar o transitório. (…) No ensaio enfático, o pensamento se desembaraça da ideia tradicional de verdade. (…) Desse modo, o ensaio suspende ao mesmo tempo o conceito tradicional de método. O pensamento é profundo por se aprofundar em seu objeto, e não pela profundidade com que é capaz de reduzi-lo a uma outra coisa.” (ADORNO, p.27)

“Risonho, tresvariado
Depois de sondar arcanos oráculos teoremas
Escrituras e profundidades”

Vamos lá, Adorno. Nas linhas anteriores, ele vai nos dizer que “níveis mais elevados de abstração não outorgam ao pensamento uma maior solenidade nem um teor metafísico; pelo contrário, o pensamento torna-se volátil com o avanço da abstração.” (ADORNO, p.26-27)

“O poeta, todo ancho, lírico feito um demônio
Tatuou na cabeça dum alfinete
Os números ocultos constelados na miúda joaninha, ô”

Ou seja, o ensaio não é sobre abstrações a partir de um objeto, mas sim ele deve “testemunhar a própria não-identidade”, entre caracteres fragmentários e contingências totalitárias. O ensaio “testemunha o excesso de intenção sobre a coisa e, com isso, aquela utopia bloqueada pela divisão do mundo entre o eterno e o transitório.”

“Retumbante fole mudo híbrido de praga e prece”

Mas isso porque, para o ensaio, “todos os graus do mediado são imediatos, até que ele comece a sua reflexão”, e mais, “o ensaio honra a natureza ao confirmar que ela não existe mais para os homens.” (ADORNO, p.28)

“Quando, enfim, minha reza e meu gesto/ terão força pra te esconjurar?”

“O ensaio reflete o que é amado e odiado, em vez de conceber o espírito como uma criação a partir do nada, segundo o modelo de uma irrestrita moral do trabalho. Felicidade e jogo lhe são essenciais.” (ADORNO, p.17)

“Cê querendo eu sei um truque”

“Livre da disciplina da servidão acadêmica, a própria liberdade espiritual perde a liberdade, acatando a necessidade socialmente pré-formada da clientela.” (ADORNO, p.20)

“Vem ter uma ideia da epopéia que não acaba, vem
Vem que a gente sua
Pra te ver brigar e sentar a pua em Humbaba no meio da rua”

Adorno continua: “O ensaio (…) incorpora o impulso antisistemático em seu próprio modo de proceder, introduzindo sem cerimônias e ‘imediatamente’ os conceitos, tal como eles se apresentam. Estes só se tornam mais precisos por meio das relações que engendram.” (ADORNO, p.28)

“Só por causa dos teus espantalhos

As cidades sujaram as mãos

E de noite, pousaram nos galhos

mil fábulas tristes sobre os animais

A vergonha no espelho escondeste

Para os olhos herdarem os teus

Engendraste este estigma, esta peste

Trancaste-me as águas, vedaste-me o céu”

Ainda em Adorno: “O ensaio pensa em fragmentos, uma vez que a própria realidade é fragmentada; ele encontra sua unidade ao buscá-la através dessas fraturas, e não ao aplainar a realidade fraturada.” (ADORNO, p.35)

“A vergonha no espelho escondeste

Para os olhos herdarem os teus”

“(…) quanto mais o ensaio suspende o conceito de algo primordial, recusando-se a desfiar a cultura a partir da natureza, tanto mais radicalmente ele reconhece a essência natural da própria cultura.”(ADORNO, p. 39)

“Despertei, fui lá fora checar meu regresso
Um expresso corria no meu coração
O sol se retirava aqui de Bonsucesso
E um trem bala o levava de volta ao Japão”

“A descontinuidade é essencial ao ensaio; seu assunto é sempre um conflito em suspenso.” (ADORNO, p.35)

“esta peste”

“Fui sagrado pelo arqueiro
E hoje o silêncio trancado
E o sangue pisado por bestas e musas venais
Implodem de raiva e de dor no tumulto
Vastíssimo dos carnavais”

“O dia daqui
Bate no contratempo do dia de lá
Bem na hora em que o sol do Japão começava a sumir
Cá terminava a batucada
Então, fui dormir
E, porque não custa nada sonhar
Me acordei pra dentro e quando percebi
Entrei num túnel pra lá
Parei numa cidade”

“Escreve ensaisticamente quem compõe experimentando;

“Ingressei num trem bala destino Portela
Pra ajudar a Surica a fazer o sushi”

quem vira e revira o seu objeto,

“País de saúva e mar”

quem o questiona e apalpa,

“Mercúrio, chumbo e césio nas aguadas
Quilombos entocados na caliça
As alegrias azinhavrando as almas
País de febre e luar
Morri pra te decantar”

quem o prova e o submete à reflexão;

“Não permita Deus que valhas
Menos que o teu coração”

quem o ataca de diversos lados

“Teu morro será quase como fosse outro país
Um tipo de Hong Kong na aba de uma Ong
De iogues-comissários de gravata e de sarongue
E tu serás a lei! Oh, yes, I am the boss!”

e reúne no olhar de seu espírito aquilo que vê, pondo em palavras o que o objeto permite vislumbrar sob as condições geradas pelo ato de escrever.” (ADORNO, p.35-36)

“Às vezes um fogo me impele
Por dentro e eu lembro
Que há tempos não tenho pele que tisne
Às vezes eu canto em falsete
Mas são mãos do tempo
Torcendo meu gasganete de cisne”

“o ensaio se queixa, silenciosamente, de que a verdade traiu a felicidade e, com ela, também a si mesma” (ADORNO, p. 42)

“Quando, enfim, minha reza e meu gesto
Terão força pra te esconjurar
E quebrar tua imagem de pedra
Pra ter primavera ao invés de teu olhar?”

“A serena flexibilidade do raciocínio do ensaísta obriga-o a uma intensidade maior que a do pensamento discursivo, porque o ensaio não procede cega e automaticamente como este, mas sim precisa a todo instante refletir sobre si mesmo.” (ADORNO, p. 44)

“em meio a pedras, fogo fátuo e couro”

“[na cultura] se perpetua, até hoje, a cega conexão natural, o mito;” (ADORNO, p.39)

“Vou esconjurar o pesadelo da história
Para maior glória desse povaréu
Hoje é quando o sonho engolfa a memória
E eu beijo a escória
E devoro a carne de mito e de medo do Touro do Céu

Hoje o Ocidente não me serve de escudo
No furor do entrudo eu vou me acabar
Não sou nada, o mito é o nada que é tudo
Tô vivo e desnudo
Pra ser devorado por sacerdotisas da deusa lunar”

“por isso, para o ensaio, a origem vale tão pouco quanto a superestrutura” (ADORNO, p. 39)

“ali só restam pássaros d’agouro/em cada frincha, em cada vão de ossada”

Para além de estruturas e formas, “a atualidade do ensaio é a de um anacrônico. A hora lhe é mais desfavorável do que nunca.” (ADORNO, p.44)

“Devastação – e o Anjo não assoma
As horas passam, o ar fica trancado
No fosso, na garganta, no epicentro”

Nada do que foi proposto no início se deu porém, “o ensaio tem a ver, todavia, com os pontos cegos de seus objetos.” (ADORNO, p.45)

“E os olhos carcomidos de glaucoma/ Nem sabem se é o mundo devastado
Ou se é a vida definhando dentro”

“Apenas a infração à ortodoxia do pensamento torna visível, na coisa, aquilo que finalidade objetiva da ortodoxia procurava, secretamente, manter invisível.” (ADORNO, p.45)

“Adeus Anu-u-u-u-u-u-u
É quarta-feira no Vale do Ur
Javé traçou a meta
Abraão levou a Sara
Hebreus em linha reta
Babilônios no samsara”

Mariana Belize

  • Referência bibliográfica:

ADORNO, Theodor. O ensaio como forma. In Notas de Literatura I.

  • Onde ouvir Thiago Amud: http://thiagoamud.com.br/de-ponta-a-ponta-tudo-e-praia-palma/

 

  • Ficha técnica de “De ponta a ponta tudo é praia-palma”

Voz e arranjo – Thiago Amud
Violões – Luis Leite
Violoncelos – Pablo de Sá
Contrabaixo – Guto Wirtti
Acordeom – Ivo Senra
Adufo – Sergio Krakowski
Surdo – Lúcio Vieira
Sopranos – Aline Ribeiro, Cintia Graton, Luisa Suarez
Contraltos – Calu Silveira, Cintia Graton, Déborah Cecília
Tenores – Anibal Mancini, Douglas França, Leonardo Taveira
Barítonos – Allan Souza, Leandro da Costa, Pedro Moraes

 

O Olho de Belize leu: “Rascunhos de Revolução”, do poeta Alan Salgueiro

Embora digam os puristas que poesia política é poesia datada e, portanto, sem algum “valor” depois de sua época, é importante notar que os eventos políticos que acontecem no Brasil e, em termos mais gerais, na América Latina, parecem sempre refletir a ideia de que “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. A frase dita há cerca de 50 anos Ernesto Che Guevara (a frase original é de Edmund Burke) é sempre atual no que concerne ao contexto brasileiro. Além disso, o juízo de valor dos puristas estudiosos e críticos não bate em poetas políticos e, quase sempre, de direita, que proferiam as maiores atrocidades no quesito político e poético. Então, me dou o direito de exercer minha crítica a poesia de Alan Salgueiro largando os puristas de mão e fazendo a análise de coração e carregando bandeira, coisa de mulher também, pasmem.

Alan Salgueiro é uma das vozes políticas da Baixada Fluminense, mas não por questões partidárias e sim por estar conectado às questões que envolvem a sociedade brasileira como um todo. Indo do macrocosmo ao cotidiano, Alan devolve a nós, leitores, o grito que guardamos a cada vez que uma utopia nos faz sonhar enquanto a realidade nos oprime.

UMA LUZ DE FIM DE TÚNEL

Uma luz de fim de túnel é também início
Assim como descer nem sempre é fácil
não é toda certeza que dá segurança
nem sempre a manga longa vai deter o frio

Chega cedo na praça pro aquecimento
No meio do caminho havia um contratempo
Como de costume a chegada é na raça
O Centro estreito espreme e instiga essa toada

No estampar do prêmio nossos dedos se assemelham
Um clarão nos atinge no escuro da rua
Quem dera fosse em postes que morasse a lua
O breu do céu faria a gente mais insone
Eu trocava dormir por arrumar a pista
E mais uma vez ficaríamos juntos infindos quilômetros.

Com um olhar sincero nos versos, seu eu-lírico é dinâmico, como páginas de jornal ao vento. Sua leitura do que nos cerca tem um viés quase jornalístico, mas sem o sensacionalismo…

Alan é fiel à sua visão e, se sua revolução ainda está aos rascunhos, não é por conta da realidade, mas por sua atenção aos detalhes que passam despercebidos aos nossos hipertextos e desatenções. Versos de esperança e caminhada contínua. Ele sabe que a revolução não será televisionada e que será uma constante e poderosa energia de renovação para todos os povos.

NO ATERRO

Faz das pernas motores
Acelera, mas de forma lírica
Faz dos pedais a esperança cíclica
Na pista o suor por momentos melhores

O músculo exausto franzido do rosto
Avista o Pão-de-Açúcar no quilômetro oito
Exorciza os maus agouros
E contempla a natureza

O nó no cadarço finca a senda
enquanto a massa, presa na garrafa
tenta encontrar a fórmula
Eu adentro feito ninja o Aterro do Flamengo

Nas costas minha casa
Ultrapasso sinais de fumaça
Contra o colapso de angústias que se configura
o perfume de eucaliptos se espalha

Se isenta do cansaço
Corre assim junto ao meu lado
A volta ao mundo pode ser
Simplesmente a nossa dança

É um poeta que trabalha arduamente em metáforas e suas apresentações utilizando aspectos teatrais e estratégias lúdicas são sempre prazerosas ainda que lide com temas complexos, tensos ou que, muitas vezes, estamos alheios como, por exemplo, suas subjetividades expressas em gestos, mas pouco em falas.

ACIMA DAS SERRAS

Acima das serras
minhas guerras internas se dissipam
As nuvens convertem a incerteza insípida
em tranquilidade e calmaria

Perto do céu nós estamos mais vivos
Do alto das colinas se respira o alívio
A avenida se ilumina com os astros
Nossos passos viram fogos de artifício

Desliza de pantufa sem perder a pose
Desmancha ao céu da boca um biscoito doce
As vitrines se enfeitam de estrelas
Entre o altar e os vitrais a gente faz a prece

Tanta gente que aparece em meio a nossa foto
Tem pingente na feirinha de artesanato
Nossos laços se renovam de frente ao palácio
Querer se acocar por lá é coisa lúcida

Pipoca na praça amanteiga o passeio
Aperta mais o passo pra partida às oito
O desejo que fica é de uma breve volta
Desce da brisa fresca que amanhã tem praia

E mesmo que o sono te esconda as montanhas
teu amor tem grandeza tamanha
que me faria proclamar algum decreto
se eu fosse rei e isso não fosse algo secreto
De confrontar teus olhos sempre com o inédito
E fazer do teu coração o meu império

Alan sempre falou de amor em seus poemas, ainda que não citasse diretamente a palavra. E isso acontece frequentemente… Esconde nas metáforas as emoções e os desejos que realmente habitam os subentendidos. As entrelinhas que Alan constrói às vezes estão no gesto que perdemos ao olhar o celular na hora errada; seus subterfúgios poéticos fazem calar os que acreditam em realidade plana e em verdades únicas.

A mentira não tem lugar na poesia de Alan.

A CADA PASSO

A cada passo, marca ou pegada
caminhada árdua, luta nossa
levantar de madrugada
da cama pula, trabalha e estuda
jornada dupla e outras coisas tantas

A cada passo, pulso firme
cumpre o prazo, veia e sobressalto
cansaço bate a cada metro percorrido
até parecer de fato
que a gente tá esgotado

… que a ladeira é muito íngreme
mas a entrega nos define
e assim surge um gás
que nos faz capaz
de vencer qualquer aclive

A cada passo sacolejo o desânimo
Espetacular é o obstáculo
quando a gente ama
e se amontoa de uma força
que nos transporta pra vitória

A cada passo a sede mato
suplanto, raiz forte finco
pernas bem postadas, às suas marcas
fôlego novo, pedalo nas curvas da estrada
outro horizonte tão logo estará próximo

E feito esse esforço
ao lado dela, cessar um pouco
olhar pra nossa história construída
respirar do frescor que nos inspira
permear de amor a nossa trilha
e as paisagens acompanham a sinergia

A poesia de Alan tem um ritmo que compactua com sua caminhada. Outras coadunam com suas corridas. Além disso, o poeta descreve de maneira simples, mas não simplória, a vida cotidiana de moradores deste território que é a Baixada Fluminense. Ali ele apresenta o Sarau Donana, no Centro Cultural Donana e, também lá, o Olho de Belize assistiu a muitas de suas intrigantes teatralizações da poesia.

DEPOIS DO PRIMEIRO GRITO

Da primeira vez
que ousou alçar a voz
até me achei importante:
meu nome retumbante
e o teu tom mais voraz
mas não te via assim atroz

Quando repetiu o grito
me trincou os ouvidos
e os meus nervos se exaltaram
e o cristal quebrado
sangrou meu vestido
com a intolerância de suas investidas

Da terceira vez
já não haviam quatro paredes
pra ocultar o peso dos insultos
tive que pagar tributo
tal qual mera escrava
pra poder ter fala

Da quarta vez me desfiz do drama
te mandei pro quinto dos infernos
Pro teu governo, amor eterno
não reverbera em discursos
de força e de punhos cerrados
Assustada, fugi antes de ir à lona

Na Quinta fui dançar ciranda
fiz samba e outro de fala mansa
me levou à cama sem copo nem gole
me entorpeceu de deixar mole
Meus tímpanos foram atingidos
pelo zumbido de um balbuciar ameno

E este intercedeu postando a voz
me aniquilou na leveza feroz
me atentou em tons menores
e conheceu todas as mulheres
que em mim haviam se escondido
depois do primeiro grito

Bom, encerro este texto por aqui e deixo a página de Alan Salgueiro para os leitores que ainda não o conhecem:  https://web.facebook.com/rascunhosderevolucao/

Sugiro uma leitura atenta.

Mariana Belize

O Olho de Belize ouviu: Robson Gabiru

Dono de uma voz e um carisma totalmente iniludíveis, Robson Gabiru é, sem dúvidas, um dos grandes músicos da Baixada Fluminense. 

Gabiru brilha com seu samba de malandro, irônico, fazendo graça da Amélia e dialogando com os Demônios da Garoa. Taí a maior característica de Gabiru: o diálogo com obras e músicos consagrados que ele faz de maneira única. Ele sabe que nunca está só na cena musical. Gabiru é polifônico sem ser um barroco cansativo.

A identidade musical de Gabiru está para além da própria composição ou homenagens que faz, essa ironia fina que soa nos silêncios entre os acordes é o que faz a diferença. Os sentidos não estão todos dados: nem na risada característica, muito menos nas letras, releituras, covers… Gabiru é grande demais pra caber somente nisso. Quando ouvimos ao vivo, ele preenche cada átomo de nosso corpo com sua voz.

E a malandragem está nisso: tire os instrumentos e ainda temos um cantor. Tire o violão e ainda teremos um tom. Tire a parafernalha de show e teremos ainda a voz.

Tire tudo e sim, ainda teremos Gabiru.

Mariana Belize

PS: Deixo aqui os links que levarão os leitores até alguns vídeos e áudios de Robson Gabiru que encontrei na internet.